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sábado, 22 de junho de 2013

Proteste, mas SEM FASCISMO!

As manifestações do último dia 20 atravessaram as fronteiras, não apenas a do Brasil, mas também a da História: os números superaram o Fora Collor. Estudantes e trabalhadores reuniram-se nas ruas do país para dizer: "Basta! Não aceitamos nem mais um aumento! Queremos redução da tarifa e passe-livre já, Brasil!" Em solidariedade, emocionados, estrangeiros se uniram à nossa voz, ao nosso grito. Não há dúvida alguma que a brasileira estava com tantas insatisfações, tantas revoltas contra o sistema acumuladas que não teve polícia nem mídia para segurar.

O povo, naturalmente, culpa o governo pelo descaso. Nada mais justo, pois foi o governo que privatizou o transporte público e o colocou a serviço do lucro de alguns. Tal como ocorreu com a privatização da telefonia e vários outros serviços privatizados, os preços decolaram. Haddad, por exemplo, prometeu em campanha que o aumento não seria maior que a inflação, mas ignorou o fato que o valor atual já está bem acima inflação, e muito acima do que muitos podem pagar. Uma grande contradição: espera-se que a população de baixa renda ande de ônibus. Mas como isso é possível se eles nem sequer conseguem pagar a tarifa para poder trabalhar? E onde fica o nosso direito de ir e vir?

No papel.

O governo não valoriza o trabalhador, mas os patrões. Obviamente, são os patrões que bancam as campanhas salariais dos partidos que governam o Brasil: PSDB, PT, PMDB, PSB, PSD, DEM, PSC... A lista é longa.

E por falar em partidos...

Antipartidarismo

Tem raiva voando pra todo lado por causa da presença de alguns partidos neles, como PSTU, PSOL, PCB, PT... Principalmente o PSTU, que parece ser o partido mais persistente em mostrar para o povo que está nas manifestações. Partidos que sempre estiveram no movimento, que têm a tradição de décadas de levar suas bandeiras. Até mesmo vários partidos menores, a maioria dos quais não se denominam partidos.

Desta vez, entretanto, o povo, inexperiente com os protestos, estranhou. Mais do que isso: escandalizou-se, enraiveceu-se. E partiu pra violência, querem derrubar as bandeiras a qualquer custo. Militantes foram agredidos. E diziam: "Os partidos nos dividem! Queremos o povo unido!" Exigiam a expulsão dos militantes das manifestações.

Hum... A tentativa de eliminar partidos... Isso é fascismo!

Sim, fascismo! Inconscientemente, o povo começa a aderir a uma ideologia fascista. Não é difícil ver de onde essa ideologia vem: da mídia. Sinto dizer, cara leitora, caro leitor, mas a mídia de hoje é a mesma mídia de 1964. Não mudaram nem um pouco. Assim como apoiaram o Golpe Militar de 64 "em defesa da nação, contra a corrupção e contra o comunismo", hoje querem manipular o movimento contra o aumento das tarifas para transformá-lo num protesto contra os partidos e contra a corrupção.

Isso é o que a mídia burguesa, amiga das empresas de transporte público, quer! Eliminar todos os oponentes políticos de cena e, assim, dirigir o movimento, escolhendo suas pautas, suas ideologias e até mesmo quem é ou não aceito dentro dele. É o que ela está fazendo o tempo todo, o velho e manjado algoritmo de dividir para conquistar, já utilizado zilhões de vezes. E, infelizmente, está conseguindo. Mas ainda podemos virar esse jogo. Temos a obrigação de virar esse jogo.

Não abaixaremos as nossas bandeiras!

Corrupção

Não estou dizendo que ser contra a corrupção, por si só, é fascismo. Muito
pelo contrário. Se fosse, seríamos todos fascistas, pois somos todos contra a corrupção. Mas quais medidas serão tomadas? Tornar corrupção num crime hediondo? Então, neste caso, quem serão os políticos a serem condenados? Apenas aqueles que forem julgados. E quais políticos serão julgados?

Todos conhecemos o mensalão do PT, mas o mensalão do PSDB não foi julgado, e pelo visto não será, pois vai caducar... A privataria tucana também não foi trazida à tona (embora o PT também seja perito em privataria).

Quem escolhe quem será julgado? Não, não é o STF. É a mídia. E o povo fica à merce de sua propaganda. Se vamos lutar contra a corrupção, ótimo! Mas temos que ter pautas bem definidas, ou seremos manipulados! Seremos massa de manobra!

Sugiro que nós lutemos, acima de tudo, contra a raiz da corrupção: o financiamento privado de campanhas políticas. Sim! São os políticos financiados pelas empresas de transporte público que aceitaram o aumento da passagem requisitado por elas. O financiamento dos partidos deve ser exclusivamente público, com gastos fixos e definidos para cada cargo. Isso, evidentemente, tem que vir acompanhado do fim da imunidade parlamentar, da redução dos salários dos parlamentares, da revogabilidade dos cargos, da participação popular... Enfim, uma reforma política completa.

Sim! Não sou apenas contra a corrupção, quero uma reforma política completa! Qualquer coisa menor do que isso trabalhará contra nós, não a nosso favor.

Nacionalismo


Até agora, nas manifestações, a grande maioria das pessoas demonstra um nacionalismo inofensivo, sem causa, sem objetivo. O que é nacionalismo? Estamos defendendo a pátria? Mas de quem, se as empresas de transporte são, ao menos em parte, nacionais?

O nacionalismo, por si só, não é inerentemente fascista, mas pode ser utilizado neste sentido. Grupos fascistas e neonazistas afirmam estarem "defendendo a pátria contra os partidos". Muitos dizem: "não levem as bandeiras do seu partido, leve a bandeira do Brasil" ou "antes de ser partidário, você é brasileiro".

Não estamos defendendo o país! Já nos mostra os diversos processos revolucionários do mundo todo: Turquia, Grécia, Síria, Palestina, Egito, Chile, Canadá, Portugal... A nossa luta é internacional! Essas manifestações do Brasil foram inspiradas pela grande explosão de manifestações em incontáveis países no mundo todo.

Esta é uma luta contra a exploração da classe trabalhadora e contra as contradições do capitalismo. Oras, de fato, como pode o mundo produzir cada vez mais e os trabalhadores terem cada vez menor poder de compra? As mercadorias não deveriam, por motivos lógicos, ficarem cada vez mais baratas? E por que as cargas horárias aumentam em vez de diminuir?

E no caso do transporte público, isso é ainda mais evidente. Por que uma passagem de ônibus é mais cara do que dividir a gasolina de um carro entre cinco pessoas? Como pode ser se a quantidade de combustível por passageiro no ônibus é menor? Proporcionalmente ao número de passageiros, um ônibus é muito mais barato que um carro, e um trem ou metrô muito mais barato que um ônibus, tanto em custo de produção quanto do combustível...

Acontece que as contradições do capitalismo existem no mundo todo. Por isso, esta é uma luta internacional. É uma luta (muitas vezes inconsciente) da classe trabalhadora contra a exploração capitalista.

É preciso, entretanto, fazer uma ressalva. O nacionalismo tem um lado progressista, quase sempre ignorado pela esquerda. Nacionalismo é a maior arma contra o imperialismo, contra o controle que ele exerce sobre nosso país. Ainda somos um Brasil colônia. O sentimento nacionalista da população não deve ser combatido, mas tem que se virar contra a exploração de empresas estrangeiras: que elas não levem nossos recursos naturais nem explorem o nosso povo. Queremos um Brasil soberano! Não à entrega do nosso petróleo! Que a Petrobrás e as empresas de transporte sejam 100% estatais!

Devemos ser nacionalistas na medida em que isso nos protege contra os ataques imperialistas ao nosso povo, mas ao mesmo tempo internacionalistas na medida em que isso nos torna solidários com a luta dos povos estrangeiros e apoiadores de suas reivindicações - mesmo que isso signifique entregar alguma filial da Petrobrás em um país estrangeiro, por exemplo.

A luta é uma só!

O avanço do conservadorismo e da direita no movimento é bastante forte. Não à toa usam de violência gratuita contra manifestantes de esquerda e também homossexuais. Querem nos dividir! Querem nos expulsar do movimento! Estão do mesmo lado que a polícia: o lado da repressão. São, com ela, culpadas pelo verdadeiro vandalismo: o vandalismo contra pessoas!

Fora a violência fascista das manifestações! Temos que nos unir! Vamos fazer disputas, sim, mas que seja no campo político (política não no sentido usual, mas no sentido amplo: a disputa de ideias). Não vamos disputar quem pode ou não pode ficar nas manifestações, não vamos levar a disputa ao nível físico. As manifestações são espaços públicos. Então que venha quem é do povo, carregue a bandeira que quiser, mas que jogue fora as bandeiras da violência fascista.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

PT, esquerda e direita

Quando eu disse a um amigo "a esquerda ultimamente está em ascensão", ele retrucou que eu estava dizendo besteira, "de onde você tirou isso?" Oras, para mim está óbvio: greves, manifestações, aumento dos mandatos de esquerda obtidos nas eleições (PSTU, PSOL, entre outros), recuo dos partidos de direita (PSDB e DEM). O contra-argumento é que, essencialmente, isso não se traduziu em poder político: o PT foi obrigado a ceder a Comissão de Direitos Humanos e Minorias à bancada evangélica, por exemplo. A perda de capacidade do governo do PT de aprovar projetos de esquerda está evidente em outros exemplos.

O PT é um partido que surgiu da mobilização das massas, lutou contra a ditadura militar e assim construiu seu nome. A partir de certo ponto, começou a aceitar doações de empresas para ter recursos materiais e conseguir se eleger, tornar-se um partido viável, elegível. Obteve, então, apoio de um setor da burguesia - a burguesia interna - e também de partidos políticos de direita tradicional.

O que se tornou o PT, então? Um partido com base de esquerda, mas que ascendeu com o apoio da direita. Seria ele, então, um partido de esquerda que se aproveita da direita para obter conquistas? Outro amigo meu usou a seguinte explicação: o PT distrai a direita com um boi de piranha (por exemplo, um cargo político, ou uma lei à direita) enquanto aprova projetos considerados importantes (como o de cotas raciais).

Mas... Será que não seria justamente o contrário? Será que não é o projeto de cotas raciais que é um boi de piranha para o movimento negro que é base do PT? Podemos reformular da seguinte forma: na hora da verdade, de que lado a balança do PT pende?

A resposta a essa pergunta, na minha opinião, está no primeiro parágrafo deste texto. Estamos numa época de ascensão da mobilização das massas. As discussões sobre opressões (transfobia, racismo, machismo, homofobia) estão ganhando terreno, a consciência de esquerda está ganhando terreno. Partidos de direita tradicional (PSDB e DEM) estão em queda e tiveram que se esconder em partidos de pseudo-esquerda (PSD e PSB). Tivemos a magnífica greve das federais, o Pinheirinho também não passou sem resposta. Quem imaginaria que Feliciano teria reprovação tão grande por parte do povo? Até mesmo setores evangélicos estão contra ele! Esse aumento na mobilização é, em verdade, um fenômeno internacional: pode-se vê-la na Primavera Árabe e na Europa.

E a direita, desesperada, se radicaliza, mostra sua cara repressora (Pinheirinho, cracolândia, USP, etc), homofóbica e racista (através do Feliciano e da revista Veja). Enfim, os reacionários fazem jus ao nome e reagem.

Mas reagem a quê? Oras, reagem à ascensão política da esquerda!

E o PT, porque perde poder político no governo? Oras, porque seu poder político vem majoritariamente da burguesia! Portanto, um poder de direita que cai se a direita achar conveniente. E a burguesia, num momento de ascensão do movimento de massas, tende a querer radicalizar-se, ir à direita, para evitar derrotas políticas. Mas não abandonam o PT, afinal, o povo, tendo-o por referência, acreditará no governo que leva o seu nome. Um governo que, no fundo, não é seu, afinal, é a burguesia que se aproveita deste partido e não o contrário. É o feitiço que se vira contra o feiticeiro: o PT, que queria usar a direita para seus propósitos, no fim, acaba sendo por ela usado.

É a contradição do PT que o corrói por dentro e que o leva à direita contra a vontade de sua própria base, dos próprios petistas que são de esquerda!

A Convergência Socialista, antiga corrente do PT, percebeu esta contradição e abandonou o partido, fundando o PSTU. A fundamental tese deste partido sobre o PT parece-me, portanto, ter sido comprovada pela práxis, pela realidade, não apenas pelo caráter dos projetos que ele aprova, mas principalmente devido a essa comprovação da verdadeira origem de sua força política.

Como dizia Marx, existe ideia e existe matéria. O PT tem um programa e um nome de esquerda, tem programas políticos que se pretendem esquerda. Mas isso é só ideia. A matéria, a base material do seu poder político, ou seja, o financiamento e os partidos aliados, são de direita. Como dizia Marx, a ideia pode mudar a matéria, mas a matéria predomina sobre a ideia. A base deste partido disputa o PT num cabo-de-guerra com a burguesia, mas, sem base material, acabam perdendo. Para que a ideia tenha efeito sobre a matéria, é preciso que esta forneça condições para sua aplicação.

Mas o debate sobre idealismo versus materialismo, embora extremamente essencial, fica para outro texto :)

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

"Deus seja louvado": por trás da polêmica

Foi negado o pedido do Ministério Público Federal de São Paulo de que fosse retirada a frase "Deus seja louvado" das cédulas de real. Muitos acompanharam todo o processo, os compartilhamentos de imagens e links pelo Facebook e, diante de tanto rebuliço, comentaram "Mas é só uma frase!" Sim, por um lado, é só uma frase. Mas, por outro lado, se fosse apenas uma frase, não causaria tanta polêmica, e, portanto, há algo além disso nessa história toda - não dá pra compreendê-la fora do seu devido contexto. O que pretendem os defensores da retirada desta frase?

Aliás... quem são tais defensores?

Os defensores são, em especial, os setores da sociedade que se sentem marginalizados pelo cristianismo. A grande responsável é a recente expansão do ateísmo, não de um ateísmo qualquer, mas de um ateísmo que não quer viver dentro do armário em uma sociedade que repudia sua própria existência.

Em vista da perseguição ideológica aos ateus, - que é bastante forte inclusive no Brasil e pode ser vista de forma icônica no discurso de ódio do Datena, - estes aglutinaram-se pela Internet, em especial ao redor de piadas e argumentações que colocam em xeque as crenças religiosa. Eles passaram a ter consciência da intolerância religiosa existente na sociedade. Como consequência, surgiu a preocupação de que cristianismo deixe de ser a "religião padrão". Daí é que surge a ideia de retirar a palavra "Deus" dos papéis-moeda.

Nem a existência, nem a inexistência da frase "Deus seja louvado" nas cédulas são de grande relevância. A retirada, entretanto, teria um caráter simbólico: tirar o cristianismo de sua posição privilegiada.


Divergências

Entretanto, não concordo com esta reivindicação, muito menos com a forma que está sendo feita a disputa política para sua adoção. Apresenta-se laicismo como um fim (a separação completa entre Igreja e Estado), como um princípio que é válido por si só, não como um meio para atingir um fim, a saber: a liberdade e o respeito à diversidade religiosa. Em outras palavras, dizer simplesmente que o dinheiro é público e que, portanto, não deve fazer referência a nenhuma religião não é argumento válido, tampouco dizer que isso fere a constituição.

Independentemente da legalidade, é necessário verificar se esta medida ajuda a atingir o fim desejado: o respeito à diversidade religiosa. Para isso, se não existe respeito às minorias religiosas, é preciso perguntar: qual a origem deste problema? Seria por acaso uma frase nas cédulas? Crucifixos nos tribunais? Nomes cristãos por todos os lados? Ou seriam todos estes meros sintomas do fato que o cristianismo é visto pelos cristãos como a "religião padrão" de tal forma a tornar invisíveis as outras religiões?

Entretanto, o debate sobre "manter ou retirar a frase" reduz toda a questão a "cristianismo" versus "ausência de cristianismo" - uma falsa dicotomia. Oras, existe, por acaso, maneira mais eficiente de reforçar a ideia que o cristianismo é, de fato, a religião padrão, fazendo com que ela seja a única a se inserir nos debates sobre laicismo? Pretender que o cristianismo deixe de ser o centro das atenções tornando-o mais ainda o centro das atenções?

Qual a visibilidade que esta polêmica dá ao Candomblé, à Umbanda, às religiões indígenas? Ao espiritismo, ao budismo, ao hinduísmo, ao islamismo e ao judaísmo? Parece mesmo que a questão não se trata de diversidade religiosa ou respeito às religiões, mas ausência completa das religiões na esfera pública ou estatal!

Oras, parece-me muito mais adequado fazer a disputa política para que todas as religiões tenham a possibilidade de serem representadas no papel moeda. Isso é bem simples, na verdade: as cédulas poderiam conter, por exemplo, "Viva a diversidade religiosa do Brasil!" Esta, a meu ver, seria uma medida muito mais democrática. É bem mais simples explicar para um cristão que as outras religiões também fazem parte do país e que é dever do Estado representá-las devidamente do que dizer que ele está proibido de manifestar publicamente a sua religião. É muito mais dialogável defender que outras religiões também tiveram papel importante na História do que defender que o cristianismo não teve papel nenhum.

Além, é claro, de ser mais justo.

É preciso, aliás, ir muito além disso. É necessário promover iniciativas de incentivo à manifestação cultural e religiosa popular, em especial das religiões marginais da sociedade. Deve haver ensino religioso nas escolas públicas, mas que não se restrinja ao cristianismo, e sim que torne visível a pluralidade religiosa, não só de hoje, mas também do passado, com o apoio e presença dos grupos religiosos locais.


Sobre laicismo de Estado
Atento, porém, que meu posicionamento [sobre laicismo de Estado] difere da mera divisão entre Estado e Igreja, como se a mesma fosse identificada como Público e Privado, incapacitando o exercício político dos atores religiosos. Não distinguo o homem religioso do homem político. Trata-se de uma falsa polarização que visa apenas a sectarização do cenário político. As convicções morais e ideológicas são as mesmas: ninguém pode defender uma causa no parlamento ou no partido, e não defendê-la da mesma maneira no templo ou na paróquia. E vice-versa.

Eu, portanto, considero que a liberdade religiosa se atinge, não a partir da criação de um muro entre religião e Estado, pelo contrário: são necessárias pontes. É necessário que as diversas religiões e não-religiões tenham a possibilidade de se inserir na sociedade, a tornarem-se visíveis. É preciso garantir que elas permaneçam em diálogo entre si, para que sejam respeitados os interesses comuns acima dos particulares.

As instituições religiosas, estas, sim, devem permanecer longe do Estado, assim como também devem permanecer as empresas e os bancos. Isso porque estas entidades têm excessivo poder político, de forma que a presença delas na política impossibilita a democracia. Entretanto, proibir a participação da religião no Estado significa, na prática, impedir que as pessoas tenham sua opinião democraticamente representada e, portanto, também impossibilita a democracia!

Em outras palavras o Estado deve conter e representar todas as religiões, mas nenhuma Igreja!

[Defendo] a autonomia dos cristãos evangélicos para defender suas escolhas eleitorais. Todo debate no interior da igreja deve ser bem-vindo, o que caminha justamente no contrário das atuais práticas políticas de orientação de voto feita por pastores, bispos e apóstolos em diversas denominações evangélicas do nosso país. O "voto de cajado", [...] típico voto de cabresto no interior das igrejas, difundiu-se como praga, e seu funcionamento se tornou ainda mais complexo e estruturado na medida em que denominações como a Igreja Universal do Reino de Deus passaram a aplicá-la, influenciando a reorganização de práticas políticas em todo campo religioso e político brasileiro.


E assim, as lideranças religiosas abusam da fé do povo para obter poder político. Pelo voto de cajado e pelo poder econômico, as grandes Igrejas garantem a sua capacidade de intervenção política sobre o Estado, praticamente privando seus fiéis de uma opinião política própria, independente. O Estado deve, portanto, garantir a estes fiéis a efetiva participação a que eles têm direito na política.

Para combater essa dura realidade, é preciso lutar para que os religiosos tenham uma espaço para desenvolver uma opinião política própria, ainda que equivocada. Eles devem ter contado com as outras religiões, para compreender a necessidade de um mínimo acordo com respeito ao que é público, comum a todos. Este é o único caminho que torna possível que haja, de fato, respeito à diversidade religiosa no país e para minar a influência do conservadorismo religioso na política.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Política é uma merda!

Corrupção, acordos escusos, mentiras deslavadas. Esta é a política que nós conhecemos. Um político acusa o outro, a mídia expõe os problemas de vários e o povo trabalhador, cada vez mais perdido, vai perdendo as esperanças e o interesse em política. Desanimado, chamam-no de palhaço por não se informar. Mas quem é o verdadeiro palhaço? Seria o povo, que vive em condições precárias, sem educação para saber o que está acontecendo, quem é honesto e quem não é? Ou seriam os políticos, que aparecem na televisão com um sorriso e um pedido: "Vote em mim, pois eu sou honesto, capacitado e represento as suas vontades"?

É como se dissessem:
- Caro cidadão, cara cidadã, adivinhe se eu digo a verdade! Eu sei, você não me conhece, mas terá que me julgar nestes poucos minutos a partir desta aparência maquiada, deste sorriso falso e deste discurso artificial. Não pode? Como não pode? Você não é vidente?

O que poderíamos esperar: que aquele que mal tem tempo para o lazer abrisse mão de seu descanso para aprender sobre política? Que culpa tem a mãe de família se não tem tempo de pesquisar as propostas de candidato por candidato e buscar entender quais serão os resultados se forem aplicadas? Como ela poderia saber que o jornal ou a revista que lê ou assiste todos os dias tem fortes tendências políticas que são, aliás, contrárias às suas verdadeiras necessidades? Esperaríamos, então, que todo santo habitante de nosso mundo conhecesse o mínimo sobre política e economia antes que pudesse votar "corretamente"?

Mas como isso poderia acontecer se aqueles que a sociedade ergue ao Palácio (que seriam teoricamente responsáveis por fornecer esta educação mínima necessária) não representam seus interesses, mas os interesses da burguesia? Oras, esta teria algum interesse em sua educação política?

Pobre povo que trabalha o dia todo para sustentar, não só a própria família, mas também a essa corja de políticos e burgueses mal-agradecidos! Se o político que, ontem, era do povo, dizia-se revolucionário, hoje aperta a mão dos conhecidamente corruptos em troca de alguns minutos de televisão, que raios de revolução foi essa? Oras, políticos fazendo acordos escusos para serem eleitos, isso já existia aos montes! Onde está a transparência, a honestidade, a verdadeira representatividade?

Cadê a democracia?

E o povo, se já estava perdido, quanto mais agora! Em vez de aproximar o povo da política, dão ainda maiores motivos para que este se afaste e confie ainda menos nos políticos! Se fazem acordos e concessões, se passam a perna no povo às abertas, o que farão quando estiverem no oculto? Se mentem para ele sem a menor vergonha na cara, como podem sequer ousar dizer que o representarão quando estiverem lá em cima, naquele palanque burguês? Ou devo dizer: palanquim?

Como a sociedade confiará em alguém que nem sequer é sincero quando se dirige a ela? Não podem nem mesmo respeitar àquela que os colocam lá em cima? Neste mar de insanidade e hipocrisia, onde estão os políticos que se negam a rebaixar seu próprio nível em troca de votos e a seguir jogando este jogo de cartas marcadas? Quem é que dará um basta nessa discussão sobre quem dentre os políticos é o "menos pior"?

Não são os políticos que são corruptos, muitos deles (acredito eu) têm as melhores intenções do mundo. Mas o sistema todo é corrupto. Raros são aqueles que estão lá em cima sem o apoio financeiro das empresas e dos bancos - e, portanto, representam a estes, não ao povo que os elegeu. A corrupção começa aí: não são as propostas, a capacidade ou o discurso, mas sim o dinheiro que elege quais partidos e quais políticos terão condições financeiras para fazer sua campanha e concorrer às eleições. Por trás de cada político corrupto há um burguês corruptor garantindo a manutenção de seus interesses. Isso não mudará, não pode mudar sem uma verdadeira revolução.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Pinheirinho e a nossa sociedade maldita


Seis mil moradores do Pinheirinho foram chutados de suas próprias casas à base de balas de borracha e bombas de gás. O motivo? Um criminoso do colarinho branco, Naji Nahas, que já foi acusado de lavagem de dinheiro, decidiu que queria de volta o terreno. Por quê? Dinheiro. O que mais poderia ser?

A violência não foi contida. Moradores foram feridos (um deles por uma bala letal) e tiveram que ser levados ao hospital. Nem deixaram que os habitantes retirassem seus pertences de suas casas antes de destruí-las. Expulsos, sem ter para onde ir, foram recebidos por uma igreja. Como esta não tinha espaço o suficiente, de lá foram levados a um ginásio no Parque do Morumbi. Passaram calor devido ao excesso de pessoas, pelo menos quatro delas desmaiaram e foram levadas ao hospital. Não havia água nos banheiros. Pessoas desapareceram, mas, ante tanta confusão, como saber se elas simplesmente fugiram ou se foram mortas?

Chutados de suas casas como cães, encaminhados para os abrigos feito gado, amontoados e encaixotados feito mercadoria. Não eram humanos, apenas ratos que ocupavam o terreno de um aristocrata, capim inconveniente que se remove e queima. Descartáveis.

Dizem que os policiais estavam apenas no cumprimento da lei. Acontece que, neste caso, a lei traiu os direitos humanos que garantem a todos o direito à moradia. Seis mil pessoas perderam esse direito para que um único indivíduo tivesse o direito à propriedade. Para maiores detalhes, deixo aqui a excelente entrevista que a urbanista Raquel Rolnik concedeu à Folha de São Paulo.

Se foi a lei quem deu a estes homens o que eles receberam, maldita seja essa lei!

O senhor governador Geraldo Alckmin comunicou à imprensa que providenciará moradia para os indivíduos que foram expulsos do Pinheirinho. Oras, por que não fez isso antes de expulsá-los? Pois a Selecta que esperasse a providência de moradia para os seis mil antes de reaver seu terreno, ou que fosse mais inteligente e buscasse um acordo que fosse mais simples de cumprir, como vender seu terreno à prefeitura de São José dos Campos em troca de suas dívidas em impostos.

Ouvi alguns dizerem que os invasores deveriam trabalhar para comprar a própria casa. Oras, antes fosse fácil assim. Veja, por exemplo, o filme “Em busca da felicidade”. Mesmo o protagonista sendo inteligente bem acima da média, mesmo tendo uma tremenda força de vontade, custou muito a ele conseguir sair da miséria. Oras, e se ele não fosse tão inteligente? Que chances teria o filho dele na vida se a sua educação foi numa creche que só ensinava as crianças a assistirem televisão? Como ele sairia daquela situação se não tivesse uma força de vontade muito maior que a média da população?


Um amigo meu contou que, enquanto fazia trabalho voluntário numa favela, ouviu o próprio pai ameaçar de morte a tia. Ele tentou dizer à criança que seu pai não falava sério, não podia estar falando sério, mas esta insistiu "Não, moço, ele mata mesmo, meu pai mata mesmo." Nossa espécie tem uma característica única entre os animas: nosso cérebro só termina seu desenvolvimento na infância, fora do útero, tempo em que absorve, na sua própria formação, as características do ambiente ao seu redor. Que outro destino poderia ter uma criança criada num ambiente violento senão a violência? Como esperar que ela não aprenda a crueldade que está ao seu redor? Como julgar por sua violência aqueles que foram criados desta maneira?

Outro dia vi um homem extremamente triste na rodoviária em Campinas porque tinha vindo de Belo Horizonte para São Paulo para conseguir um emprego, não conseguiu e queria voltar, mas não tinha dinheiro para a passagem. Oras, diga-me, caro leitor, ele não tinha boa vontade? Se ele comprou uma passagem de ida, sem ter dinheiro para a volta, não é porque tinha esperança? Oras, eu afirmo que não teria tal coragem, a não ser que eu estivesse numa situação desesperadora. Mas, mesmo assim, não sabia ler, mal tinha inteligência para se expressar, que chances ele teria? Mesmo voltando para Belo Horizonte, para a família dele, diga-me, se for capaz, caro leitor, qual seria a sua chance? Voltaria, feliz por reencontrar a família, com muito boa vontade para melhorar sua condição de vida… mas e daí? Quanto tempo até ele voltar a passar fome? E seus filhos, sem uma boa educação, como ajudariam o próprio pai?

Como quebrar este ciclo vicioso infernal?

Maldita é a sociedade que nega o direito à moradia para 6 mil pessoas para dar a um único indivíduo corrupto, egoísta e rico o direito a ter ainda mais dinheiro! Maldita é a sociedade que olha com desdém para essa injustiça simplesmente para assegurar seu direito à ganância! Maldita é a sociedade cujos cidadãos ainda não aprenderam que o direito de um começa quando termina o do outro!

Maldita é a nossa sociedade!

Sem compaixão, sem decência, sem solidariedade, que reclama do pobre porque este invade uma terra vazia, inabitada, inútil! É mais fácil mesmo ignorar o problema, deixar os pobres que se fodam, culpá-los pelos seus próprios problemas, transformá-los em criminosos, marginalizá-los. Sociedade maldita e hipócrita que tem a barriga cheia e reclama dos que têm a barriga vazia por quererem enchê-la! Se a lei não consegue garantir para essas pessoas nem sequer o básico (moradia, comida, educação, trabalho e cultura), então, que razão eles teriam para segui-la? Oras, quem é que não transgride a lei, seja com pirataria, seja avançando o sinal vermelho?

E que raios de lei é essa, que permite e, pior, apoia um evento tão imoral quanto este?

Um dos princípios básicos da ética é que todos são iguais perante ela. Mas não há igualdade alguma quando o direito à propriedade é garantido a um indivíduo enquanto o direito à moradia (que é, diga-se de passagem, muito mais essencial) não é garantido para outros seis mil. Dizem que ninguém está acima da lei. Oras, isso é uma falsidade, a ética está acima da lei. Se a lei é contra a ética, então os transgressores da lei não são criminosos! Criminosa é a própria lei! Criminoso é o Estado que não deu aos habitantes do Pinheirinho o básico para torná-los cidadãos! Criminosa é a prefeitura de São José dos Campos que não comprou o terreno em troca de parte das dívidas da Selecta para entregá-lo aos moradores! Criminosa é a justiça que não desapropriou o terreno pelo bem público e que não buscou um acordo justo entre a Selecta, a prefeitura e os moradores! Oras, justiça é só o seu nome! Criminoso é o Estado de São Paulo que expulsou-os de lá à força e com violência sem antes providenciar lugar para eles passarem a morar e os amontoou num ginásio feito mercadoria acumulada nos estoques de um supermercado! Criminosos são os agentes da lei que pensam que estão acima da ética!

Criminosos somos nós, sociedade maldita e desumana, que tratamos eles como cachorros e depois reclamamos quando levamos uma mordida!


Manifesto pela Denúncia do Caso Pinheirinho à Comissão Interamericana de Direitos Humanos

Mande mensagens em nome do Pinheirinho

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Além da maconha: A guerra de preconceitos

Fato lamentável, em geral as pessoas não conseguem enxergar nada além do preconceito. É só apresentar motivos para que elas o tenham que o próximo passo será fechar olhos e ouvidos. Então os protestos da USP começaram porque alguém fumou maconha e foi levado à delegacia? Ah, são culpados, o assunto acabou, não há mais o que discutir.

Engraçado é a maconha ser menos nociva que o cigarro e, apesar disso, dificilmente caracterizar-se um fumante como bandido ou vagabundo. Pirataria também é contra a lei e também sustenta o crime organizado, mas nem por isso seria aceitável que a polícia tratasse compradores de produtos pirateados como marginais. Ninguém fica preocupado com os indivíduos que compram tênis da Nike, apesar de várias acusações dela utilizar mão-de-obra semi-escrava.

Perturba-me muito que os policiais tenham tido tanto trabalho para levar três fumantes de maconha para a delegacia quando, de acordo com a lei brasileira, eles não poderiam nem sequer serem presos por isso. Entende-se que na maioria das vezes a polícia comumente não apreende usuários de drogas senão para pressioná-los a entregar os traficantes.

Por que estaria a polícia dando batidas em alunos em busca de drogas? Coisa que, aliás, não é nem sequer permitida pela lei a não ser que haja provas concretas que fundamentem alguma suspeita. Em alguns casos o juiz pode anular as provas obtidas numa busca pessoal que não foi bem fundamentada. O propósito inicial dela não era garantir a segurança dos alunos? E quanto aos trechos mal-iluminados e com pouco movimento, por que continuam sem iluminação e por que os policiais não estão lá vigiando?

Desde maio (que foi quando o acordo entre Rodas e a Polícia Militar foi firmado) discutia-se que a Polícia Militar não estava preparada para atuar como segurança interna da universidade. Vale notar que a polícia faz rondas no campus da USP desde 1997 até maio deste ano e sua presença não era maior nem menor que no resto do Estado de São Paulo. A diferença agora é que a polícia está atuando como se fosse parte da segurança interna da universidade. Não há mais violência no campus que nos seus arredores, então uma presença mais forte da polícia lá dentro não se justifica. Ou seja, o acordo firmado entre Rodas e a Polícia Militar é que é um tratamento especial aos estudantes da USP, não o contrário, como se estudantes fosse marginais.

Desapontador ver pessoas tendo que apelar cegamente para a lei da maioria. Não são todos os 80 mil estudantes da USP que aderiram aos protestos, e 58% deles posicionam-se a favor da polícia no campus. Mas quando foi que todo o público saiu em protesto nas ruas? Fizeram isso com a descoberta da extrema corrupção no governo anterior? Teria a maioria dos estudantes aderido aos conhecidos protestos de 68? Alguém poderia lembrar que houve naquele ano a passeata dos cem mil, mas esta envolveu muito mais pessoas que apenas os estudantes. Nem mesmo os caras-pintadas constituíam a maioria dos estudantes da USP ou de qualquer outra universidade.

Há pouco tempo, houve uma passeata em Barão Geraldo contra o estupro, reunindo apenas cerca de 400 estudantes. Se esta linha de raciocínio estivesse correta, poderíamos concluir que a maior parte da população é a favor do estupro, não?

Não sei em que mundo as pessoas vivem para esperar que todos os estudantes da USP protestem quando algo está errado.

Assembleia dos estudantes da USP
Queiram ou não, milhares de estudantes protestam e este é um número bem expressivo. Se 58% dos estudantes são a favor da polícia, 36% são contra ela. Se alguém pensa que 42% não é muito, pense de novo: no Brasil, menos de 8% da população é negra. Vale também lembrar que na FFLCH, que é o ponto central das manifestações, abriga seis dos nove melhores cursos da USP e que lá se concentram os estudantes menos abastados, o que mostra que os preconceitos que os manifestantes  não estudam ou que são "filhinhos de papai" são falsos.

E quanto à violência do movimento? Carros depredados, pichações, pedras atiradas... Sim, é fato, os estudantes não são nada santos e, sinceramente, eu esperaria um comportamento muito melhor deles. Entretanto, vale lembrar de novo que até nos protestos estudantis de 68 houve violência contra a polícia, incluindo coquetéis molotov. É isso o que as pessoas fazem quando têm medo do pior: elas se tornam violentas. Isso vale para os dois lados, a existência de coquetéis molotov não se justificam em circunstância alguma.

Não quero de maneira alguma tentar justificar as viaturas que foram depredadas em consequência dos protestos. É uma vergonha que estudantes tenham feito isso. Conforme dizem vários relatos, a polícia pode ter sido a responsável pela depredação da reitoria, mas não pelas pichações. Mesmo que a polícia, tenha utilizado de gás lacrimogênio na moradia da USP e mantido os estudantes em cárcere privado (conforme mostra este vídeo, encontrado nesta matéria do site G1), os estudantes não deveriam em hipótese alguma ter depredado coisa alguma. A imprensa pode esconder milhões de fatos que a menor das pedras atiradas contra ela ainda será injusta. Não há situação alguma em que o cuspe a um policial possa ajudar senão para provocar ainda mais raiva e violência por parte deste.

A violência fere o próprio propósito do movimento estudantil e apaga o perfume das flores que são oferecidas e da diplomacia.

A atuação da polícia na desocupação da reitoria foi vergonhosa. Após o mandato judicial e a recusa dos estudantes de saírem do prédio, a entrada dos policiais foi de surpresa, durante a madrugada. Não houve negociação antes da invasão, não houve tentativa de terminar a situação sem que houvesse um confronto. Haviam 400 policiais mais 30 cavaleiros contra 70 estudantes. Aqueles não portavam armas não letais e nem sequer revólveres, mas submetralhadoras. Uma arma feita para matar rápida e eficientemente. Chegaram em carros, motos, ônibus e helicópteros, tudo muito rápido para que não houvesse tempo para nenhuma reação indesejada. Havia policiais também na moradia, impedindo que eles saíssem de lá, provavelmente para impedir maiores confrontos. Uma repressão extrema para que não houvesse nenhum perigo.

Quando uma estudante vai da moradia em direção à reitoria durante a desocupação, um grupo de policiais impedem-na, ameaçando-a à prisão caso ela tente atravessá-los. Eles formam um cerco, cruzam os braços e encaram-na. Mal havia ela chegado ao local, sem importunar e sem reclamar senão da atitude dos policiais, estes reagiram como se ela estivesse carregando uma bazuca ou como se fosse seguida por no mínimo 20 indivíduos.

A única arma que ela carregava era uma câmera e ela estava só.

Ao final da operação, os policiais se parabenizaram: ninguém saiu ferido, ninguém morreu, ótimo, tudo foi às mil maravilhas!

A polícia foi, de fato, extremamente eficiente... se isso fosse uma guerra! Onde eles estavam com a cabeça para fazer uma operação desta proporção? Por que todo este drama por parte da polícia?

Alguém está pensando o mesmo que eu?

Isso é medo!!! A Polícia Militar está morrendo de medo! Eles não fazem a menor ideia de que estão meramente lidando com estudantes rebeldes, eles pensam que o inimigo deles é uma quadrilha organizada de traficantes ou terroristas. Eles estão preparadíssimos para invadir uma refinaria onde há indivíduos armados até os dentes com metralhadoras, rifles e bombas... mas não têm a menor sensibilidade para compreender a mente de um estudante, de um manifestante, de um civil revoltado com o sistema.

É assim que se programa um policial: cuidado com os estudantes, eles podem parecer inofensivos, mas são muito perigosos! Vejam como eles chutaram os carros da polícia! Vejam como eles atiraram pedras nos jornalistas! Quando outros se desculparam por isso, é claro que eles só estavam sendo lobos em pele de cordeiro.

Assim como nós, que carregamos no nosso uniforme estrelas em homenagem às atuações históricas sangrentas dos nossos antepassados, como esta mais embaixo, em homenagem à "Revolução", quer dizer, ao Golpe de 64.

Não podemos arriscar, temos que garantir que haja o mínimo de pessoas feridas. E, é claro, é por isso que nós iremos armados com submetralhadoras numa proporção de seis policiais para cada manifestante. Isso é totalmente razoável diante das circunstâncias.

Eles são treinados para não terem que usar de força letal, mas não para serem humanos. Eles não parecem se importar quando um indivíduo tem que ficar uma semana sem trabalhar depois de ter sido atingido por uma bala de borracha e não parecem sentir culpa quando vários policiais agridem com seus cassetetes um indivíduo que quer fugir.

Os policiais são incapazes de entender a cabeça dos estudantes. Os estudantes em geral também têm dificuldade de compreender a cabeça do policial que acredita profundamente que está colaborando para a manutenção da paz e da ordem. Essa não é uma guerra de maconha, é uma guerra de preconceitos. O estudante que existe na cabeça dos policiais está bem longe dos estudantes de carne e osso. Uma coletiva falácia do espantalho. Os agentes da lei são muito bons com cassetetes e armas e desconhecem a linguagem da argumentação, da discussão. Os primeiros aprenderam a obedecer sem questionar e os últimos desprezam a hierarquia. Os dois grupos não falam a mesma língua.

Repressão à greve de 2009 na USP
O reitor é obsessivo por controle e não consegue se conformar com a rebeldia dos estudantes. Esta obsessividade já estava visível na greve de 2009 (cuja repressão foi noticiada internacionalmente). Desculpe-me, Rodas, não dá para colocar estudantes sob controle, eles nasceram para questionar. Isso não é o mesmo que dizer que eles sejam criminosos. Tentar arrancar a rebeldia dos estudantes faria a universidade perder todo o seu propósito de construir o conhecimento.

Rodas está completamente fora de controle, o que é de se esperar de um obsessivo por controle. Não há dialogo com ele, ele não entende português. Não espere que ele ceda à pressão, ele provavelmente pensa que, se ele sair ou fizer como os estudantes pedem, a USP se desmoronará. Ele já demonstrou pensar assim por suas próprias palavras. E há testemunhas do radicalismo dele. A Faculdade de Direito, dirigida por ele de 2007 a 2009,  o declarou persona non grata.

Ele está fora de si.

Vários indivíduos que defendem que a polícia deve sair do campus estão fazendo comparações entre este conflito e o período de ditadura militar. Muitos acreditam que esta afirmação é extrema, radical, exagerada. Talvez não seja. Quando se fala em ditadura militar, as pessoas pensam nos vilões de cinema, maus, violentos, sem empatia e sem coração. Entretanto, do ponto de vista dos ditadores, a ditadura era bem justificada. Ainda hoje há quem acredite nisso.

Afinal de contas, os comunistas que eram contra a ditadura militar eram, sem dúvida, assassinos, sequestradores, rebeldes e criminosos. Os militares temiam uma insurreição, temiam que os comunistas tomassem o Estado à força e fizessem chacina semelhante a outras chacinas feitas em nome da ideologia de esquerda. Eles torturavam pessoas que, muitas vezes, eram, de fato, criminosos, culpados de todas as acusações.

A História transformou a ditadura numa vilã de cinema, mas duvido que tal comparação seja justa. Ela foi, sim, uma vilã, mas vilões do mundo real quase sempre são vilões porque são loucos, não porque são maus. A ditadura estava cheia de Rodas obsessivos por controle e por disciplina. A obsessão por controle e o medo transformam-se rapidamente em repressão, mesmo que não seja intencional.

Mas, intencional ou não, o dano é o mesmo.

Se a comparação entre ditadura e os conflitos da USP parecem ser absurdos, ela não parece mais tão absurda ao entender que os militares eram tolos em vez de maus. Os militares da ditadura eram fanáticos e fanáticos não são maus, apenas cegos. Muitas vezes, tornam-se extremamente estúpidos e brutais.

Eis a minha opinião de leigo, caso ela seja de alguma valia:

Acredito que haja uma saída para este cenário de loucura. O movimento estudantil tem a obrigação moral de tentar estabelecer algum diálogo com o reitor, mas isto provavelmente não dará nenhum resultado satisfatório. O reitor está fora de controle; entretanto, a polícia está apenas desinformada e despreparada para lidar com a situação. Portanto, é essencial que haja um diálogo entre os estudantes e a Polícia Militar.

Os estudantes que acreditam na força dos livros serão sábios se também acreditarem na força do diálogo. Afinal de contas, um livro nada mais é que uma conversa registrada em papel. Se um policial não entende a cabeça de um estudante, é preciso que este ao menos compreenda a cabeça daquele para que um diálogo seja possível.

Não vejo por que não seria possível, por exemplo, se o movimento estudantil, por meio de panfletos e discussões, defendesse que os estudantes não devem causar danos às viaturas e, em troca, os policiais deixariam as bombas de efeito moral e de gás lacrimogênio guardadas na delegacia. O movimento estudantil poderia incentivar os estudantes a não usarem drogas nas dependências da universidade enquanto a polícia deixaria de efetuar batidas nos estudantes.

Um acordo onde os estudantes concordariam em evitar o uso de drogas dentro do campus seria um movimento inesperado, deixaria a mídia sem saber o que dizer e colocaria Rodas em cheque. Sem a polícia para atrapalhar, seria mais fácil lutar pela substituição do reitor. Se o objetivo é encontrar uma solução, é preciso esquecer o preconceito e deixar de lado a obsessão por querer que todos vejam quem está certo. Deve-se esquecer a justiça e pensar na forma mais eficiente de resolver o problema.
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