segunda-feira, 21 de maio de 2012

Em defesa da religião

Um homem do século XXI com uma boa educação passa por no mínimo, 11 anos dentro de escolas, estudando matemática, literatura, arte, química, física, biologia, sem contar a formação cultural recebida pelos pais e pelas relações sociais com outros indivíduos formados. Passamos por inúmeras evoluções revoluções na história humana. Eis que então que o ateu moderno, um homem conheceu o valor do pensamento crítico, do raciocínio lógico e tantas outras formações culturais inacessíveis à maioria da população de hoje, é capaz de dizer: "Ah, mas eu não preciso de religião na minha vida."

É muito fácil dizer isso, não é?

De fato, depois que a sociedade está toda construída e de toda a formação que ele recebeu, ele é capaz de finalmente capaz de "libertar-se" da religião. Perfeitamente, assim como ele também não precisa mais de uma lança para caçar ou de um cavalo para se locomover. Mas será mesmo que o que foi construído a partir da religião seria possível de se construir de alguma outra forma? Mais ainda, será que seria sequer possível emergir uma sociedade a partir de homens não civilizados sem que eles construíssem uma religião?

Vejamos. Pegamos um grupo de bebês, colocamos eles numa grande ilha, longe de qualquer contato com a civilização. Criamos-lhes da forma mais básica possível, os ensinamos a caçar, pescar, enfim, apenas o essencial para a sua sobrevivência e esperamos um tempo bem longo, talvez milhões de anos. Como faríamos para impedir que eles criassem uma religião? Proibiríamos-lhes de manifestar qualquer crença no sobrenatural? Mas, se fizéssemos isso, não estaríamos influenciando-os com a nossa cultura e, portanto, alterando os resultados do experimento?

Não é nem sequer possível falar de uma sociedade de seres humanos que supostamente se desenvolveu sem a religião. Só houve na História da humanidade uma sociedade sem religião que se tenha conhecimento: a tribo indígena dos Pirarrã. Uma sociedade bem sucedida, mas pouco "desenvolvida" (o leitor entenda): não tem escrita, Estado ou leis. É bastante comum as pessoas cometerem anacronismo ao afirmarem que a humanidade poderia ter se desenvolvido da forma como se desenvolveu sem religião a partir da sua experiência com a sociedade atual. Ela está enraizada de tal forma em todas as culturas que é impossível determinar como elas teriam se desenvolvido sem sua influência.


O caráter social das crenças religiosas tiveram um papel fundamental na formação dos Estados e das leis. Ela foi um mecanismo rudimentar, mas eficiente, de transmissão e conservação do conhecimento acumulado. Em seus rituais encontram-se, por exemplo, práticas associadas à higiene e à prevenção de doenças, como nos conhecidos rituais de purificação do judaísmo.

Um fenômeno característico da religião é a projeção psicológica. Faz parte da natureza do homem atribuir a elementos do mundo externo as emoções e concepções internas. Ao analisar os textos religiosos antigos de forma literal, o que se encontra é um mito. Ao analisá-los como se fossem metáforas, o que se vê neles é um retrato da sociedade em que ele foi escrito e da opinião pessoal de quem o escreveu. São descrições de como o homem vê a natureza, a sociedade e a si mesmo.


É por isso, por exemplo, que existem deuses da guerra, da civilização, da lei, da justiça (característica da sociedade), da sabedoria, da coragem, do amor (característica do próprio homem), entre tantos outros exemplos, e é pelo mesmo motivo. As divindades centrais do hinduísmo, por sua vez, descrevem o processo como a sociedade se constrói (Brahma), se mantem (Vishnu) e se transforma (Shiva).

Como a projeção psicológica é natural ao homem, a criação da religião também é.

Vishnu e Shiva apresentam uma relação com as correntes de pensamento de esquerda e direita, ou liberais e conservadoras. Enquanto os liberais priorizam a transformação, a renovação da sociedade, os conservadores prezam pela manutenção da ordem social. Vishnu - o conservador - governa o mundo, impedindo a qualquer custo que Shiva - o liberal - destrua-o até o momento em que tudo se torna um caos impossível de se manter. Então Vishnu sai de cena e Shiva destrói tudo para que o mundo possa ser reconstruído por Brahma - uma descrição de como funciona a revolução.

Na doutrina budista, encontram-se várias ideias essenciais para a época e até mesmo para os dias de hoje: a valorização do pensamento crítico, do ceticismo, do auto-conhecimento, formas de lidar com o sofrimento humano que envolvem caridade, empatia (o budismo entendia sobre empatia bem antes da psicologia), a desvalorização da vingança... Por exemplo, Kalama Sutta, um discurso de Buda, defende o ceticismo, a autoridade de cada um em decidir por si mesmo no que deve acreditar e alerta para o que hoje nós denominamos falácias lógicas.

O budismo sobreviveu durante cinco séculos antes das histórias de seu fundador serem colocadas nos livros, mostrando como ele foi uma ferramenta poderosa na transmissão destas ideias mesmo sem serem colocadas nos livros.

As religiões são frequentemente criticadas pelos seus maus valores morais e por disseminar práticas perniciosas. Tome, por exemplo, a escravidão, tortura e outras práticas perversas perpetuadas pelas instituições religiosas há alguns séculos. Pela natureza da religião que é contrária ao questionamento e à crítica, foi bem difícil para os questionadores reverterem este quadro.

Entretanto, passam-se os séculos e a religião toma para si a posição contrária às mesmas práticas perversas que antes ela defendia. E o mais importante: com o mesmo rigor, dificultando o regresso à selvageria, conservando os valores morais que os antigos inimigos da religião lutaram tanto para estabelecer!

Que fique claro um detalhe: a religião não cria nem fornece uma fonte para os valores morais. Ela é, por natureza, um mecanismo de conservação. Por este motivo, ela precisa ser renovada pelos seus membros. Daí a grande importância do constante questionamento a ela.

É uma pena para a História que o catolicismo tenha se tornado um sistema autoritário, ditatorial, repressivo, imutável, inquestionável. Herança maldita do Império Romano. Durante a Idade das Trevas, Vishnu (a Igreja Católica) assassinou Shiva (os hereges), mantendo o caos. A dinâmica e diversidade revolucionária do cristianismo dos primeiros séculos só veio renascer recentemente com a Reforma Protestante. Não é à toa que ainda hoje ele defende uma ideologia arcaica: o cristianismo parou no tempo. Não é religião digna dos tempos modernos.

Comparem cristianismo e islamismo com judaísmo, budismo e espiritismo nas questões éticas contemporâneas como homossexualidade, aceitação de outras crenças, valorização da ciência, secularismo... Enquanto, em geral, os dois primeiros dizem "os descrentes serão eternamente torturados", os outros três dizem "salvação independe de crença".

Dizem que religião é antiquada, coisa do passado, contrária ao pensamento crítico, ao ceticismo, à razão. Estão equivocados, subestimam a capacidade de mutação e adaptação da religião. O pastor Gondim não é um caso isolado, ele representa um fenômeno que surgiu em resposta ao avanço da secularização e do ateísmo: o irenismo. Enquanto antirreligiosos fixam-se no que a religião é, ou às vezes até mesmo no que ela foi, não conseguem ver o que ela se tornando. Teorizam que é impossível que a religião se torne racional e não percebem que, na verdade, isso já está acontecendo. Eles cometem um erro atacar feroz e imprudentemente a religião como um todo, espalhando o sentimento de aversão e ódio. Isso é pensamento anti-irenista e, por isso, alimenta o fanatismo religioso. A religião deve ser atacada pelo seu lado podre, não pelo lado renovador.

sábado, 19 de maio de 2012

A culpa não é das vítimas

Edir, Valdemiro e Cia: nós todos sabemos como eles adoram enganar o povo para que este os entregue gratuita e irrestritamente o vil papel de dentro do bolso. Basta que eles subam ao palco, ou melhor, ao púlpito, e que façam uma pequena apresentação de mágica, com direito a "crescimento" de pernas, expulsão de demônios, adivinhação de nomes, profecias e apresentações musicais. São os nossos queridos amigos, os líderes religiosos exploradores e oportunistas. Há quem culpe as vítimas por sua ignorância, por não terem autoridade sobre si mesmas e darem um basta a esta exploração.

Para mim, é extremamente perturbador ter que defender algo tão óbvio: a exploração é por responsabilidade e culpa do explorador, não do explorado. Pensar o oposto é culpar as vítimas de estupro por sua forma de andar e de se vestir, é usar a culpa por "invasão de propriedade" como desculpa para tratar seres humanos como os animais que abatemos para consumo. É como o ladrão que invade sua casa e lhe diz: "A culpa é sua, a janela estava aberta".

Então, se uma casa está destrancada, eu tenho permissão de entrar e levar o que eu bem entender? Se eu ver uma moça sem camisa na rua e estuprá-la, não estarei cometendo um crime? E se, por outro lado, eu tiver a capacidade de enganar pessoas desinformadas, tenho o direito de fazê-lo?

Para muitos, essa é a lógica: se uma vítima poderia ter evitado o crime que ela sofreu, então ela é culpada pelo crime. Não tenho inteligência o bastante para entender o que leva alguém a perder a capacidade de julgamento, de compaixão, de compreensão e ser capaz de defender essa lógica absurda. Tiram uma regra de conduta do bolso, afirmam que a vítima desobedeceu esta regra e que, portanto, tem a responsabilidade pela sequência de eventos. Ainda que esta regra seja completamente insignificante ou totalmente sem sentido. Ainda que eles não saibam ou não concordem com esta regra.

A exploração por parte de Edir Macedo e Valdemiro Santiago equipara-se à forma como maridos violentos abusam de suas mulheres, convencendo-as de que têm culpa pela violência que sofreram. O medo manipula as pessoas. "Se você abandonar a sua fé, o demônio vai tomar conta de você e você vai voltar à mesma situação em que você estava quando chegou aqui, pedindo a ajuda de Jesus para mudar de vida. Cuidado, o demônio está dentro da igreja!"

"O demônio não quer que você deixe o seu dinheiro aqui no altar."

É claro que as vítimas destes líderes religiosos são crédulas e que, por isso, são enganadas. Mas não se pode culpar alguém pelo que não sabe. Mesmo que eles tenham sido avisados a respeito desta enganação, ainda assim não são responsáveis: eles não são obrigados a entender e nem mesmo concordar com as acusações. Afinal de contas, por que eles dariam mais ouvidos a você do que aos parentes, amigos, pastores? A culpa não é dos que não entendem, mas sim daqueles que sabem o que estão fazendo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Procurando desculpas para ser bom

As tentativas de qualificar os ateus como imorais e talvez até como criminosos não obtiveram sucesso: há incontáveis evidências em contrário. Entretanto, uma crítica ainda permanece: a de que o ateísmo, enquanto ideologia, não é oferece de forma objetiva e absoluta uma razão para um comportamento ético. Em outras palavras, se não existe uma autoridade máxima que diga que seu propósito na vida é ser bom, qual o motivo que o ser humano teria para ser bom, para buscar a cooperação mútua em vez do lucro?

A primeira tentativa de responder a esta questão seria analisar quantos grandes feitos a humanidade foi capaz de realizar a partir da cooperação mútua. Dominamos o mundo a tal ponto que a maior ameaça à humanidade somos nós mesmos. Não todos nós, mas aqueles que não têm respeito à vida, à dignidade humana, exatamente aqueles indivíduos que buscam o lucro próprio acima do bem-estar da sociedade motivados pela ganância, raiva, egoísmo. Mas, neste caso, por que deveríamos nos importar com a humanidade e não apenas com nós mesmos? Por que importar-se com o bem-estar alheio? Isso faria sentido se houvesse a garantia de que essa preocupação seria recíproca. Entretanto, vemos que, na prática, não é o que acontece: frequentemente vemos seres humanos ajudando uns aos outros mesmo que seja aparentemente impossível que os ajudados eventualmente sejam capazes de retribuir.

O que nos leva a pergunta: mas por quê? Por que nós ajudamos as velhinhas a atravessar a rua? Por que, na nossa cultura, valorizamos tanto a ajuda que é oferecida sem esperar algo em troca? Por que é que existe toda essa preocupação em justificar a necessidade intrínseca em se fazer o que é correto?

Isto é óbvio: nós somos assim, isso faz parte da nossa natureza. Caro leitor, analise esta discussão que existe entre diferentes religiões e filosofias de vida acerca da origem e da natureza da própria ética, da diferença entre o certo e o errado. As justificativas e os argumentos variam, umas acusam as outras de não terem uma justificativa própria. Oras, quando alguém fica tentando encontrar motivos para fazer o que quer, então não se trata de procurar justificativas, mas sim desculpas.

Por mais engraçado que isso seja, o ser humano tem a mania de procurar uma desculpa para ser bom e tem medo de não conseguir encontrá-la.

Bondade é um instinto humano. Se alguém sofre, nós sofremos também, a não ser que, de alguma forma, bloqueemos a nossa razão e nossa emoção. Ao ver alguém sofrer por causa da fome, sentimos o desespero de alguém que não tem o que comer. Quando nos deparamos com alguém sendo assassinado, sentimos a mesma indignação que a vítima sente por não merecer este tratamento. A verdade é que não conseguimos ser felizes diante da infelicidade alheia, não se tivermos plena consciência dela, não se percebermos que este sofrimento é desmerecido. Isso não é nada novo, Buda já dizia isso há 25 séculos atrás.

Há muitos pelo mundo que tentam negar essa simples verdade. Fazem malabarismos lógicos na tentativa de justificar o injustificável, de encontrar desculpas para satisfazer seus desejos pessoais egoístas sem sentir a culpa pelas consequências de seus atos. É por isso é que os estudantes da USP foram caracterizados como maconheiros, vagabundos que querem transgredir a lei sem sofrer as "consequências". Daí também a necessidade que a mídia teve em dizer que os ex-moradores do Pinheirinho eram invasores, usuários de drogas, criminosos. É este o porquê de toda a distorção dos fatos por parte dos neoliberais na tentativa de fazer a exploração de pessoas para obtenção de lucro não parecer tão ruim.

Se eles encarassem os fatos, a verdade nua e crua, se tivessem contato com o sofrimento que suas atitudes causam, deixariam de serem felizes.

Nós, seres humanos, desejamos a bondade e não há ninguém, neste universo ou fora dele, que vai nos condenar por isso. Essa justificativa já é o bastante.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Livre-comércio: a grande utopia capitalista

O sonho onde a burguesia pode explorar a população, sem leis trabalhistas e regulações do Estado como obstáculos à sua ganância. Os neoliberalistas esperam pelo dia em que não haverá mais seguro desemprego, salário mínimo, regulamentação das condições de trabalho, limites para os juros que os bancos podem requisitar... Eles afirmam que essa é a melhor forma para combater o desemprego, a fome e todos os problemas da nossa sociedade. A contradição é clara não só na teoria, como também na prática. Políticas liberalistas causaram a crise de 29 e outras crises mundiais. Incluindo a atual.

Usarei como exemplo desta ideologia este texto do Mises, site especialista em lindos discursos utópicos e simplistas. Ele diz que "produção é tudo". Esta é premissa maléfica do capitalismo: produzir, produzir e produzir. E enfiar produtos goela abaixo dos consumidores, mesmo que estes não precisem. Compra-se e vende-se lixo. E esse texto ainda critica a União Soviética por dar empregos a todos por trabalhar em "coisas inúteis"! E quanto ao capitalismo, que vive a produzir produtos de baixa duração justamente para que as pessoas não parem de comprar o novo e jogar fora o não-tão-velho-assim?

Como, por exemplo, o iPad, cuja bateria não pode ser substituída para que o consumidor trocar o produto (e pagar mais por isso, é óbvio!) quando a bateria apresenta alguma falha. Como os celulares que trazem consigo um vários tipos diferentes de carregadores, de forma que não dê para reaproveitá-los. Lixo! Quantas pessoas da classe média trocam o carro quando o "velho" funciona perfeitamente bem e invejaria a muitos pobres por aí? E quando decidem reformar pisos e banheiros, sendo que a casa de antes da reforma invejaria a bem mais da metade da população do Brasil. Mas esta casa antiga foi jogada fora, ninguém morará nela, quando o único motivo para isso é a estética.

Veja quantas horas trabalhadas foram jogadas fora! Como é que o Mises consegue falar, na cara dura, que há escassez de produção? Sendo que, no mundo, há mais obesos do que famintos? Não seria má distribuição do que é produzido? Não seria o mau planejamento ao se produzir toneladas produtos descartáveis para alguns em vez de produzir produtos duráveis para todos?

Ontem, Estados Unidos e Europa podiam crescer às custas da exploração dos países mais pobres. Hoje, quando aqueles que antes eles exploravam cresceram para acima desta exploração, eles não têm mais a quem explorar. Por isso exploram ao povo trabalhador dos seus próprios países. Então entram em crise (Ah! Mas que grande surpresa!) e culpam os países mais "pobres" da Europa (Portugal, Espanha, Itália e Grécia) por requisitarem ajuda financeira dos outros países da União Europeia.

Pois é, a culpa é sempre dos pobres. Não é da má administração. Nunca é da ideologia neoliberalista, nunca é da obsessão que a indústria tem de explorar os mais fracos.

Os gráficos abaixo foram retirados da Wikipedia (Dívida Externa):


Dívida externa dos países
Podemos notar que França, Inglaterra, Alemanha e Itália unem-se à Espanha como os países mais endividados da Europa.

Dívida externa em relação ao PIB
Quando a dívida externa é comparada ao PIB, a Irlanda é a que apresenta situação econômica mais desesperadora, seguida da Inglaterra e dos Países Baixos.


Dívida externa comparada às reservas nacionais em ouro e dinheiro estrangeiro
Em termos de capacidade de resposta imediata Inglaterra só perde, no mundo todo, para os EUA. Atrás dela, temos a Alemanha e a França.

E quanto à Grécia, país extremamente afetado pela crise, atualmente marcado pelo caos social? Sua dívida externa é irrisória comparada à dos grandes de seu continente.

Este texto do COSIFe (recomendo!) explica outros enganos que os neoliberalistas cometem ao tentar explicar a atual crise. Por exemplo, ao afirmar que sua causa é o elevado IDH da Europa.

Imagine o que seria do trânsito sem a sinalização. Sem semáforos, sem faixas para pedestres, sem placas de "pare". É assim que funciona o livre-comércio. E o resultado é que o trânsito - ou a sociedade - vira um caos. Imagine, nesta situação, se os carros atropelassem os pedestres e culpassem-nos por estarem no meio do caminho. Essa é a lógica dos neoliberalistas.

Quem é que realmente beneficia alguns em detrimentos de outros? É aquele que cria leis de salário mínimo para que impedir que as pessoas recebam um salário miserável, como afirma o texto? Ou são aquelas empresas que se aproveitam da pobreza da população para forçá-la a trabalhar em regime semiescravista?

Caro leitor ou leitora, pergunte-se: por que o Brasil praticamente não sentiu a atual crise econômica? Justamente neste período em que o governo brasileiro é de centro-esquerda e foram criadas bolsa família e escola, neste período de diminuição da desigualdade social. Coincidência?

E como vai a nossa querida amiga, a Argentina, que teve uma crise entre 1999 e 2002? Em 1991, o então Ministro das Finanças Domingo Cavallo decidiu equiparar a moeda argentina ao dólar numa taxa fixa e privatizar uma série de empresas.O investimento financeiro estrangeiro em massa aumentou imediatamente a produtividade, mas também aumentou consideravelmente o desemprego. Um aparente sucesso econômico com o aumento PIB.

Até que em 1995 o dólar começou a subir e a economia da Argentina despencou. O outrora mais rico país da América Latina, a Argentina agora estava em crise e mergulharia para baixo do Peru e de vários países da América Central.

Em 2003, surgiu nesse país um novo político. Néstor Kirchner. A Argentina ainda estava em crise, com uma grande dívida externa e a classe mais baixa da sociedade sofria de malnutrição. O novo presidente teve como foco os problemas sociais do país. Pagou parte da dívida externa ao FMI e cancelou o restante. A economia Argentina começou a se recuperar.

Diante da crise de 2008-2009, as atitudes tomadas pela atual presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, incluem repatriação de capitais, planos de obras públicas e outras políticas de manutenção de mercado. E como vai a Argentina, que tanto sofreu há mais de uma década? Vai muito bem, obrigado, exceto por tensões políticas devido à disputa pelas Ilhas Malvinas (território britânico na costa argentina onde estima-se a existência de 60 bilhões de barris de petróleo) e pela recente estatização da empresa de petróleo YPF, que havia sido privatizada na empreitada de Domingo Cavallo antes da crise.

Como a URSS conseguiu durante décadas ser uma potência mundial comparável aos EUA se ela não explorava os países mais pobres como estes? Como Cuba conseguiu manter-se sob repressão comercial da maior potência mundial sem entrar num colapso absoluto de fome, desemprego, mortalidade infantil? E quanto a essa ideia neoliberalista de que leis trabalhistas são contra o desenvolvimento do país? Quando e onde foi que isso aconteceu? Onde estão os fatos, as evidências? Ou será que nunca aconteceu e foi simplesmente tirado da cabeça de sei-lá-quem?

Não parece estranho que o único dado real e concreto que o texto do Mises apresenta é um gráfico sobre a quantidade de desempregados por ano, mas sem apresentar nada que correlacione os aumentos e diminuições de desemprego com alguma possível causa? Não é fácil demais dizer que há desempregos e culpar os programas governamentais por isso sem apresentar prova nenhuma senão a retórica e a fértil imaginação?

Qual seria o papel do Estado num regime neoliberalista? Apenas regularizar as pessoas para que elas não atrapalhem o livre-comércio, como, por exemplo, ocupando fábricas, terrenos livres ou prédios administrativos. Em casos mais extremos, espera-se que o Estado também impeça quaisquer tipos de manifestações sociais (sindicatos, greves, passeatas...). Em outras palavras, acorrenta-se a classe trabalhadora e liberta-se os burguesia. O maior crime, o verdadeiro crime, fica impune: a exploração das massas em prol da ganância de poucos. A desumanidade ao extremo. Por incrível que pareça, os liberalistas dão a este sistema o nome de liberdade.

terça-feira, 27 de março de 2012

O (patético) movimento estudantil da Unicamp

O mundo moderno tem inúmeros problemas, não tem como negar. Há muitas mudanças quer precisam ser feitas, há muitas pessoas que precisam de ajuda e todos já estamos carecas de saber disso. Bom, que ótimo que todos sabemos! Assim podemos fazer alguma coisa, ajudar para ir mudando o mundo aos poucos e... não, a verdade é que não fazemos nada. E, é claro, temos nossas desculpas. Temos nossos compromissos, não temos tempo para isso, não vai funcionar. Nós precisamos das nossas desculpas. Afinal de contas, precisamos dormir durante a noite.

O reitor da Unicamp, Fernando Costas, decidiu pegar carona no nazismo do João Rodas, o reitor da USP. Durante as férias, cinco estudantes foram responsabilizados por pela ocupação (e "depredação") da sede administrativa da moradia estudantil no ano passado. Sim, qualquer ocupação tem depredação, é o que eles sempre alegam. A reivindicação era por mais vagas na Moradia Estudantil. Para quem? Para eles? Não, eles já moravam lá, não precisavam de vagas. Mas como foi que cinco estudantes conseguiram ocupar a sede administrativa? Bem, é óbvio, eles não ocuparam a sede sozinhos. Mas foram os únicos a serem punidos.

Isto é óbvio. Se todos fossem punidos, a Unicamp poderia se tornar outra USP. Punir individualmente levanta menos protestos, menos indignação. Menos confusão que eles podem acobertar alegando que os estudantes são usuários de maconha. A reitoria escolheu a dedo aqueles que mais lhe atormentavam. Votaram nos estudantes que eles mais odiavam. Um por ter conseguido defender uma aluna de uma expulsão, outras por ser representantes discentes da moradia, outra por ser militante de um partido de esquerda e outro por ter enfrentado os policiais.

O plano da reitoria funcionou. Hoje mesmo houve um protesto contra a punição dos estudantes da Unicamp. Quantos foram? Dos mais de 33 mil alunos da Unicamp e dos dos 140 que confirmaram presença pelo Facebook, devem ter ido uns 60. O microfone do carro de som não funcionava direito e os transeuntes provavelmente não ouviram as palavras de ordem do pequeno grupo. Talvez justamente por isso é que o ato em frente à reitoria não durou mais que uma hora. E, é claro, não fizemos nenhuma diferença na reunião do Conselho Universitário que ocorria e da qual nem sequer esperamos o término. Eles não iriam colocar esta pauta só porque uns 60 rebeldes insatisfeitos com o sistema estão gritando (ou nem isso) logo ali em frente.

Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse.

Não é preciso dizer (ou melhor, não deveria ser preciso dizer) que as punições foram injustas, até mesmo do ponto de vista do desprezível estatuto da Unicamp, que foi elaborado na época da Ditadura Militar e desde então não se alterou. Nem que o reitor, em nenhuma ocasião, sentou-se para conversar com o sindicato ou com os estudantes - ainda que o estatuto obrigue-o a isso. Mas é claro que o reitor não será punido por quebrar o estatuto. A punição é só para os estudantes.

As coisas eram diferentes. Na Unicamp, durante a Ditadura, os estudantes protestavam e não eram punidos por isso. Em plena Ditadura. Zeferino, o reitor da época, protegeu os comunistas dos militares que queriam prendê-los. A ocupação do Ciclo Básico, um prédio onde ocorrem muitas aulas (especialmente para os alunos dos primeiros semestres), que terminou em 1987 foi o que garantiu a existência do atual Plano de Moradia Estudantil. A promessa, na época, era que a Moradia abrigaria 10% dos estudantes, o que seria em torno de 1500 vagas. Hoje, como eu já mencionei, são mais de 33 mil alunos, mas só existem 900 vagas atualmente.


O Ciclo Básico ficou ocupado durante dois anos. Sem a polícia para tirar eles de lá. Sem abertura de processo judicial para condená-los criminalmente. Nem mesmo suspensão. Eles moraram no prédio durante dois anos. E hoje em dia, estudantes e professores reclamam que os protestos e as greves atrapalham as aulas e impedem que eles comam no Restaurante Universitário. Isso é patético!

Aumentar a Moradia, isso a reitoria não faz. Mas, é claro, eles têm milhões para gastar em outras obras que são obviamente muito mais essenciais, como a pintura do Restaurante Universitário, a colocação de passarelas e a reforma da praça central da Unicamp. Muitos estudantes que precisam não terão onde morar, mas ao menos a Universidade ficará bonita! Continuarão tendo que enfrentar uma fila enorme para poder almoçar, mas almoçaram num lugar com pintura nova no valor de 260 mil! Que maravilha! Bem, a praça vai ter até áreas cobertas, quem sabe os estudantes que não têm lugar para ficar possam morar por lá mesmo, não é?

Ouvi muitos dizendo que não foram porque não tinham tempo, tinham outras coisas para fazer. É claro, eu não duvido disso. É exatamente por isso que a sociedade não entra numa crise de protestos como está acontecendo hoje na Grécia: porque ela mantém os seus cidadãos ocupados e individualizados. Sendo ocupados, eles não tem tempo para reclamar. Individualizados, não se importam.

Àqueles que querem apresentar objeções a isto que eu estou escrevendo, pensem: e se algum dos punidos fosse seu amigo, você teria tempo? E se fosse seu namorado, sua irmã, sua mãe? Você teria tempo para ficar indignado? Teria tempo para reclamar? E se a questão fosse o seu salário que está defasado? E se fosse com você? Você se importaria?

Oras, com todo o respeito, se você, caro leitor, não pretende fazer nada a respeito disso nem de qualquer outra coisa que seja, ao menos tenha a dignidade e o respeito por si mesmo e diga que não quer fazer nada porque você simplesmente não se importa. Não importo com o que você é sincero comigo ou não, mas seja sincero consigo mesmo.

Podem até dizer que é uma causa perdida, que não vale a pena, que nós não fizemos nenhuma diferença. Sim, não fizemos nenhuma diferença. Mas pelo menos nós colocamos a nossa cara a tapa enquanto indivíduos da reitoria nos filmavam. Assim, da próxima vez que eles quiserem punir alguém, poderão ver os rostos enquanto fazem a votação. Se quiserem me punir, ótimo, mas não serei aquele que assiste outros serem punidos sem fazer nada. Deem a mim os adjetivos que vocês quiserem, podem dizer que eu tenho tempo para ficar perdendo escrevendo textos e indo a protestos porque eu não faço nada da minha vida. Oras, ao menos eu posso dizer: eu estava lá. E vocês não estavam nem lá e nem em lugar nenhum. Continuem reclamando dos problemas insignificantes e patéticos de suas próprias vidas e durmam tranquilos durante a noite, porque eu sei que eu não conseguir.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...