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sábado, 22 de junho de 2013

Proteste, mas SEM FASCISMO!

As manifestações do último dia 20 atravessaram as fronteiras, não apenas a do Brasil, mas também a da História: os números superaram o Fora Collor. Estudantes e trabalhadores reuniram-se nas ruas do país para dizer: "Basta! Não aceitamos nem mais um aumento! Queremos redução da tarifa e passe-livre já, Brasil!" Em solidariedade, emocionados, estrangeiros se uniram à nossa voz, ao nosso grito. Não há dúvida alguma que a brasileira estava com tantas insatisfações, tantas revoltas contra o sistema acumuladas que não teve polícia nem mídia para segurar.

O povo, naturalmente, culpa o governo pelo descaso. Nada mais justo, pois foi o governo que privatizou o transporte público e o colocou a serviço do lucro de alguns. Tal como ocorreu com a privatização da telefonia e vários outros serviços privatizados, os preços decolaram. Haddad, por exemplo, prometeu em campanha que o aumento não seria maior que a inflação, mas ignorou o fato que o valor atual já está bem acima inflação, e muito acima do que muitos podem pagar. Uma grande contradição: espera-se que a população de baixa renda ande de ônibus. Mas como isso é possível se eles nem sequer conseguem pagar a tarifa para poder trabalhar? E onde fica o nosso direito de ir e vir?

No papel.

O governo não valoriza o trabalhador, mas os patrões. Obviamente, são os patrões que bancam as campanhas salariais dos partidos que governam o Brasil: PSDB, PT, PMDB, PSB, PSD, DEM, PSC... A lista é longa.

E por falar em partidos...

Antipartidarismo

Tem raiva voando pra todo lado por causa da presença de alguns partidos neles, como PSTU, PSOL, PCB, PT... Principalmente o PSTU, que parece ser o partido mais persistente em mostrar para o povo que está nas manifestações. Partidos que sempre estiveram no movimento, que têm a tradição de décadas de levar suas bandeiras. Até mesmo vários partidos menores, a maioria dos quais não se denominam partidos.

Desta vez, entretanto, o povo, inexperiente com os protestos, estranhou. Mais do que isso: escandalizou-se, enraiveceu-se. E partiu pra violência, querem derrubar as bandeiras a qualquer custo. Militantes foram agredidos. E diziam: "Os partidos nos dividem! Queremos o povo unido!" Exigiam a expulsão dos militantes das manifestações.

Hum... A tentativa de eliminar partidos... Isso é fascismo!

Sim, fascismo! Inconscientemente, o povo começa a aderir a uma ideologia fascista. Não é difícil ver de onde essa ideologia vem: da mídia. Sinto dizer, cara leitora, caro leitor, mas a mídia de hoje é a mesma mídia de 1964. Não mudaram nem um pouco. Assim como apoiaram o Golpe Militar de 64 "em defesa da nação, contra a corrupção e contra o comunismo", hoje querem manipular o movimento contra o aumento das tarifas para transformá-lo num protesto contra os partidos e contra a corrupção.

Isso é o que a mídia burguesa, amiga das empresas de transporte público, quer! Eliminar todos os oponentes políticos de cena e, assim, dirigir o movimento, escolhendo suas pautas, suas ideologias e até mesmo quem é ou não aceito dentro dele. É o que ela está fazendo o tempo todo, o velho e manjado algoritmo de dividir para conquistar, já utilizado zilhões de vezes. E, infelizmente, está conseguindo. Mas ainda podemos virar esse jogo. Temos a obrigação de virar esse jogo.

Não abaixaremos as nossas bandeiras!

Corrupção

Não estou dizendo que ser contra a corrupção, por si só, é fascismo. Muito
pelo contrário. Se fosse, seríamos todos fascistas, pois somos todos contra a corrupção. Mas quais medidas serão tomadas? Tornar corrupção num crime hediondo? Então, neste caso, quem serão os políticos a serem condenados? Apenas aqueles que forem julgados. E quais políticos serão julgados?

Todos conhecemos o mensalão do PT, mas o mensalão do PSDB não foi julgado, e pelo visto não será, pois vai caducar... A privataria tucana também não foi trazida à tona (embora o PT também seja perito em privataria).

Quem escolhe quem será julgado? Não, não é o STF. É a mídia. E o povo fica à merce de sua propaganda. Se vamos lutar contra a corrupção, ótimo! Mas temos que ter pautas bem definidas, ou seremos manipulados! Seremos massa de manobra!

Sugiro que nós lutemos, acima de tudo, contra a raiz da corrupção: o financiamento privado de campanhas políticas. Sim! São os políticos financiados pelas empresas de transporte público que aceitaram o aumento da passagem requisitado por elas. O financiamento dos partidos deve ser exclusivamente público, com gastos fixos e definidos para cada cargo. Isso, evidentemente, tem que vir acompanhado do fim da imunidade parlamentar, da redução dos salários dos parlamentares, da revogabilidade dos cargos, da participação popular... Enfim, uma reforma política completa.

Sim! Não sou apenas contra a corrupção, quero uma reforma política completa! Qualquer coisa menor do que isso trabalhará contra nós, não a nosso favor.

Nacionalismo


Até agora, nas manifestações, a grande maioria das pessoas demonstra um nacionalismo inofensivo, sem causa, sem objetivo. O que é nacionalismo? Estamos defendendo a pátria? Mas de quem, se as empresas de transporte são, ao menos em parte, nacionais?

O nacionalismo, por si só, não é inerentemente fascista, mas pode ser utilizado neste sentido. Grupos fascistas e neonazistas afirmam estarem "defendendo a pátria contra os partidos". Muitos dizem: "não levem as bandeiras do seu partido, leve a bandeira do Brasil" ou "antes de ser partidário, você é brasileiro".

Não estamos defendendo o país! Já nos mostra os diversos processos revolucionários do mundo todo: Turquia, Grécia, Síria, Palestina, Egito, Chile, Canadá, Portugal... A nossa luta é internacional! Essas manifestações do Brasil foram inspiradas pela grande explosão de manifestações em incontáveis países no mundo todo.

Esta é uma luta contra a exploração da classe trabalhadora e contra as contradições do capitalismo. Oras, de fato, como pode o mundo produzir cada vez mais e os trabalhadores terem cada vez menor poder de compra? As mercadorias não deveriam, por motivos lógicos, ficarem cada vez mais baratas? E por que as cargas horárias aumentam em vez de diminuir?

E no caso do transporte público, isso é ainda mais evidente. Por que uma passagem de ônibus é mais cara do que dividir a gasolina de um carro entre cinco pessoas? Como pode ser se a quantidade de combustível por passageiro no ônibus é menor? Proporcionalmente ao número de passageiros, um ônibus é muito mais barato que um carro, e um trem ou metrô muito mais barato que um ônibus, tanto em custo de produção quanto do combustível...

Acontece que as contradições do capitalismo existem no mundo todo. Por isso, esta é uma luta internacional. É uma luta (muitas vezes inconsciente) da classe trabalhadora contra a exploração capitalista.

É preciso, entretanto, fazer uma ressalva. O nacionalismo tem um lado progressista, quase sempre ignorado pela esquerda. Nacionalismo é a maior arma contra o imperialismo, contra o controle que ele exerce sobre nosso país. Ainda somos um Brasil colônia. O sentimento nacionalista da população não deve ser combatido, mas tem que se virar contra a exploração de empresas estrangeiras: que elas não levem nossos recursos naturais nem explorem o nosso povo. Queremos um Brasil soberano! Não à entrega do nosso petróleo! Que a Petrobrás e as empresas de transporte sejam 100% estatais!

Devemos ser nacionalistas na medida em que isso nos protege contra os ataques imperialistas ao nosso povo, mas ao mesmo tempo internacionalistas na medida em que isso nos torna solidários com a luta dos povos estrangeiros e apoiadores de suas reivindicações - mesmo que isso signifique entregar alguma filial da Petrobrás em um país estrangeiro, por exemplo.

A luta é uma só!

O avanço do conservadorismo e da direita no movimento é bastante forte. Não à toa usam de violência gratuita contra manifestantes de esquerda e também homossexuais. Querem nos dividir! Querem nos expulsar do movimento! Estão do mesmo lado que a polícia: o lado da repressão. São, com ela, culpadas pelo verdadeiro vandalismo: o vandalismo contra pessoas!

Fora a violência fascista das manifestações! Temos que nos unir! Vamos fazer disputas, sim, mas que seja no campo político (política não no sentido usual, mas no sentido amplo: a disputa de ideias). Não vamos disputar quem pode ou não pode ficar nas manifestações, não vamos levar a disputa ao nível físico. As manifestações são espaços públicos. Então que venha quem é do povo, carregue a bandeira que quiser, mas que jogue fora as bandeiras da violência fascista.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

PT, esquerda e direita

Quando eu disse a um amigo "a esquerda ultimamente está em ascensão", ele retrucou que eu estava dizendo besteira, "de onde você tirou isso?" Oras, para mim está óbvio: greves, manifestações, aumento dos mandatos de esquerda obtidos nas eleições (PSTU, PSOL, entre outros), recuo dos partidos de direita (PSDB e DEM). O contra-argumento é que, essencialmente, isso não se traduziu em poder político: o PT foi obrigado a ceder a Comissão de Direitos Humanos e Minorias à bancada evangélica, por exemplo. A perda de capacidade do governo do PT de aprovar projetos de esquerda está evidente em outros exemplos.

O PT é um partido que surgiu da mobilização das massas, lutou contra a ditadura militar e assim construiu seu nome. A partir de certo ponto, começou a aceitar doações de empresas para ter recursos materiais e conseguir se eleger, tornar-se um partido viável, elegível. Obteve, então, apoio de um setor da burguesia - a burguesia interna - e também de partidos políticos de direita tradicional.

O que se tornou o PT, então? Um partido com base de esquerda, mas que ascendeu com o apoio da direita. Seria ele, então, um partido de esquerda que se aproveita da direita para obter conquistas? Outro amigo meu usou a seguinte explicação: o PT distrai a direita com um boi de piranha (por exemplo, um cargo político, ou uma lei à direita) enquanto aprova projetos considerados importantes (como o de cotas raciais).

Mas... Será que não seria justamente o contrário? Será que não é o projeto de cotas raciais que é um boi de piranha para o movimento negro que é base do PT? Podemos reformular da seguinte forma: na hora da verdade, de que lado a balança do PT pende?

A resposta a essa pergunta, na minha opinião, está no primeiro parágrafo deste texto. Estamos numa época de ascensão da mobilização das massas. As discussões sobre opressões (transfobia, racismo, machismo, homofobia) estão ganhando terreno, a consciência de esquerda está ganhando terreno. Partidos de direita tradicional (PSDB e DEM) estão em queda e tiveram que se esconder em partidos de pseudo-esquerda (PSD e PSB). Tivemos a magnífica greve das federais, o Pinheirinho também não passou sem resposta. Quem imaginaria que Feliciano teria reprovação tão grande por parte do povo? Até mesmo setores evangélicos estão contra ele! Esse aumento na mobilização é, em verdade, um fenômeno internacional: pode-se vê-la na Primavera Árabe e na Europa.

E a direita, desesperada, se radicaliza, mostra sua cara repressora (Pinheirinho, cracolândia, USP, etc), homofóbica e racista (através do Feliciano e da revista Veja). Enfim, os reacionários fazem jus ao nome e reagem.

Mas reagem a quê? Oras, reagem à ascensão política da esquerda!

E o PT, porque perde poder político no governo? Oras, porque seu poder político vem majoritariamente da burguesia! Portanto, um poder de direita que cai se a direita achar conveniente. E a burguesia, num momento de ascensão do movimento de massas, tende a querer radicalizar-se, ir à direita, para evitar derrotas políticas. Mas não abandonam o PT, afinal, o povo, tendo-o por referência, acreditará no governo que leva o seu nome. Um governo que, no fundo, não é seu, afinal, é a burguesia que se aproveita deste partido e não o contrário. É o feitiço que se vira contra o feiticeiro: o PT, que queria usar a direita para seus propósitos, no fim, acaba sendo por ela usado.

É a contradição do PT que o corrói por dentro e que o leva à direita contra a vontade de sua própria base, dos próprios petistas que são de esquerda!

A Convergência Socialista, antiga corrente do PT, percebeu esta contradição e abandonou o partido, fundando o PSTU. A fundamental tese deste partido sobre o PT parece-me, portanto, ter sido comprovada pela práxis, pela realidade, não apenas pelo caráter dos projetos que ele aprova, mas principalmente devido a essa comprovação da verdadeira origem de sua força política.

Como dizia Marx, existe ideia e existe matéria. O PT tem um programa e um nome de esquerda, tem programas políticos que se pretendem esquerda. Mas isso é só ideia. A matéria, a base material do seu poder político, ou seja, o financiamento e os partidos aliados, são de direita. Como dizia Marx, a ideia pode mudar a matéria, mas a matéria predomina sobre a ideia. A base deste partido disputa o PT num cabo-de-guerra com a burguesia, mas, sem base material, acabam perdendo. Para que a ideia tenha efeito sobre a matéria, é preciso que esta forneça condições para sua aplicação.

Mas o debate sobre idealismo versus materialismo, embora extremamente essencial, fica para outro texto :)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Minha compreensão sobre religião 1: Alienação?

Como estou acostumado a discutir com pessoas com várias opiniões diferentes pela Internet, já encontrei muitas visões diferentes acerca do que é religião, quais seus males e benefícios, e sobre secularismo. Apesar de tantas opiniões, ainda não encontrei nenhuma reflexão profunda acerca do problema ético: o que na religião é bom e o que é ruim? Após vários estudos e discussões, ainda não julgo ser capaz de responder esta pergunta por completo e definitivo, mas ao menos acredito ter alcançado um começo de resposta.

Uma afirmação bastante comum é que a religião é intrinsecamente má. Dizem que a religião é um instrumento de alienação das pessoas, fazendo-as crer em coisas imagináveis e absurdas, muitas vezes perniciosas, o que tende a levá-las a um comportamento fanático, intolerante. Embora haja algum mérito nesta afirmação, ela não é verdadeira e acredito que a melhor forma de demonstrar isso é analisando o cristianismo primitivo.

Os evangelhos do Novo Testamento (em especial os três primeiros), quando entendidos em seu devido o contexto histórico, revelam forte conteúdo político contra o Império Romano. No século I, sempre que se falava em reino, entendia-se implicitamente que era o Império Romano. Nos três primeiros evangelhos, Jesus pregava dizendo que o Filho do Homem viria logo dos Céus para estabelecer um novo reino, o Reino de Deus, um reino justo em que fariam parte os pobres e oprimidos. Seguindo o óbvio raciocínio lógico, o Império Romano não era um reino justo, o imperador não era um imperador legítimo e ambos seriam destruídos e substituídos por Deus. Entre os ricos da Galileia e da Judeia estavam os romanos, os sacerdotes do templo (que tinham ligações políticas com os romanos) e os cobradores de impostos.

Outro exemplo bastante notável é o incidente no templo em Jerusalém, onde Jesus derruba as mesas de alguns cambistas, evento que, sem dúvida, eventualmente o levou à morte. O comércio no templo era exatamente o que sustentava a vida luxuosa dos sacerdotes e os impostos que eles pagavam aos romanos para que estes garantissem o "bom funcionamento" do templo. Tal bom funcionamento incluía impedir que pessoas "impuras" ou "pecadoras" segundo a lei judaica entrassem no templo. Levando isso em consideração, os milagres de Jesus, seu questionamento à ideia de impureza (Mateus 15:1-20) e sua aceitação aos pecadores ganham um novo significado.

Muitas pessoas duvidam da existência histórica de Jesus por "falta de evidências" e, na minha opinião, elas estão equivocadas, mas isto é irrelevante para este texto. O que importa é que tanto o cristianismo quanto estes evangelhos existiam no século I.

A maior evidência desta forma de compreender o cristianismo primitivo é a carta do governador Plínio, o jovem, ao imperador Trajano. Vejamos alguns trechos dela:

Senhor:
[...]
Esta foi a regra que eu segui diante dos que me foram deferidos como cristãos: perguntei a eles mesmos se eram cristãos; aos que respondiam afirmativamente, repeti uma segunda e uma terceira vez a pergunta, ameaçando-os com o suplício. Os que persistiram mandei executá-los pois eu não duvidava que, seja qual for a culpa, a teimosia e a obstinação inflexível deveriam ser punidas.
[...]
Os que negavam ser cristãos ou tê-lo sido, se invocassem os deuses segundo a fórmula que havia estabelecido, se fizessem sacrifícios com incenso e vinho para a tua imagem [...] e se [...] amaldiçoavam a Cristo [...] achei melhor libertá-los.
[...]
Outros [...] haviam sido e depois deixaram de ser, alguns há três anos, outros há mais tempo, alguns até há vinte anos. Todos estes adoraram a tua imagem e as estátuas dos deuses e amaldiçoaram a Cristo, porém, afirmaram que a culpa deles, ou o erro, não passava do costume de se reunirem num dia fixo, antes do nascer do sol, para cantar um hino a Cristo como a um deus; de obrigarem-se, por juramento, a não cometer crimes, roubos, latrocínios e adultérios, a não faltar com a palavra dada e não negar um depósito exigido na justiça.
[...]
O assunto parece-me merecer a tua opinião, principalmente por causa do grande número de acusados.

O cristianismo, portanto, cresceu e tornou-se um inconveniente para o Império Romano. Esta carta evidencia o que incomodava tanto o imperador no cristianismo: a desobediência e a rejeição da divindade do imperador. Afinal, uma dominação militar e política requer também uma dominação ideológica, dominação à qual o cristianismo (entre outras crenças não romanas) era uma ameaça.

Há, entretanto, um detalhe que não pode ser ignorado: a arma usada pelo Império Romano contra as religiões ideologicamente contrárias a ele era a religião romana! Assim, vemos aqui a religião tomando dois papéis distintos e contraditórios. A religião romana era usada como instrumento de alienação e dominação ideológica pelo Império. Ela desempenhava o papel de justificativa: se o imperador era um deus, então tinha o direito de dominar os outros povos. O cristianismo primitivo, por outro lado, era uma arma de ninguém que Roma não conseguia controlar, diversificado, capaz de adaptar-se às diferentes culturas e épocas, criado pelo próprio povo.

Um instrumento contra a alienação! Ou ao menos contra a alienação de Roma.

Mas, no fim das contas, o Império Romano venceu. Para isso, ele usou o próprio cristianismo. Como diz o ditado, se não consegue derrotar o inimigo, una-se a ele. Foi isso o que Constantino fez com o cristianismo, que se tornou seu eficiente instrumento de dominação ideológica. Surge, então, uma nova Igreja Católica, o cristianismo regularizado e padronizado pelo Império Romano. Todas as questões organizativas deveriam passar por Roma. Foram feitos concílios para que houvesse uma única crença cristã, o que eventualmente levou à canonização dos livros aceitos. Afinal, um único império, uma única crença. Esta padronização atingiria o seu ápice na Idade Média, com a institucionalização da perseguição aos hereges, a proibição de livros e de disseminação de crenças pagãs.

Durante toda a Idade Média, o catolicismo funcionou como arma ideológica para a manutenção do poder dos reis e até dos senhores feudais. Afinal, segundo a crença católica, "todos os líderes são escolhidos por Deus e devem ser obedecidos". Os reis têm o direito divino de governar, são sempre bons e justos. Esta ideologia é ainda hoje vista em desenhos, contos de fadas e filmes: um rei só pode ser mau ou injusto se não for o legítimo herdeiro do trono.

Continua...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Boa noite, Corujinha...

Há muito tempo não poetizava, mas não pude evitar que sua morte injusta matasse também a mim. Corujinha, ainda que não seja parente nem conhecida, minha homenagem deixo-lhe aqui.
Faz meio ano que ouviu o inconcebível de tua própria mãe. Inconformada  com sua autonomia em escolher sua própria descrença, quis expulsar-lhe de casa. Sabendo que é uma menina, cutucou-lhe na ferida que mais dói, a ferida aberta do machismo. Chamou-a de puta. "Se vais ao diabo, vai com ele à zona! E que cobre apenas a merda que vale!" Sua própria mãe... Posso apenas tentar imaginar sua dor.

Posso tentar, mas fracassarei. Não posso imaginar como sentia o preconceito por ser bipolar, bissexual, ateia e menina. Das minorias, estava em quatro! Quantos de seus próprios companheiros hoje dizem: "Fraca!", pois também não podem imaginar como era vestir a sua pele.

Preocupada não apenas com o fanatismo religioso da qual era vítima, mas também com a falta de bondade nas pessoas, com os problemas do mundo e com a política. Preciso dizer, duvido de muitas das suas ideias, mas não posso duvidar de sua intenção, de sua inocência. Não posso duvidar do seu coração, menina. Nem mesmo aqueles que condenavam seu ateísmo disso são hoje capazes. Dizem que agora você está com Deus. Essa é a linguagem que eles usam para dizer que não a condenam, não poderiam. Se não a respeitavam em vida, ao menos na morte respeitam.

Mas, triste, ainda não lhe respeitam, não respeitam sua memória, sua liberdade. Fizeram questão de invadir seu Facebook, excluindo tudo o que lembrava a todos que era ateia. Links, páginas, retiraram até mesmo sua declaração no seu perfil "Religião: ateia". Querem apagar de você sua personalidade, aquilo que você mesmo construiu. Querem lembrar de você como alguém que você não era, pois para eles é muito doloroso lembrar de você.

Não bastasse, fazem de sua morte uma arma política contra aquilo em que você acreditava! Aproveitam sua morte para dizer a nós, ateus, que cultuamos o mal! Alienígenas, adoradores do diabo, ah, se somos! Levamos a pobre Corujinha à perdição! Dizem aos pais que vigiem seus filhos, para que não se percam como você. Nem mesmo agora conseguem ver a trave no próprio olho!

Você era ateia, dizem eles, e era boa. Mas, claro, era a exceção, só podia ser! Seu ateísmo era apenas uma fase, adolescência, revolta, influência dos maus amigos. Estava apenas buscando a Deus, mas não conseguia achá-lo, então se zangava. Quantos de nós não ouvimos a mesma coisa? É evidente, existe um manual: "O que dizer para um querido quando descobrir que ele é ateu". É com certeza um best-seller mundial. Pois nós, de todos os lugares, ouvimos as mesmas frases.

Nem sequer lhes ocorre que talvez, só talvez, não encontramos a Deus porque ele não está em lugar algum! Nem conseguem imaginar que talvez Deus não se deixe encontrar porque esta talvez seja sua própria vontade. Homens vãos, medrosos do desconhecido, por que razão Deus, existindo, detestaria os ateus como vós? Por que ele teria o ateísmo como inimigo ou perverso?

Não tem nada a temer, minha jovem, pois até mesmo Deus lhe daria razão!

Descanse, por fim, deste mundo tão cheio de intolerância e reações inflamadas ao que tem medo. Se apenas ele percebesse que você tinha muito mais razão para temê-lo do que ele a você! Mas, feito um menino assustado, chutou, pisou, esmagou-lhe. E você, pobrezinha, não aguentou o sofrimento, não poderia, minha flor.

A você, minha querida Corujinha, dou-lhe um beijo de adeus e de boa noite. Durma em paz, mas, por fim, peço-lhe que não sonhe. Deixe seus sonhos aqui.



http://www.paulopes.com.br/2013/01/suicidio-de-militante-ateista-repercute-no-facebook.html

http://www.facebook.com/robertabaetahomenagem

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

"Deus seja louvado": por trás da polêmica

Foi negado o pedido do Ministério Público Federal de São Paulo de que fosse retirada a frase "Deus seja louvado" das cédulas de real. Muitos acompanharam todo o processo, os compartilhamentos de imagens e links pelo Facebook e, diante de tanto rebuliço, comentaram "Mas é só uma frase!" Sim, por um lado, é só uma frase. Mas, por outro lado, se fosse apenas uma frase, não causaria tanta polêmica, e, portanto, há algo além disso nessa história toda - não dá pra compreendê-la fora do seu devido contexto. O que pretendem os defensores da retirada desta frase?

Aliás... quem são tais defensores?

Os defensores são, em especial, os setores da sociedade que se sentem marginalizados pelo cristianismo. A grande responsável é a recente expansão do ateísmo, não de um ateísmo qualquer, mas de um ateísmo que não quer viver dentro do armário em uma sociedade que repudia sua própria existência.

Em vista da perseguição ideológica aos ateus, - que é bastante forte inclusive no Brasil e pode ser vista de forma icônica no discurso de ódio do Datena, - estes aglutinaram-se pela Internet, em especial ao redor de piadas e argumentações que colocam em xeque as crenças religiosa. Eles passaram a ter consciência da intolerância religiosa existente na sociedade. Como consequência, surgiu a preocupação de que cristianismo deixe de ser a "religião padrão". Daí é que surge a ideia de retirar a palavra "Deus" dos papéis-moeda.

Nem a existência, nem a inexistência da frase "Deus seja louvado" nas cédulas são de grande relevância. A retirada, entretanto, teria um caráter simbólico: tirar o cristianismo de sua posição privilegiada.


Divergências

Entretanto, não concordo com esta reivindicação, muito menos com a forma que está sendo feita a disputa política para sua adoção. Apresenta-se laicismo como um fim (a separação completa entre Igreja e Estado), como um princípio que é válido por si só, não como um meio para atingir um fim, a saber: a liberdade e o respeito à diversidade religiosa. Em outras palavras, dizer simplesmente que o dinheiro é público e que, portanto, não deve fazer referência a nenhuma religião não é argumento válido, tampouco dizer que isso fere a constituição.

Independentemente da legalidade, é necessário verificar se esta medida ajuda a atingir o fim desejado: o respeito à diversidade religiosa. Para isso, se não existe respeito às minorias religiosas, é preciso perguntar: qual a origem deste problema? Seria por acaso uma frase nas cédulas? Crucifixos nos tribunais? Nomes cristãos por todos os lados? Ou seriam todos estes meros sintomas do fato que o cristianismo é visto pelos cristãos como a "religião padrão" de tal forma a tornar invisíveis as outras religiões?

Entretanto, o debate sobre "manter ou retirar a frase" reduz toda a questão a "cristianismo" versus "ausência de cristianismo" - uma falsa dicotomia. Oras, existe, por acaso, maneira mais eficiente de reforçar a ideia que o cristianismo é, de fato, a religião padrão, fazendo com que ela seja a única a se inserir nos debates sobre laicismo? Pretender que o cristianismo deixe de ser o centro das atenções tornando-o mais ainda o centro das atenções?

Qual a visibilidade que esta polêmica dá ao Candomblé, à Umbanda, às religiões indígenas? Ao espiritismo, ao budismo, ao hinduísmo, ao islamismo e ao judaísmo? Parece mesmo que a questão não se trata de diversidade religiosa ou respeito às religiões, mas ausência completa das religiões na esfera pública ou estatal!

Oras, parece-me muito mais adequado fazer a disputa política para que todas as religiões tenham a possibilidade de serem representadas no papel moeda. Isso é bem simples, na verdade: as cédulas poderiam conter, por exemplo, "Viva a diversidade religiosa do Brasil!" Esta, a meu ver, seria uma medida muito mais democrática. É bem mais simples explicar para um cristão que as outras religiões também fazem parte do país e que é dever do Estado representá-las devidamente do que dizer que ele está proibido de manifestar publicamente a sua religião. É muito mais dialogável defender que outras religiões também tiveram papel importante na História do que defender que o cristianismo não teve papel nenhum.

Além, é claro, de ser mais justo.

É preciso, aliás, ir muito além disso. É necessário promover iniciativas de incentivo à manifestação cultural e religiosa popular, em especial das religiões marginais da sociedade. Deve haver ensino religioso nas escolas públicas, mas que não se restrinja ao cristianismo, e sim que torne visível a pluralidade religiosa, não só de hoje, mas também do passado, com o apoio e presença dos grupos religiosos locais.


Sobre laicismo de Estado
Atento, porém, que meu posicionamento [sobre laicismo de Estado] difere da mera divisão entre Estado e Igreja, como se a mesma fosse identificada como Público e Privado, incapacitando o exercício político dos atores religiosos. Não distinguo o homem religioso do homem político. Trata-se de uma falsa polarização que visa apenas a sectarização do cenário político. As convicções morais e ideológicas são as mesmas: ninguém pode defender uma causa no parlamento ou no partido, e não defendê-la da mesma maneira no templo ou na paróquia. E vice-versa.

Eu, portanto, considero que a liberdade religiosa se atinge, não a partir da criação de um muro entre religião e Estado, pelo contrário: são necessárias pontes. É necessário que as diversas religiões e não-religiões tenham a possibilidade de se inserir na sociedade, a tornarem-se visíveis. É preciso garantir que elas permaneçam em diálogo entre si, para que sejam respeitados os interesses comuns acima dos particulares.

As instituições religiosas, estas, sim, devem permanecer longe do Estado, assim como também devem permanecer as empresas e os bancos. Isso porque estas entidades têm excessivo poder político, de forma que a presença delas na política impossibilita a democracia. Entretanto, proibir a participação da religião no Estado significa, na prática, impedir que as pessoas tenham sua opinião democraticamente representada e, portanto, também impossibilita a democracia!

Em outras palavras o Estado deve conter e representar todas as religiões, mas nenhuma Igreja!

[Defendo] a autonomia dos cristãos evangélicos para defender suas escolhas eleitorais. Todo debate no interior da igreja deve ser bem-vindo, o que caminha justamente no contrário das atuais práticas políticas de orientação de voto feita por pastores, bispos e apóstolos em diversas denominações evangélicas do nosso país. O "voto de cajado", [...] típico voto de cabresto no interior das igrejas, difundiu-se como praga, e seu funcionamento se tornou ainda mais complexo e estruturado na medida em que denominações como a Igreja Universal do Reino de Deus passaram a aplicá-la, influenciando a reorganização de práticas políticas em todo campo religioso e político brasileiro.


E assim, as lideranças religiosas abusam da fé do povo para obter poder político. Pelo voto de cajado e pelo poder econômico, as grandes Igrejas garantem a sua capacidade de intervenção política sobre o Estado, praticamente privando seus fiéis de uma opinião política própria, independente. O Estado deve, portanto, garantir a estes fiéis a efetiva participação a que eles têm direito na política.

Para combater essa dura realidade, é preciso lutar para que os religiosos tenham uma espaço para desenvolver uma opinião política própria, ainda que equivocada. Eles devem ter contado com as outras religiões, para compreender a necessidade de um mínimo acordo com respeito ao que é público, comum a todos. Este é o único caminho que torna possível que haja, de fato, respeito à diversidade religiosa no país e para minar a influência do conservadorismo religioso na política.

terça-feira, 31 de julho de 2012

A maldade inevitável da burguesia

As grandes empresas e os grandes bancos são apontados pelos socialistas como a origem dos maiores problemas da sociedade. Eles são controlados pela classe social denominada burguesia. Demonstrarei aqui, de forma lógica e precisa, que a burguesia é tende a tornar-se antiética com o tempo pela própria natureza da natureza competitiva do sistema capitalista.

Que fique claro que, com este texto, eu não pretendo incentivar a qualquer tipo de discriminação contra as pessoas mais ricas, até porque nem todas elas são más, muito menos incentivar qualquer tipo de violência. Em vez disso, quero apenas defender que um sistema que permita que a burguesia tenha um enorme poder político é muito prejudicial à sociedade.

O mercado é bastante conhecido por sua natureza competitiva. Se há competição, então existe a seleção dos indivíduos mais adaptados ao sistema (como acontece na Teoria de Darwin). Em outras palavras, os indivíduos que possuem os meios de produção são os indivíduos mais preparados a lucrar.

Qual a relação entre a adaptação ao sistema e a ética dos sujeitos envolvidos? Considere dois indivíduos: o primeiro é incapaz de trapacear e o segundo não tem peso algum na consciência, de forma que pode ou não trapacear, o que for mais conveniente para ele na ocasião. Qual deles tem maiores chances de sucesso?

A resposta é bastante simples: o segundo. De fato, se eventualmente aparecer uma oportunidade de negócio em que o dono da fábrica precise trapacear para fechá-lo, ou mesmo que ele possa obter um lucro maior trapaceando, então o segundo terá maior sucesso. É claro que, às vezes, trapacear pode ser desvantajoso para a empresa. Neste caso, os indivíduos selecionados serão aqueles que melhor sabem determinar se a trapaça vale a pena em cada situação. O fato é que os indivíduos mais honestos, que não se dispõem a trapacear, ficam para trás.

Não é à toa que as grandes empresas de softwares usam o (ridículo) sistema de patentes dos EUA para oprimir a concorrência, fazem acordos às ocultas com outras empresas, fornecem um péssimo e caro serviço de assistência técnica, mentem para os consumidores que reclamam...

Uma madeireira que não tem impedimentos éticos em extrair madeira de áreas de preservação ambiental terá maior chances de lucro (desde que tenha cuidado de não ser pega pela fiscalização) do que uma madeireira que decida seguir a lei.

Um empresa sem peso na consciência em explorar o trabalho de crianças para obtenção de lucro terá maior sucesso do que outra empresa que não explore crianças e que pague um salário no mínimo razoável pelo trabalho de cada empregado.

Os mais ricos talvez exaltariam a ganância, a perseguição dos próprios interesses, a trapaça, a mentira e até a transgressão da lei em troca do lucro?

O comportamento de um determinado indivíduo é dito ético quando ele se recusa a agir de determinadas maneiras. Por exemplo, quando ele não mata, não trapaceia, não rouba, etc. Ou seja, um indivíduo antiético não é impedido de agir de forma ética em uma determinada situação se isto lhe for vantajoso, mas, por outro lado, um indivíduo ético pode ser impedido de agir de forma antiética e, por isso, perder uma oportunidade de lucro. E, de fato, este impedimento ocorre, como nos exemplos sitados acima.

Assim, segue que o comportamento antiético é uma vantagem evolutiva neste sistema de competição. Portanto, as características que tendem a levar a um comportamento antiético são, aos poucos, selecionadas pelo sistema de competição capitalista. Ou seja, com o tempo, a burguesia (em especial a alta burguesia) tende a se tornar cada vez mais antiética a não ser que haja alguma força externa que os impeça deste tipo de comportamento.

Uma possível força externa seria o convívio em sociedade. Entretanto, sabemos que os mais ricos, em geral, vivem socialmente isolados do resto da população.

Vejamos se o que foi aqui exposto se verifica na realidade. O Iluminismo trouxe várias novas ideias à sociedade que são consideradas éticas (ao menos para os padrões atuais), entre as quais a liberdade e a igualdade. A Revolução Francesa, a primeira revolução burguesa, reproduziu estes ideias. Entretanto, o tempo passou e a burguesia mudou muito. A Revolução Industrial é bastante conhecida pelos grandes problemas sociais que gerou por causa da exploração, contradizendo a liberdade e a igualdade pregada inicialmente, causando a maior crise que ocorrera até então. A reação de então foi finalmente o início de várias restrições à liberdade da burguesia.

Aparentemente, a burguesia tornou-se antiética com o tempo.

Hoje em dia, vemos muitos acordos escusos entre empresários e políticos, mentiras, distorções e manipulações propagadas pela mídia. Vemos muitas formas utilizadas pelos poderosos de burlar as leis para assegurar seus interesses. Mesmo havendo cada vez mais leis na tentativa de evitar a libertinagem do sistema de competição, isso não parece ser o suficiente. Muitas vezes, a força política da classe dominante supera a vontade popular na aprovação de leis, como o Novo Código Florestal.
E as estatísticas mostram que, de fato, existe uma correlação entre riqueza e comportamento antiético.

Oras, se estamos, de fato, vivendo em um sistema faz com que a classe dominante seja cada vez mais antiética, o que poderemos fazer? Seremos forçados a combater politicamente esta tendência, criando cada vez mais leis que controlem as empresas enquanto elas descobrem cada vez mais formas de burlar, manipular e contorná-las nessa guerra de classes sem fim? Não seria possível virar este jogo?

terça-feira, 10 de julho de 2012

Democracia e a Anel

Assembleia Nacional da Anel, 17 de junho, Plenária Final.
Um minuto de silêncio pelos estudantes perseguidos e mortos.

Talvez a etapa mais importante na minha compreensão sobre o que é socialismo foi minha viagem à Assembleia Nacional da Anel. O processo de discussão de assuntos, pautas e propostas era ao mesmo tempo dinâmico, bem organizado e democrático. Mas o mais curioso de tudo é que não havia líderes: havia apenas uma comissão cujo papel era anotar cada decisão tomada e conduzir as discussões e a plenária. Neste caso, quem é que dava a palavra final?

O voto.

Na Plenária Final, que foi, sem dúvida, a parte mais impressionante de todo o evento, as propostas separadas em diversos temas eram mostradas por um projetor e lidas à plateia. "Algum destaque?", perguntava uma das moças sentadas a uma mesa sobre o palanque. Frequentemente alguém levantava a mão e dizia "Destaque!" e a ele ou ela era dada a permissão de explicar o problema à plateia em 30 segundos. Muitas vezes, consistia apenas numa alteração das palavras. Por exemplo, em vários pontos em que lia-se "estudantes", foi sugerido que fosse adicionado "funcionários e professores", para dar um caráter de união à greve, o que é indubitavelmente necessário. Após a alteração, a proposta era colocada em votação:
- Delegados favoráveis à proposta, por favor, ergam seus crachás. Contrários. Abstenções. A proposta foi aprovada por contraste.

Quando o destaque apresentado gerava uma polêmica, ao autor eram dados 2, 3 ou 4 minutos para defender a alteração ou remoção da proposta. O mesmo tempo era dado a um defensor da proposta original e a votação decidia qual delas seria mantida. Tudo acontecia muito rapidamente, quem piscou perdeu algum detalhe.

A votação mais surpreendente foi sobre a principal reivindicação da greve a ser levada ao Comando Nacional de Greve dos Estudantes. Haviam duas propostas, os delegados votaram a favor da primeira. Ao ver a segunda proposta ser negada, sua defensora dirigiu-se à mesa que estava sobre o palanque. Depois a mesa dirigiu-se à plateia:
- Ela está me explicando que, como esta é uma votação muito importante, os observadores devem votar. Observadores favoráveis à proposta, por favor, ergam seus crachás...

Neste momento, meu queixo estava no chão. Em vez de dizerem que isso não era permitido ou de defenderem-se com algum artigo ou parágrafo no estatuto da Anel, permitiram que a votação fosse feita. Não havia burocracia como vi acontecer na CP do prefeito Silvio Félix e (mais de uma vez) no Conselho Universitário da Unicamp. A vontade do povo, de fato, era superior a qualquer regra previamente estabelecida.

Ah! E eu que pensava que sabia o que era democracia!

Afinal, quem é que cria as regras? Não é a própria plenária, o próprio parlamento? Oras, se é o próprio parlamento que as cria, então ele também pode alterá-las sem, para isso, ter que passar pela burocracia por elas criada.

Como não havia nenhuma figura de liderança, todas as divergências eram resolvidas a partir da negociação e do voto dos delegados. As polêmicas muitas vezes eram difíceis de se entender, de forma que era necessário bastante concentração e reflexão - ao menos da minha parte. De fato, como as defesas só se limitavam a, no máximo, 4 minutos, o expoente não tinha a oportunidade de mastigar as informações. Por isso, era necessário que o ouvinte já tivesse conhecimento básico sobre o assunto. E quem não tinha, claro, não custava conversar e discutir brevemente com a pessoa ao lado, o que acontecia o tempo todo, a despeito dos pedidos de silêncio por parte da organização.

As resoluções tomadas por essa assembleia com respeito à greve foram levadas ao Comando Nacional de Greve dos Estudantes e foram aprovadas.

Aprendi muitas coisas com esta experiência. Passei a entender que política se aprende apenas na prática, não na teoria. Não adianta simplesmente estudar ou pesquisar: deve-se aprender a discutir e defender seu próprio ponto de vista. Apenas participando das próprias tomadas de decisão é que se aprende como e por que elas são feitas, quais as pressões políticas envolvidas, os prós e contras de cada opção.

Em segundo lugar, também descobri que tanto a própria forma de funcionamento deste evento como a estrutura política dos sindicatos são fortemente baseadas nas teorias sócio-econômicas marxistas. Em outras palavras, isso é socialismo na prática. Ao contrário do que muitos costumam pensar, socialismo não é simplesmente teórico em quase nada.

Ao contrário do que se pensa, socialismo não significa necessariamente ausência de diferenças sociais, de salários ou remuneração diferenciada. Afinal de contas, numa verdadeira democracia, tudo é discutível. E é isso o que socialismo, de fato, significa: democracia.


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Mais detalhes sobre o evento

Deixo aqui alguns exemplos para que saibam a que nível de detalhes as decisões eram tomadas.

Na sessão de abertura, houve discursos de várias pessoas, incluindo um bombeiro (uma vez que a Anel apoiou a greve de bombeiros e policiais do Rio de Janeiro), vários comandos locais de greve das universidades federais e estudantes de outros países.

Os participantes foram divididos (aleatoriamente ou por livre escolha) em grupos para realizar discussões sobre diversos temas (a Greve das Federais, o Rio+20 e a Cúpula dos Povos, machismo, racismo, homofobia, o Novo Código Florestal, a Usina de Belo Monte...)

As discussões ocorrem da mesma forma que nos sindicatos e no movimento estudantil: quem tivesse algo para expor se inscrevia e os inscritos iam sendo chamados um a um. As falas dos participantes eram limitadas a 3, 4 ou 5 minutos.

No grupo de discussão sobre racismo, um rapaz disse ser contraditório a Anel apoiar a greve de policiais e bombeiros, porque, resumindo, "as instituições militares fazem parte do aparato de repressão de Estado, reprimem os pobres e os negros". Aplaudiram. Em resposta, uma moça argumentou: "Contraditório? Contraditório são os policiais negarem-se a obedecer o Estado e fazer uma greve quando deveriam estar oprimindo a população!" Os aplausos foram mais fortes.

Durante as discussões, as propostas de ação política que eram apresentadas pelos participantes eram anotadas para serem votadas (depois de previamente selecionadas) na Plenária Final.

Numa proposta, se não me engano, sobre reivindicação de aumento de bolsa estudantil, solicitaram que fosse antes reivindicada a alteração de uma lei que impedia este aumento. A alteração foi aprovada.

Quando surgiu a proposta de fazer cartazes e faixas contrárias à UNE nas greves e nos atos, uma moça apresentou um destaque bem simples, que foi fortemente aplaudido: "Gente, não precisa disso." A votação foi contrária à proposta.

Sobre a principal reivindicação da greve. A primeira proposta defendia o destino de 10% do PIB à educação e elaboração de um Plano Nacional de Educação que, de fato, atenda às necessidades do país. A segunda, além dos 10%, reivindicava também a estatização de faculdades privadas, o fim do vestibular e vagas nas universidades para todos os estudantes.

A defensora da primeira proposta explicou que quem escolhe as reivindicações da greve são os grevistas e não a Anel. O papel desta deveria apenas ser dar sustentação a estas reivindicações e não criar reivindicações que estão longe da atual realidade. A defensora da segunda disse que deveria-se pensar também nas necessidades dos estudantes das universidades privadas. A votação, tanto dos delegados quanto dos observadores, foi em favor da primeira.

Outro exemplo do caráter da democracia do evento foi quando alguém defendeu que a Anel deveria mudar sua posição com respeito às greves dos militares. Esta decisão havia sido aprovada pela CSP-Conlutas, à qual a Anel é filiada. A polêmica surgida é se a Anel deveria manter esta posição ou se esta deveria ser colocada sob discussão e votação. Houve, então, as defesas dos dois lados e a votação decidiu que a decisão tomada pela CSP-Conlutas deveria ser mantida.

Ao final de todas as resoluções, a mesa apresentou o órgão executivo que teria o papel de colocá-las em prática. Não havia nenhum destaque a ser apresentado e a votação em favor deste órgão foi unânime. Seus mandatos são revogáveis a qualquer momento.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

"Loucos por ti, Corinthians!"

Não, caro leitor, esse não é mais um texto de mais um torcedor fanático do Corinthians comemorando o tão sofridamente título obtido por este nesta quarta. Não que eu não tenha comemorado ou ficado contente, pelo contrário, mas minha alegria não foi pelo título, mas pelos torcedores. Há muito vejo-os sendo caçoados especialmente por seu time sem estádio, com pouco apoio financeiro e poucos títulos. Isso quando não os chamam de bandidos ou mesmo de hipócritas. Sic.

Sim, a disputa da torcida é mais violenta que a dos próprios times!

Convenhamos, sejamos racionais, o fanatismo por um time de futebol não faz muito sentido. Um esporte faz sentido até o ponto em que é uma diversão, linha que há tempos foi ultrapassada. Isso, claro, sem falar em muitas outras características associadas a este esporte. Mas há uma coisa que faz ainda menos sentido do que tudo isso.

Imagine que você viajou para Gana. Alguns ganenses recém-conhecidos lhe convidam a assistir a um jogo deste país contra a Argélia. Nestas condições, o que lhe parece mais natural: torcer por Gana, por nenhum dos dois times ou pela Argélia? Você comemoraria os gols do adversário com a intenção de deixar os ganenses chateados? Talvez até provocá-los, deixá-los bravos?

E, quando Gana possivelmente ganhasse um torneio africano, você falaria para eles que Gana não tem tantos títulos quanto o time do seu país? Compararia números, vitórias, títulos, para que eles não comemorassem tanto a vitória que obtiveram?

É impressão minha ou somos naturalmente mais amigáveis com as pessoas mais distantes do que com aquelas que nos rodeiam? Não me impressiona que nossos líderes tenham tanta facilidade em dominar-nos, fazer-nos de gato e sapato, se criamos picuinhas até mesmo naquilo que não importa.

E quanto ao prefeito Kassab, que fez a sandice de proibir que a maior torcida do estado comemorasse a primeira vez que seu time obteve a taça da Libertadores na avenida Paulista? E de ainda por cima mandar a polícia para reprimir os desobedientes? Kassab, vá à merda! Infeliz, filho de chocadeira que não suporta ver a felicidade alheia, vá tomar no seu cu!

Fui para um bar assistir ao jogo com os amigos. O jogo não me interessava, mas, ainda assim, torci pelo Corinthians, gritei e pulei quando marcaram os gols. Emocionei-me em ver as aclamações pelo time amado, os gritos e os casos de rouquidão permanente. Ao final, alguns, sem acreditar no que viam, choravam de emoção. Era a comemoração deste bando de loucos. Loucos pelo Curintia.

Ao vê-los, pensei: o que seria deles se o time perdesse? Se tamanha foi a alegria, quão grande não seria a decepção? O que seria deste povo que, mesmo tão sofrido, mesmo com tanta pressão, não abriu mão de sua esperança? Que, mesmo sendo alvo de gozação e até preconceito, negou-se a perder sua identidade? Povo tão forte, mas, ao mesmo tempo, tão frágil!

Não dou a mínima para o Corinthians, mas eu morreria por essa torcida.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Política é uma merda!

Corrupção, acordos escusos, mentiras deslavadas. Esta é a política que nós conhecemos. Um político acusa o outro, a mídia expõe os problemas de vários e o povo trabalhador, cada vez mais perdido, vai perdendo as esperanças e o interesse em política. Desanimado, chamam-no de palhaço por não se informar. Mas quem é o verdadeiro palhaço? Seria o povo, que vive em condições precárias, sem educação para saber o que está acontecendo, quem é honesto e quem não é? Ou seriam os políticos, que aparecem na televisão com um sorriso e um pedido: "Vote em mim, pois eu sou honesto, capacitado e represento as suas vontades"?

É como se dissessem:
- Caro cidadão, cara cidadã, adivinhe se eu digo a verdade! Eu sei, você não me conhece, mas terá que me julgar nestes poucos minutos a partir desta aparência maquiada, deste sorriso falso e deste discurso artificial. Não pode? Como não pode? Você não é vidente?

O que poderíamos esperar: que aquele que mal tem tempo para o lazer abrisse mão de seu descanso para aprender sobre política? Que culpa tem a mãe de família se não tem tempo de pesquisar as propostas de candidato por candidato e buscar entender quais serão os resultados se forem aplicadas? Como ela poderia saber que o jornal ou a revista que lê ou assiste todos os dias tem fortes tendências políticas que são, aliás, contrárias às suas verdadeiras necessidades? Esperaríamos, então, que todo santo habitante de nosso mundo conhecesse o mínimo sobre política e economia antes que pudesse votar "corretamente"?

Mas como isso poderia acontecer se aqueles que a sociedade ergue ao Palácio (que seriam teoricamente responsáveis por fornecer esta educação mínima necessária) não representam seus interesses, mas os interesses da burguesia? Oras, esta teria algum interesse em sua educação política?

Pobre povo que trabalha o dia todo para sustentar, não só a própria família, mas também a essa corja de políticos e burgueses mal-agradecidos! Se o político que, ontem, era do povo, dizia-se revolucionário, hoje aperta a mão dos conhecidamente corruptos em troca de alguns minutos de televisão, que raios de revolução foi essa? Oras, políticos fazendo acordos escusos para serem eleitos, isso já existia aos montes! Onde está a transparência, a honestidade, a verdadeira representatividade?

Cadê a democracia?

E o povo, se já estava perdido, quanto mais agora! Em vez de aproximar o povo da política, dão ainda maiores motivos para que este se afaste e confie ainda menos nos políticos! Se fazem acordos e concessões, se passam a perna no povo às abertas, o que farão quando estiverem no oculto? Se mentem para ele sem a menor vergonha na cara, como podem sequer ousar dizer que o representarão quando estiverem lá em cima, naquele palanque burguês? Ou devo dizer: palanquim?

Como a sociedade confiará em alguém que nem sequer é sincero quando se dirige a ela? Não podem nem mesmo respeitar àquela que os colocam lá em cima? Neste mar de insanidade e hipocrisia, onde estão os políticos que se negam a rebaixar seu próprio nível em troca de votos e a seguir jogando este jogo de cartas marcadas? Quem é que dará um basta nessa discussão sobre quem dentre os políticos é o "menos pior"?

Não são os políticos que são corruptos, muitos deles (acredito eu) têm as melhores intenções do mundo. Mas o sistema todo é corrupto. Raros são aqueles que estão lá em cima sem o apoio financeiro das empresas e dos bancos - e, portanto, representam a estes, não ao povo que os elegeu. A corrupção começa aí: não são as propostas, a capacidade ou o discurso, mas sim o dinheiro que elege quais partidos e quais políticos terão condições financeiras para fazer sua campanha e concorrer às eleições. Por trás de cada político corrupto há um burguês corruptor garantindo a manutenção de seus interesses. Isso não mudará, não pode mudar sem uma verdadeira revolução.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Em defesa da religião

Um homem do século XXI com uma boa educação passa por no mínimo, 11 anos dentro de escolas, estudando matemática, literatura, arte, química, física, biologia, sem contar a formação cultural recebida pelos pais e pelas relações sociais com outros indivíduos formados. Passamos por inúmeras evoluções revoluções na história humana. Eis que então que o ateu moderno, um homem conheceu o valor do pensamento crítico, do raciocínio lógico e tantas outras formações culturais inacessíveis à maioria da população de hoje, é capaz de dizer: "Ah, mas eu não preciso de religião na minha vida."

É muito fácil dizer isso, não é?

De fato, depois que a sociedade está toda construída e de toda a formação que ele recebeu, ele é capaz de finalmente capaz de "libertar-se" da religião. Perfeitamente, assim como ele também não precisa mais de uma lança para caçar ou de um cavalo para se locomover. Mas será mesmo que o que foi construído a partir da religião seria possível de se construir de alguma outra forma? Mais ainda, será que seria sequer possível emergir uma sociedade a partir de homens não civilizados sem que eles construíssem uma religião?

Vejamos. Pegamos um grupo de bebês, colocamos eles numa grande ilha, longe de qualquer contato com a civilização. Criamos-lhes da forma mais básica possível, os ensinamos a caçar, pescar, enfim, apenas o essencial para a sua sobrevivência e esperamos um tempo bem longo, talvez milhões de anos. Como faríamos para impedir que eles criassem uma religião? Proibiríamos-lhes de manifestar qualquer crença no sobrenatural? Mas, se fizéssemos isso, não estaríamos influenciando-os com a nossa cultura e, portanto, alterando os resultados do experimento?

Não é nem sequer possível falar de uma sociedade de seres humanos que supostamente se desenvolveu sem a religião. Só houve na História da humanidade uma sociedade sem religião que se tenha conhecimento: a tribo indígena dos Pirarrã. Uma sociedade bem sucedida, mas pouco "desenvolvida" (o leitor entenda): não tem escrita, Estado ou leis. É bastante comum as pessoas cometerem anacronismo ao afirmarem que a humanidade poderia ter se desenvolvido da forma como se desenvolveu sem religião a partir da sua experiência com a sociedade atual. Ela está enraizada de tal forma em todas as culturas que é impossível determinar como elas teriam se desenvolvido sem sua influência.


O caráter social das crenças religiosas tiveram um papel fundamental na formação dos Estados e das leis. Ela foi um mecanismo rudimentar, mas eficiente, de transmissão e conservação do conhecimento acumulado. Em seus rituais encontram-se, por exemplo, práticas associadas à higiene e à prevenção de doenças, como nos conhecidos rituais de purificação do judaísmo.

Um fenômeno característico da religião é a projeção psicológica. Faz parte da natureza do homem atribuir a elementos do mundo externo as emoções e concepções internas. Ao analisar os textos religiosos antigos de forma literal, o que se encontra é um mito. Ao analisá-los como se fossem metáforas, o que se vê neles é um retrato da sociedade em que ele foi escrito e da opinião pessoal de quem o escreveu. São descrições de como o homem vê a natureza, a sociedade e a si mesmo.


É por isso, por exemplo, que existem deuses da guerra, da civilização, da lei, da justiça (característica da sociedade), da sabedoria, da coragem, do amor (característica do próprio homem), entre tantos outros exemplos, e é pelo mesmo motivo. As divindades centrais do hinduísmo, por sua vez, descrevem o processo como a sociedade se constrói (Brahma), se mantem (Vishnu) e se transforma (Shiva).

Como a projeção psicológica é natural ao homem, a criação da religião também é.

Vishnu e Shiva apresentam uma relação com as correntes de pensamento de esquerda e direita, ou liberais e conservadoras. Enquanto os liberais priorizam a transformação, a renovação da sociedade, os conservadores prezam pela manutenção da ordem social. Vishnu - o conservador - governa o mundo, impedindo a qualquer custo que Shiva - o liberal - destrua-o até o momento em que tudo se torna um caos impossível de se manter. Então Vishnu sai de cena e Shiva destrói tudo para que o mundo possa ser reconstruído por Brahma - uma descrição de como funciona a revolução.

Na doutrina budista, encontram-se várias ideias essenciais para a época e até mesmo para os dias de hoje: a valorização do pensamento crítico, do ceticismo, do auto-conhecimento, formas de lidar com o sofrimento humano que envolvem caridade, empatia (o budismo entendia sobre empatia bem antes da psicologia), a desvalorização da vingança... Por exemplo, Kalama Sutta, um discurso de Buda, defende o ceticismo, a autoridade de cada um em decidir por si mesmo no que deve acreditar e alerta para o que hoje nós denominamos falácias lógicas.

O budismo sobreviveu durante cinco séculos antes das histórias de seu fundador serem colocadas nos livros, mostrando como ele foi uma ferramenta poderosa na transmissão destas ideias mesmo sem serem colocadas nos livros.

As religiões são frequentemente criticadas pelos seus maus valores morais e por disseminar práticas perniciosas. Tome, por exemplo, a escravidão, tortura e outras práticas perversas perpetuadas pelas instituições religiosas há alguns séculos. Pela natureza da religião que é contrária ao questionamento e à crítica, foi bem difícil para os questionadores reverterem este quadro.

Entretanto, passam-se os séculos e a religião toma para si a posição contrária às mesmas práticas perversas que antes ela defendia. E o mais importante: com o mesmo rigor, dificultando o regresso à selvageria, conservando os valores morais que os antigos inimigos da religião lutaram tanto para estabelecer!

Que fique claro um detalhe: a religião não cria nem fornece uma fonte para os valores morais. Ela é, por natureza, um mecanismo de conservação. Por este motivo, ela precisa ser renovada pelos seus membros. Daí a grande importância do constante questionamento a ela.

É uma pena para a História que o catolicismo tenha se tornado um sistema autoritário, ditatorial, repressivo, imutável, inquestionável. Herança maldita do Império Romano. Durante a Idade das Trevas, Vishnu (a Igreja Católica) assassinou Shiva (os hereges), mantendo o caos. A dinâmica e diversidade revolucionária do cristianismo dos primeiros séculos só veio renascer recentemente com a Reforma Protestante. Não é à toa que ainda hoje ele defende uma ideologia arcaica: o cristianismo parou no tempo. Não é religião digna dos tempos modernos.

Comparem cristianismo e islamismo com judaísmo, budismo e espiritismo nas questões éticas contemporâneas como homossexualidade, aceitação de outras crenças, valorização da ciência, secularismo... Enquanto, em geral, os dois primeiros dizem "os descrentes serão eternamente torturados", os outros três dizem "salvação independe de crença".

Dizem que religião é antiquada, coisa do passado, contrária ao pensamento crítico, ao ceticismo, à razão. Estão equivocados, subestimam a capacidade de mutação e adaptação da religião. O pastor Gondim não é um caso isolado, ele representa um fenômeno que surgiu em resposta ao avanço da secularização e do ateísmo: o irenismo. Enquanto antirreligiosos fixam-se no que a religião é, ou às vezes até mesmo no que ela foi, não conseguem ver o que ela se tornando. Teorizam que é impossível que a religião se torne racional e não percebem que, na verdade, isso já está acontecendo. Eles cometem um erro atacar feroz e imprudentemente a religião como um todo, espalhando o sentimento de aversão e ódio. Isso é pensamento anti-irenista e, por isso, alimenta o fanatismo religioso. A religião deve ser atacada pelo seu lado podre, não pelo lado renovador.

sábado, 19 de maio de 2012

A culpa não é das vítimas

Edir, Valdemiro e Cia: nós todos sabemos como eles adoram enganar o povo para que este os entregue gratuita e irrestritamente o vil papel de dentro do bolso. Basta que eles subam ao palco, ou melhor, ao púlpito, e que façam uma pequena apresentação de mágica, com direito a "crescimento" de pernas, expulsão de demônios, adivinhação de nomes, profecias e apresentações musicais. São os nossos queridos amigos, os líderes religiosos exploradores e oportunistas. Há quem culpe as vítimas por sua ignorância, por não terem autoridade sobre si mesmas e darem um basta a esta exploração.

Para mim, é extremamente perturbador ter que defender algo tão óbvio: a exploração é por responsabilidade e culpa do explorador, não do explorado. Pensar o oposto é culpar as vítimas de estupro por sua forma de andar e de se vestir, é usar a culpa por "invasão de propriedade" como desculpa para tratar seres humanos como os animais que abatemos para consumo. É como o ladrão que invade sua casa e lhe diz: "A culpa é sua, a janela estava aberta".

Então, se uma casa está destrancada, eu tenho permissão de entrar e levar o que eu bem entender? Se eu ver uma moça sem camisa na rua e estuprá-la, não estarei cometendo um crime? E se, por outro lado, eu tiver a capacidade de enganar pessoas desinformadas, tenho o direito de fazê-lo?

Para muitos, essa é a lógica: se uma vítima poderia ter evitado o crime que ela sofreu, então ela é culpada pelo crime. Não tenho inteligência o bastante para entender o que leva alguém a perder a capacidade de julgamento, de compaixão, de compreensão e ser capaz de defender essa lógica absurda. Tiram uma regra de conduta do bolso, afirmam que a vítima desobedeceu esta regra e que, portanto, tem a responsabilidade pela sequência de eventos. Ainda que esta regra seja completamente insignificante ou totalmente sem sentido. Ainda que eles não saibam ou não concordem com esta regra.

A exploração por parte de Edir Macedo e Valdemiro Santiago equipara-se à forma como maridos violentos abusam de suas mulheres, convencendo-as de que têm culpa pela violência que sofreram. O medo manipula as pessoas. "Se você abandonar a sua fé, o demônio vai tomar conta de você e você vai voltar à mesma situação em que você estava quando chegou aqui, pedindo a ajuda de Jesus para mudar de vida. Cuidado, o demônio está dentro da igreja!"

"O demônio não quer que você deixe o seu dinheiro aqui no altar."

É claro que as vítimas destes líderes religiosos são crédulas e que, por isso, são enganadas. Mas não se pode culpar alguém pelo que não sabe. Mesmo que eles tenham sido avisados a respeito desta enganação, ainda assim não são responsáveis: eles não são obrigados a entender e nem mesmo concordar com as acusações. Afinal de contas, por que eles dariam mais ouvidos a você do que aos parentes, amigos, pastores? A culpa não é dos que não entendem, mas sim daqueles que sabem o que estão fazendo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Procurando desculpas para ser bom

As tentativas de qualificar os ateus como imorais e talvez até como criminosos não obtiveram sucesso: há incontáveis evidências em contrário. Entretanto, uma crítica ainda permanece: a de que o ateísmo, enquanto ideologia, não é oferece de forma objetiva e absoluta uma razão para um comportamento ético. Em outras palavras, se não existe uma autoridade máxima que diga que seu propósito na vida é ser bom, qual o motivo que o ser humano teria para ser bom, para buscar a cooperação mútua em vez do lucro?

A primeira tentativa de responder a esta questão seria analisar quantos grandes feitos a humanidade foi capaz de realizar a partir da cooperação mútua. Dominamos o mundo a tal ponto que a maior ameaça à humanidade somos nós mesmos. Não todos nós, mas aqueles que não têm respeito à vida, à dignidade humana, exatamente aqueles indivíduos que buscam o lucro próprio acima do bem-estar da sociedade motivados pela ganância, raiva, egoísmo. Mas, neste caso, por que deveríamos nos importar com a humanidade e não apenas com nós mesmos? Por que importar-se com o bem-estar alheio? Isso faria sentido se houvesse a garantia de que essa preocupação seria recíproca. Entretanto, vemos que, na prática, não é o que acontece: frequentemente vemos seres humanos ajudando uns aos outros mesmo que seja aparentemente impossível que os ajudados eventualmente sejam capazes de retribuir.

O que nos leva a pergunta: mas por quê? Por que nós ajudamos as velhinhas a atravessar a rua? Por que, na nossa cultura, valorizamos tanto a ajuda que é oferecida sem esperar algo em troca? Por que é que existe toda essa preocupação em justificar a necessidade intrínseca em se fazer o que é correto?

Isto é óbvio: nós somos assim, isso faz parte da nossa natureza. Caro leitor, analise esta discussão que existe entre diferentes religiões e filosofias de vida acerca da origem e da natureza da própria ética, da diferença entre o certo e o errado. As justificativas e os argumentos variam, umas acusam as outras de não terem uma justificativa própria. Oras, quando alguém fica tentando encontrar motivos para fazer o que quer, então não se trata de procurar justificativas, mas sim desculpas.

Por mais engraçado que isso seja, o ser humano tem a mania de procurar uma desculpa para ser bom e tem medo de não conseguir encontrá-la.

Bondade é um instinto humano. Se alguém sofre, nós sofremos também, a não ser que, de alguma forma, bloqueemos a nossa razão e nossa emoção. Ao ver alguém sofrer por causa da fome, sentimos o desespero de alguém que não tem o que comer. Quando nos deparamos com alguém sendo assassinado, sentimos a mesma indignação que a vítima sente por não merecer este tratamento. A verdade é que não conseguimos ser felizes diante da infelicidade alheia, não se tivermos plena consciência dela, não se percebermos que este sofrimento é desmerecido. Isso não é nada novo, Buda já dizia isso há 25 séculos atrás.

Há muitos pelo mundo que tentam negar essa simples verdade. Fazem malabarismos lógicos na tentativa de justificar o injustificável, de encontrar desculpas para satisfazer seus desejos pessoais egoístas sem sentir a culpa pelas consequências de seus atos. É por isso é que os estudantes da USP foram caracterizados como maconheiros, vagabundos que querem transgredir a lei sem sofrer as "consequências". Daí também a necessidade que a mídia teve em dizer que os ex-moradores do Pinheirinho eram invasores, usuários de drogas, criminosos. É este o porquê de toda a distorção dos fatos por parte dos neoliberais na tentativa de fazer a exploração de pessoas para obtenção de lucro não parecer tão ruim.

Se eles encarassem os fatos, a verdade nua e crua, se tivessem contato com o sofrimento que suas atitudes causam, deixariam de serem felizes.

Nós, seres humanos, desejamos a bondade e não há ninguém, neste universo ou fora dele, que vai nos condenar por isso. Essa justificativa já é o bastante.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A velha na janela

A velha vai aparecer para nos assustar. É isso o que eu ouvia enquanto simplesmente respirava, deitado, olhos fechados, esperando adormecer. Ignorei a conversa, é claro, tão claro quanto Catatau não fizera o mesmo, dizia estar com medo da velha. Ele deveria compreender que aquela história, já tinha consciência sem tê-la ouvido, era ridícula. Sem dúvida, apenas mais uma estória apelando ao estereótipo de bruxa. No dia seguinte, tivesse a oportunidade, deixaria isso claro na mente dele. As vozes e os risos, que antes ocupavam o ar, aquietaram-se. Ouço passos e o remexer do colchão que estava reservado ao pequenino. Um sussurro rompeu o silêncio.

- Você está dormindo?

Abri os olhos, virei o rosto e vi o vulto de um menino quase deitado, cotovelo sobre o colchão e a cabeça curiosa levantada na expectativa de que eu estivesse acordado. Queria conversar.

- Isso foi um sim? - voltou ao indagar, inquieto com o meu silêncio.
- Está falando comigo?
- Sim.

Não falamos sobre a velha, mas sobre praia e qualquer outra coisa. Ele decerto queria espantar o medo conversando com o primo, o mais velho entre os meninos. Ele tem segurança, não deve ter medo de histórias de terror. De fato, é difícil que eu consiga ver terror num filme do gênero, quanto mais numa pequena fábula inventada para espantar o menorzinho.

Manda-Chuva, irmão mais velho do Catatau, entra no quarto. Catatau diz que Tico, seu irmão, e Teco, amigo deste, planejavam nos assustar de alguma forma. Manda-Chuva fecharia a porta e ligaria o ventilador. Sugeri que deixassem a porta aberta. Não, não pode, a velha pode aparecer. Ah, claro, a velha.

- Não se preocupe, Catatau, - dizia o Manda-Chuva, - eu e o Bandeirinha não vamos deixar a velha lhe pegar.

Não concordo com esse tipo de atitude. "Não se preocupe que o bicho-papão não vai lhe pegar, estamos aqui pra lhe proteger." Não, ele precisava compreender o óbvio, não fugir dele.

- Acho muito estranho essa história de "velha".

Escutei um "por quê?" duplo e o breve silêncio à espera de uma resposta após morder na isca. Adoro esse silêncio.

- Alguém já viu velha fazer mal a alguém?
- Já vi, nos filmes, - respondeu Catatau.
- Ah, nos filmes, é claro. Já as velhas eu que conheço são do tipo "ah, coma mais um pouquinho..."
- Mas essa velha só aparece na janela com uma faca na mão para assustar, depois foge.
- Ela só assusta? Então ela é boazinha.

Pausa para assimilar. Ponto pra mim. Risos. Catatau ri engraçado, ele não é apenas uma criança, é quase um estereótipo.

- Ah, imagine uma velha com uma faca na mão, deve assustar bastante. E se ela, do nada, aparece na porta da sacada, já pensou?
- Mas como ela faria para chegar aqui na sacada?
- Voando, - replicou o Manda-Chuva.
- Mas como? Ela é o super-homem.
- Ela é uma vampira.

Ahm? Vampira?

- Então pra quê a faca?

Mais uma pausa para pensar. A faca é só para assustar, ah, então tá. E deve assustar, afinal, imagine uma velha com uma faca na mão. A não ser que ela esteja passando manteiga no pão. Mais risos.

- Você está distraído e de repente vê a velha pelo espelho, atrás de você, com uma faca, passando manteiga no pão.
- Mas tem que ser no banheiro, - dizia Catatau, - porque é lá que eles falaram que a velha aparece.
- No espelho do banheiro? - indaguei.
- É, - dizia, num tom de "qual o problema?"

- Mas não era na janela?

Mais pausa e mais risos. Ninguém conseguiu entender. Mas é bem fácil entender: trata-se de uma estória criada em camadas. A velha na janela com uma faca é uma camada. Avelha no espelho do banheiro é outra, criada para deixar a primeira mais assustadora. A velha vampira é outra velha. Cada uma das camadas é criada na tentativa de corrigir uma imperfeição das anteriores. Mas as camadas não concordam entre si quando são analisadas, são diferentes e inconsistentes entre si. Os ouvintes da estória, entretanto, ficam tão concentrados em ter medo da velha que não percebem os detalhes.

- Essa história tem mais furos que uma peneira! - comentava, no meio das gargalhadas que custavam a se extinguir.
- Essa história tem mais furos que as vítimas da velha! - comentou o Manda-Chuva, provocando ainda mais gargalhadas.

Pensei que este comentário faria Catatau sentir medo. Tenho impressão que ele, desde o começo, no fundo, não acreditava na história, mas queria que alguém lhe tirasse qualquer dúvida de que se tratava de uma mentira. Nas histórias que se contam, ou alguém acredita, ou desacredita, em maior ou menor grau. Na vida real, não é tão simples assim. Se Catatau acreditasse na história, não teria rido do comentário nefasto do Manda-Chuva. Se Catatau não acreditasse, não teria comentado que Manda-Chuva conseguiu consertar a história.

- Não conseguiu, não! - comentei, ao que o Manda-Chuva concordou.
- Conseguiu, sim.
- Ele não conseguiu consertar nada, não, Catatau. Ele só conseguiu botar medo, mas a história tem ainda mais inconsistências. Por exemplo, ela não aparecia na janela só pra assustar? Mas agora ela tem vítimas! E ela não era um vampira? Mas vampiros só deixam dois furos. E se ela é vampira, pra quê a faca?
- Para assustar.
- Então, para assustar! E não...
- Mas essa não foi o que eu contei para o Tico e o Teco, - interrompeu-me Manda-Chuva - e a minha história não tem inconsistências. Eu vi uma velha parada na sacada aí da frente, olhando, mas de repente ela sumiu. Então eu falei com o porteiro e ele disse que tinha uma velha naquele apartamento, mas ela tinha morrido há 15 anos atrás. Depois disso, ela apareceu nesta sacada.

Tive a impressão que esta era a primeira camada, que passou da boca do Manda-Chuva às de Tico e Teco, que, por sua vez, acrescentaram mais camadas à estória, para torná-la mais palpável.

- Uma velha morando ali? - disse eu, depois de cogitar por um segundo. - Mas estes prédios, apartamentos de praia e verão, não são de morar, são de alugar. Ninguém "mora" aqui.
- Ah, não sei, foi o que o porteiro me disse.

Pude sentir a frustração do Manda-Chuva. Não que ele quisesse amedrontar o pequeno, mas deve ter se frustrado por não conseguir criar uma estória coerente.
Eu ia apresentar mais objeções, - o prédio não devia ter 15 anos, uma velha não moraria num apartamento com escada interna feito para umas sete pessoas, - mas fui interrompido, para a minha surpresa, pelas objeções do próprio Catatau. Fim de jogo, Catatau finalmente entendeu e eu sorri. Não bastava que ele soubesse que era apenas uma estória, era necessário que ele compreendesse isso. Mais do que isso, era necessário que ele aprendesse a lição: ele não precisa de mãe, pai, primo ou irmão para protegê-lo de estórias. Para isso, ele tem o próprio cérebro.

É vergonhoso para o mundo que um pivete como ele conseguiu aprender esta lição tão óbvia, mas tão menosprezada, em menos de 15 minutos. Adultos, quando seus filhos têm medo de uma estória, dizem-nos para não terem medo, que é uma mentira, uma bobagem que eles inventaram para botar-lhes medo. Estes adultos ainda não aprenderam esta lição: se é tão óbvio que é apenas uma estória, por que eles não mostram isso? Por que eles não explicam o motivo?

É óbvio, é porque eles pensam que a estória é falsa, mas não sabem por quê! Eles apenas julgam saber! Eles pensam que sabem! Mas não sabem, apenas pensam! Portanto, em vez de esclarecer, ocultam; em vez de acender as luzes, apagam-nas e deixam as crianças no escuro. Ensinam-nas: acredite em mim, não neles. Acredite em tudo o que eu disser, não duvide, não questione, não tente compreender. É bem simples: Papai Noel existe, bicho-papão não existe, coelhinho da páscoa existe, ponto, fim de papo. Por quê? Ah, por favor, faça uma pergunta mais fácil!

Barulho na porta.
- Ai, meu Deus! - exclamou Catatau. - Ah, Teco!

Catatau ria tanto que nem conseguia mais falar. Tico e Teco eram os donos dos vultos que entraram aos gritos, trancos e barrancos e que riram em seguida.

- Vocês se assustaram? - perguntava Teco.
- Claro que não, né?
- Não, mas fala sério, alguém se assustou?
- Ah, claro, nós morremos de medo, nossa! Olha o Catatau, está se acabando de tanto rir, você acha que ele ficou com medo?

Pausa.
- Ah, está bem. Mas, diga, de quê vocês estavam rindo?
- Da história que vocês dois contaram!
- É, essa história tem um monte de furos!
- Furos? Que furos?

Na tentativa de que os dois se frustrassem e nos deixassem em paz, eu disse-lhes que velhas não são assassinas. Velhas são avós, ou caducas, e às vezes podem até ser chatas, mas não fazem nada de mais. Nem sequer conseguiriam segurar uma faca. Novamente, comentaram sobre as velhas dos filmes. Ah, é claro, as velhas dos filmes são super-velhas, escalam paredes e dão saltos mortais. Contei também que hora diziam que a velha aparecia na janela, hora no espelho. Riram de seu próprio embaraço.

Explicaram que a velha conseguia voar para aparecer na janela porque era um fantasma. Parei para pensar.

- Mas fantasmas podem segurar facas? Fantasmas voam?
- Sim.
- Como é que você sabe?

Pausa.

- Ah, a gente conversou com ela ali na sacada! - dizia Tico, rindo.
- É, a gente falou com ela, - confirmava Teco.

Estenderam o assunto por mais um tempo, sem tentar explicar mais nada. Eu também não falei muito, estava cansado, queria dormir.

- Vejam, - disse o manda-chuva, - nós já estamos cansados dessa estória, queremos dormir. Vão embora, deixem a gente dormir.
- É, eu não estou com medo da velha, Tico, - disse o catatau, - eu estou com medo de você, deixe a gente em paz.
- Convenhamos, todo o mundo sabe que a velha não existe, - complementou o manda-chuva.

Os dois saíram do quarto e a velha faleceu.
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