sábado, 7 de janeiro de 2012

Em busca do Jesus histórico 7: Júnia, a apóstola, e as mulheres na visão de Paulo

A característica mais interessante de Paulo, o famoso apóstolo, é que ele prega uma certa igualdade entre homens e mulheres dentro das igrejas. Esta é uma visão dissonante com os padrões da época e especialmente com os padrões do cristianismo que iria se desenvolver no mundo depois de algumas décadas. Ele dava às mulheres vários direitos, incluindo que elas falassem nas igrejas e - pasmem! - que elas liderassem-nas.

Apresento como referência a aula do historiador do Novo Testamento Dale B. Martin.


O direito das mulheres, de acordo com Paulo

Paulo, o apóstolo
Em 1 Tessalonicenses 4, o apóstolo dirige-se à igreja como se houvessem apenas homens membros. Cronologicamente, esta é sua primeira carta (em 51 d.C.), e percebe-se que, com o tempo, isso muda: as comunidades cristãs deixam de ser clubes-do-bolinha e Paulo (em 53 ou 54 d.C.) decide dirigir-se diretamente às recém-chegadas:

No tocante às coisas sobre que me escrevestes, bom é que o homem não toque mulher; mas por causa das fornicações, cada um tenha sua mulher, e cada uma seu marido. O marido pague a sua mulher o que lhe deve, e da mesma maneira a mulher ao marido. A mulher não tem domínio sobre o seu corpo, mas sim o marido; e da mesma forma o marido não tem domínio sobre o seu corpo, mas sim a mulher.

Então, ao contrário do que se vê em outras partes da Bíblia, Paulo está dando uma ideia de reciprocidade. No matrimônio, não apenas a mulher pertence ao marido, mas o marido também pertence à mulher. E ele vai ainda mais longe:

Aos casados, porém, dou mandamento, não eu, senão o Senhor, que a mulher se não separe do marido (mas se ela se separar, fique sem casar, ou reconcilie-se com seu marido); e que o marido não deixe a sua mulher.

Desenho mostrando o uso de véu por cristãs
primitivas
nos séculos II e III

É fato também que ele coloca as mulheres num patamar inferior dos homens:

Mas quero que vos saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem é a cabeça da mulher, e Deus é a cabeça de Cristo.

Todo o homem quando ora, ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua cabeça. Toda a mulher, porém, quando ora, ou profetiza, não tendo a cabeça coberta, desonra a sua cabeça; pois é uma e a mesma coisa como se estivesse rapada. Portanto se a mulher não se cobre com véu, seja também tosquiada; mas se é vergonhoso à mulher o ser tosquiada ou rapada, cubra-se ela com véu.


Portanto se a mulher não se cobre com véu, seja também tosquiada; mas se é vergonhoso à mulher o ser tosquiada ou rapada, cubra-se ela com véu.
1 Coríntios 11:5-6


Todo o homem quando ora, ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua cabeça.

Toda a mulher, porém, quando ora, ou profetiza, não tendo a cabeça coberta, desonra a sua cabeça; pois é uma e a mesma coisa como se estivesse rapada.
1 Coríntios 11:3-5

Agora, comparemos os versículos acima com estes:

Como em todas as igrejas dos santos, as mulheres estejam caladas nas igrejas; pois não lhes é permitido falar, mas estejam em sujeição, como também diz a Lei. Se, porém, querem aprender alguma coisa, perguntem-na em casa a seus maridos; porque é vergonhoso para uma mulher o falar na igreja.

Estranho, não? De um lado, o missionário dá a entender que mulheres podem profetizar - desde que estejam de cabeça encoberta - e de outro, ele explicitamente ordena que elas se calem nas igrejas.

Antes de tentar dar piruetas e tentar "interpretar" esta última perícope, caro leitor, saiba que há uma explicação bem mais simples. Ao leitor dedicado, peço que leia o capítulo 14, ou ao menos a partir do versículo 30. O assunto sendo tratado são profecias, orações em língua, pregação, entre outros. Veja como a perícope acima salta aos olhos - ela está totalmente deslocada. É uma interpolação.

Não precisaríamos mais do que isso para ter uma base (não tão sólida) para dizer que esta passagem é uma adição posterior. Entretanto, para nossa alegria, temos bem mais do que isso. De fato, este verso:
  1. aparece em posições diferentes nos manuscritos;
  2. apresenta alta concentração de variação textual nos manuscritos (como pode ser visto aqui - clique na aba "Greek");
  3. apresenta uma linguagem dissonante daquela comumente utilizada por Paulo;
  4. rompe  com o fluxo do texto;
  5. é demarcado como problemático pelos escribas.
Vale lembrar que as características acima também se aplicam à Perícope da Adúltera (como foi discutido em outro texto).

Esta passagem problemática não foi citada por nenhum dos escritores cristãos do século II (em especial, Clemente de Alexandria), exceto Tertullian, por volta de 200 d.C., apesar de seu conteúdo chamar muito a atenção pela sua forte restrição. As evidências são muitas, esta é uma fraude óbvia. Isso mostra que os escribas cristãos faziam alterações nos textos cristãos por motivos ideológicos.


Febe, a diaconisa, e Júnia, a apóstola

Febe
Então, as mulheres, na opinião de Paulo, podiam orar e profetizar nas igrejas. Isso fica evidente também na carta aos Romanos, capítulo 16, onde o pregador cita várias mulheres envolvidas nas igrejas, muitas vezes em posição de destaque. Febe (em inglês, Phoebe), Prisca (ou Priscila), Maria, Trifena Trifona, Pérside... Ao longo das décadas, entretanto, houve relutância em aceitar esta possibilidade e, por isso, algumas palavras foram traduzidas de uma forma que hoje é contestada pelos historiadores.

Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está no serviço da igreja em Cencreia, para que no Senhor a recebais dum modo digno dos santos, e a ajudeis em qualquer coisa que de vós precisar; porque ela tem sido protetora de muitos, e de mim em particular.

Vejamos esta outra possível tradução:

Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que é diaconisa da igreja de Cêncris.

A palavra com a tradução problemática é diakonos, que pode significar tanto diácono quanto servo. Entretanto, pela colocação na frase, está claro que a tradução mais apropriada é diácono. O engraçado é que a palavra está no gênero masculino, o que reforça a ideia de que se trata de um título e que a Paulo está efetivamente considerando-a como diaconisa. Está claro que traduzi-la como servo é uma questão cultural: se o nome fosse masculino, não haveria hesitação em traduzir esta diakonos como diácono.

Outro versículo que chama a atenção neste mesmo capítulo é o seguinte:

Saúdem Andrônico e Júnias, meus parentes que estiveram na prisão comigo. São notáveis entre os apóstolos, e estavam em Cristo antes de mim.

Andrônico, Atanásio de Alexandria e Júnia
Este versículo apresenta variações na tradução. Júnias é um nome masculino. Entretanto,  o nome que consta no manuscrito está na sua forma acusativa, Iounian, que, portanto, pode também referenciar-se a Júnia, um nome feminino. Como podemos decidir entre os dois nomes, então? Outro problema é o texto diz que eles eram apóstolos notáveis ou se os apóstolos os estimavam. Ou seja, será que Júnia(s) era um(a) apóstolo(a)?

É claro que o conceito de apóstolo para Paulo não se limitava aos doze - afinal, ele se denominava apóstolo e afirmou não ser um deles.

Os primeiros cristãos, ao ler a carta de Paulo, entenderam que se se tratava de uma mulher. Todos os pais apostólicos (com uma exceção) referenciavam-se a ela pelo nome de Júnia. Um exemplo é Crisóstomo (347-407), que fala a respeito das mulheres em Romanos 16.



De fato, serem apóstolos já é um grande feito. Mas ainda ser notável entre eles, imagine como isso deve ser uma grande honra! Mas eles eram notáveis pelos seus trabalhos, suas conquistas. Oh! Como é grande a devoção desta mulher para que ela seja digna da designação de apóstola!
Crisóstomo (p. 554, 555 - tradução livre)


Note que este cristão não era nenhum feminista, tendo dito que, "dos animais selvagens, nenhum é mais danoso que a mulher".


A exceção que mencionei é Epifânio (438-496), que citou o nome Júnias. Entretanto, ele também cometeu o erro de referenciar Prisca (Romanos 16:3) como Priscus, outro nome masculino. Portanto, a referência de Epifânio é duvidosa.


O fato que mais aponta para o nome Júnia é que este nome foi encontrado em mais de 250 textos na antiguidade, mostrando que este era um nome bem comum (como abreviação de Junianas), enquanto que a forma masculina Júnias não foi encontrada em lugar algum!


Sendo assim, aparentemente, a tradução histórica de Iounian como Júnias - que começou no século XII - foi puramente por motivos ideológicos. O mesmo motivo ideológico que levou ao acréscimo de 1 Coríntios 14:33b-35 por escribas do século II em diante. De fato, os cristãos da Idade Média tentaram negar e encobrir a verdadeira identidade de Júnia. Ela era uma mulher e era apóstola.

Febe e Júnia são veneradas em algumas religiões cristãs, especialmente na Igreja Ortodoxa e nas igrejas não-calcedonianas (às vezes conhecidas como igrejas ortodoxas orientais).


A conclusão que tiramos disso tudo é que a noção que apenas homens podem liderar as igrejas de hoje não tem fundamento histórico.


< Parte 6  Parte 8 > 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Os santos "incorruptos": como mentiras se tornam verdade

É a mão divina estendendo-se sobre os corpos desses indivíduos exemplares como testemunho de sua santidade. Incorruptos na vida, incorruptos também na morte. Mesmo após séculos desde a morte deles, seus corpos estão tão bem preservados que eles até parecem estar dormindo. E não só isso: ao contrário do que comumente acontece com cadáveres, estes não fedem a podridão da morte, mas exalam o perfume da santidade. Santa Bernadete - talvez o caso mais famoso - parece estar à espera do beijo de um príncipe encantado. Um verdadeiro milagre, é impossível que haja outra explicação.

Bem, pelo menos, isso é o que dizem por aí. Há inúmeras na Internet afirmando que a incorruptibilidades dos santos é verdadeira e que a ciência não consegue encontrar uma explicação plausível, natural para este fato... Então só pode ser verdade!

Santa Bernadete de Lourdes
Será?

Vamos analisar a história do corpo de Santa Bernadete após a sua morte, em 1879. Note-se que o site contando a história é católico. Trinta anos após a sua morte, o corpo foi exumado para ser examinado para processo de canonização. Um cirurgião e um doutor examinaram o corpo sob juramento. O estado de preservação do corpo era "perfeito" (sic).

O hábito estava umedecido, o rosto estava pálido. Ao remover o hábito, perceberam que os membros estavam rígidos e tensionados - e, de fato, o corpo todo estava rígido, de tal maneira que eles puderam virar e desvirar o corpo. As costelas estavam protuberantes e o estômago estava afundado. As partes mais baixas do corpo estavam enegrecidas, o que "parecia ter sido resultado do carbono que foi encontrado em grandes quantidades no caixão". As freiras que acompanhavam o procedimento lavaram o corpo e colocaram-no em um novo caixão. Nas poucas horas que o corpo ficou exposto ao ar, ele começou a escurecer. O caixão foi selado e guardado.

Escurecer? Hum...

O próprio texto diz que a preservação do corpo não é necessariamente milagre, mas pode estar ligado com as condições em que o corpo foi sepultado.

Dez anos depois, o corpo foi novamente exumado e analisado por dois doutores. O corpo estava praticamente mumificado. A pele estava ausente em alguns lugares, embora ainda estivesse presente na maior parte do corpo. Algumas das veias estavam ainda visíveis. Os músculos estavam atrofiados, mas bem conservados, a pele estava enrugada devido aos efeitos da umidade do caixão.

A última exumação se deu em 1925. Nesta ocasião, o corpo foi envolto em faixas, exceto no rosto e nas mãos. O rosto foi impresso para que a firma de Pierre Imans de Paris pudesse criar uma leve máscara de cera baseada nesta impressão e nas fotos disponíveis. Isto era uma prática comum, pois o enegrecimento da face e afundamento dos olhos poderiam dar uma impressão desagradável ao público.

Convido-o, caro leiro, a examinar as máscaras de cera nas fotos de vários santos. Veja também quantas vezes a palavra wax (cera, em inglês) aparece nesta página que defende que a incorruptibilidade dos santos é um milagre.

É assim, caro leitor, que se esconde a verdade, para que o povo não "perca a fé" - ou seja, não questione e continue pagando o dízimo. Com uma máscara de cera.

São Pio de Pietrelcina
Nos últimos 15 anos, entretanto, uma nova visão dos Incorruptos começou a emergir. A pedido do Vaticano, patologistas, químicos e radiologistas italianos estiveram estudando os corpos de homens e mulheres antigos enterrados nos relicários das igrejas. [...]

Em Cortona, Fulcheri juntou-se aos outros examinadores, fazendo o juramento requisitado a todos os participantes de tais procedimentos: ele jurou respeitar os restos dos santos, de não pegar nada e de dizer a verdade a respeito das suas descobertas. Então ele e seus colegas romperam os lacres do relicário e carregaram o corpo da santa [Margarita] a uma área privada da catedral. Conforme Fulcheri levantou gentilmente a borda de seu vestido sobre suas pernas, todos os reunidos começaram a murmurar. Várias longas incisões haviam sido feitas ao longo de suas coxas; havia outros cortes mais fundos ao longo do abdome e peito. Claramente feitos após a morte, eles haviam sido costurados com uma linha grossa e preta. Santa Margarita fora artificialmente mumificada.

Investigando documentos históricos e eclesiásticos, Fulcheri fez uma descoberta surpreendente: "As pessoas [de Cortona] pediram à Igreja que a embalsamasse," diz ele. De acordo com os relatos, eles fizeram este pedido publicamente. Mas ao longo dos séculos, este fato havia se perdido. As pessoas assumiram, dado o estado do seu corpo, que ela havia sido preservada por um ano divino. Os reconhecimentos canônicos realizados no corpo pouco fizeram para corrigir o relato. Os examinadores detectaram a fragrância dos unguentos e especiarias sobre ela, mas eles estavam muito embaraçados para fazer nela um exame físico completo. "Eles haviam puxado seu vestido para trás, mas só um pouco para ser sincero," observa Fulcheri.
(Cópia disponível neste link)

O texto acima fala sobre a mumificação artificial que foram feitas em outros santos: Santo Emiliano, São Gregório Barbarigo, Santa Clara de Montefalco, Beata Margarita de Metola, Santa Catarina de Siena, São Bernadino de Siena e Santa Rita de Cássia (os últimos cinco receberam cortes de forma similar à Margarita de Cortona). O Padre Pio também não escapa à lista dos embalsamados - e, apesar disso, seu rosto estava degradado na sua exumação, 40 anos após sua morte, e, por isso, foi colocada sobre seu corpo uma máscara de cera. Há outros santos cujas tumbas favoreceram a preservação dos corpos por suas condições químicas e de temperatura, causando uma mumificação natural.

Santa Clara de Montefalco
A preservação de corpos varia muito com as condições ambientais a que o corpo é submetido. Isso, de fato, não é completamente compreendido pela ciência. Frequentemente, porém, há confusão entre as pessoas quando se diz que a ciência não compreende algo - isso não é nem de longe prova de que não há uma explicação e nem mesmo que a ciência não é capaz de chegar a uma conclusão. Se a ciência não compreende, é porque falta evidências ou tempo de pesquisa para encontrar a resposta à pergunta.

Afirmar a ausência de explicações por parte da ciência é prova de que há um milagre é uma falácia conhecida como argumentum ad ignorantiam (argumento da ignorância).

Os santos católicos não são em nada especiais - há santos da Igreja Cristã Ortodoxa, monges budistas e até pessoas comuns cujos corpos se preservaram acima do comum. Cerca de 20 budistas sofreram mumificação após uma rigorosa dieta para emagrecer e tornar o corpo tóxico a parasitas, permanecendo isolados numa caverna, que era selada por um tempo após o falecimento para depois ser aberta para verificar se ocorreu a mumificação.

O vídeo abaixo atesta que os cientistas estão "perturbados" com a preservação do monge Lambo Lama Liigelov. Entretanto, sabe-se que seu corpo foi preservado com sais de brometo.


Há interesse tanto religioso quanto financeiro nas relíquias de santos e é por este motivo que eles são frequentemente embalsamados e desenterrados. A enorme quantidade de relíquias de santos com preservação acima da média é demonstração, não de algum milagre, mas de como as pessoas têm um fascínio por eles. Quer eles mereçam tal fascínio, quer não.

Quero chamar-lhe a atenção, caro leitor, a todo este rebuliço acerca dos corpos dos santos. Se alguém desenterra um indivíduo qualquer - que, sabe-se, não foi nenhum santo - e percebe que seu corpo está razoavelmente preservado, pode até se espantar, mas não sairá gritando "milagre" pelos telhados. Muitas vezes testemunhei o fascínio de leigos pelas múmias egípcias, afirmando que muitas delas estavam inexplicavelmente preservadas, mas nenhum deles testemunhava que a única explicação para isso seria uma intervenção sobrenatural.

Por outro lado, se o corpo é de um santo... as pessoas tornam-se extremamente crédulas. Qualquer sinal de preservação - por menor que seja - torna-se, do ponto de vista dos fiéis, inexplicável, até mesmo para a ciência, senão por milagre. Os fatos são cada vez mais exagerados conforme são transmitidos de boca em boca e poucos se preocupam em certificar-se de que os relatos são verdadeiros. Em pouco tempo, aparecem páginas de Internet com aparência de científicas atestando para a incontestabilidade da existência de milagres, apesar dos autores não terem sequer estudado putrefação de corpos.

E assim fica a lição: relatos populares são exagerados. As pessoas acabam por inventar algumas mentiras e exagerar outras para defender seu próprio ponto de vista. De forma não intencional, diga-se de passagem, e é exatamente por isso que elas soam tão convincentes: pois não são mentiras maliciosas, mas sinceras.

O mais revoltante nisso tudo não é a confusão ou a credulidade do povo, mas a (falta de) posição do Vaticano. Não é interessante o quanto a Igreja se pronuncia com tanto vigor acerca de coisas que ela não sabe? Por exemplo, as vontades divinas, entre tantas outras coisas que são impossíveis de se saber e, principalmente, de se contestar. Entretanto, quando se trata de algo que ela realmente sabe, mas que seria inconveniente para ela que as pessoas soubessem, ela se cala feito uma porta! Afinal de contas, que problema há em transgredir o sétimo mandamento em nome da fé, não é? Que mal há em enganar as pessoas - ou deixar de esclarecê-las - para que elas continuem a acreditar? Para a Igreja, ironicamente, é inconcebível que as pessoas se "enganem" a respeito da camisinha, "achando" que ela é permissível, mas que elas não saibam que santos foram embalsamados e receberam máscaras de cera, ah, aí não tem problema! Que as pessoas continuem caminhando de joelhos para pagar promessas aos santos, isso lhe é extremamente conveniente e não lhe pesa nem um pouco na consciência que o façam por uma ilusão.

Desde que continuem católicas, não há problema algum!

Alguém no passado cometeu um enorme erro ao dizer que fé é uma dádiva divina, um presente do Espírito Santo. Quando percebe-se que os mais esclarecidos, em nome da fé, permanecem de braços cruzados enquanto os fiéis iludem-se uns aos outros, isso é sinal de que a história foi longe demais. É uma ilusão acreditar que agir de tal maneira é justo e bom "aos olhos de Deus", quando, de fato, estão mascarando a verdade com uma máscara de cera. Ao venerar os santos como seres extraordinários, a santidade torna-se inalcançável e os santos, inimitáveis. Como santidade é erroneamente confundida com bondade, o resultado é que as pessoas acabam por concluir que bondade é difícil, um fardo, que é alcançada através da fé, da religiosidade e que a mais verdadeira e pura bondade está reservada a estes semideuses os quais chamamos santos. Mentiras e mais mentiras vão se tornando verdade sem que ninguém perca o sono por isso.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

"Como você pode ter tanta certeza?"

O tribunal está em sessão. Quem está no banco dos réus é Mário, a acusação é assassinato. Várias evidências são apresentadas pela promotoria. Aparentemente, houve uma briga e o assassino deixou na cena do crime algumas gotas de sangue. Um teste de DNA mostra que o sangue pertence ao réu. Havia marcas de pegadas cena do crime que são compatíveis com um par de sapatos sujos de terra - a mesma terra que é lá encontrada - que estavam na casa de Mário. Em sua posse também foram encontradas roupas manchadas com o sangue da vítima. Mário tinha motivos de sobra para querer a vítima a sete palmos abaixo da terra.

Não foram necessários mais do que 15 minutos de discussão para que o juri chegasse à sua decisão: o réu é culpado de todas as acusações. Joana, a namorada de Mário, é claro, não gosta disso. Ela reclama que o julgamento foi injusto, como pode o juri ter tanta certeza nessa decisão? E se houve uma grande conspiração por parte da polícia para incriminar o réu? Oras, o teste de DNA tem uma chance em um trilhão de acusar um falso positivo, e se o réu for simplesmente muito, muito, muito, muito azarado? O crime foi realizado sem que houvesse uma só testemunha, como o juri pode acreditar que Mário estava lá se ninguém viu?

Como ousam eles considerar a teoria de que Mário é culpado como a única "verdade absoluta"?

Pensemos por um segundo. Joana teria alguma razão? Será que existe alguma possibilidade do réu ser, afinal de contas, inocente? Sim, é claro que existe. Agora, é razoável supor que o réu é inocente? Quem é que, diante de tantas evidências, não julgaria o réu como culpado sem nem sequer piscar para pensar? De que vale a pena agarrar-se com tanto fervor numa possibilidade tão remota de ter cometido um erro? Quem é que acredita que é injusto declarar que Mário é culpado em tais circunstâncias?

Joana.

Oras, Joana pode dar tantos murros nessa faca quanto ela quiser, ela pode gritar e espernear à vontade, mas Mário vai pra cadeia e ninguém vai perder o sono por isso.

"Olhe, eu estou disposta a admitir que o seu ponto de vista é possível, mas como você pode dizer que o meu ponto de vista é impossível?" É o que dizem as Joanas por aí, como se não soubessem como defender o seu próprio ponto de vista com argumentos ou evidências e procurassem chegar a um acordo, pedir uma trégua, numa tentativa de não se sentirem prejudicadas. Ou seja, pedem água. Mas em que circunstâncias alguém pede água senão numa briga? Por que tratar uma discussão como se fosse uma disputa?

Oras, numa disputa, um ganha somente às custas da derrota do outro, enquanto que, numa discussão, quem tem o maior lucro não é aquele que defende melhor o seu ponto de vista, pelo contrário, é aquele que aprende mais. Além do mais, se o propósito de uma discussão acerca de um assunto polêmico for chegar à conclusão que os dois lados deste assunto são igualmente possíveis, então, pra começo de conversa, para quê discutir? Não seria mais fácil os indivíduos envolvidos dizerem "todas as possibilidades são igualmente possíveis" e encerrar a discussão?

É claro que discussões não podem sempre ser vistas desta forma, dificilmente a questão é sim ou não, e não é apenas a questão da existência de meios termos, mas de problemas laterais correlacionados ou que influenciam alguma decisão numa situação prática. Há de se tomar cuidado para não prender-se no extremo de uma questão ou de negar-se a ouvir uma opinião contrária.

Por que Joana acredita tanto na inocência do seu amado? Simples: porque ela quer acreditar. É a Primeira Regra do Mago:

As pessoas são estúpidas; dada motivação o suficiente, quase todo mundo acreditará em quase tudo. Porque as pessoas são estúpidas, elas acreditarão numa mentira porque elas querem acreditar que ela é verdade, ou porque elas têm medo de que ela possa ser verdade.

É extremamente importante notar que isso vale para ambos os lados. Muitas vezes, alguém defende um ponto de vista extremo, não porque tem evidências, mas porque quer acreditar naquele extremo, enquanto que aquele que argumenta pelo meio-termo esta apenas tentando ser sensato. Deve-se, portanto, saber distinguir entre uma situação e outra.

Não importa a situação, qualquer ponto de vista, seja extremo, meio-extremo ou meio-termo, é defendido por argumentos e evidências, não por negociação. Dizer que um fato bem estabelecido é falso pela vontade de acreditar na sua falsidade é dar murro em ponta de faca. Tentar negociar e suavizar o ponto de vista alheio sem argumentação ou evidência é acariciar a faca: os cortes são inevitáveis e a faca não perderá o seu fio.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Feliz 2012!

"O fim está próximo!" O único propósito desta frase é causar medo e escândalo. Antes fosse uma ideia nova, antes hoje nós tivéssemos mais razão para acreditar que o mundo chegará ao seu fim do que tiveram os pobres que testemunharam a queda do Império Romano, a Santa Inquisição e as Cruzadas, a Crise de 29, as duas guerras mundiais, a Guerra Fria, entre tantos eventos catastróficos já ocorridos.

Dizem que os sinais dos tempos são claros. Sim, são claros, como sempre foram, o tempo todo as pessoas viam tais sinais na época em que viviam. Crises e guerras acontecem o tempo todo, durante toda a História.

Já sobrevivemos a Deus e ao diabo, acho que não teremos problema em sobreviver a uma previsão (que não foi) feita pelo povo maia acerca do ano que vai chegar.

Deixo aqui duas listas de datas para o fim do mundo ao longo da História: a primeira tem 242 previsões de fim de mundo, a segunda deve ter 183, caso não tenha errado nas contas.

Desejo um próspero ano novo a todos!

Correção no texto "Jesus, Buda e a influência deste no cristianismo"

No texto Em busca do Jesus histórico 6: Jesus, Buda e a influência deste no cristianismo, cometi um erro ao usar o livro "The Gospel of Buddha" como fonte. Fiz uma pequena edição no texto original e adicionei uma nota ao final do texto.

Além disso, gostaria de notificar que a série  "Em busca do Jesus histórico" não chegou ao seu fim! Portanto, não fiquem tristes: em breve, publicarei mais textos a respeito do cristianismo primitivo, das diferentes formas que as pessoas viam o galileu, a visão dos historiadores a respeito de quem foi Jesus, entre tudo o que eu conseguir cavar a respeito do assunto.

Não percam!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...