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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Os santos "incorruptos": como mentiras se tornam verdade

É a mão divina estendendo-se sobre os corpos desses indivíduos exemplares como testemunho de sua santidade. Incorruptos na vida, incorruptos também na morte. Mesmo após séculos desde a morte deles, seus corpos estão tão bem preservados que eles até parecem estar dormindo. E não só isso: ao contrário do que comumente acontece com cadáveres, estes não fedem a podridão da morte, mas exalam o perfume da santidade. Santa Bernadete - talvez o caso mais famoso - parece estar à espera do beijo de um príncipe encantado. Um verdadeiro milagre, é impossível que haja outra explicação.

Bem, pelo menos, isso é o que dizem por aí. Há inúmeras na Internet afirmando que a incorruptibilidades dos santos é verdadeira e que a ciência não consegue encontrar uma explicação plausível, natural para este fato... Então só pode ser verdade!

Santa Bernadete de Lourdes
Será?

Vamos analisar a história do corpo de Santa Bernadete após a sua morte, em 1879. Note-se que o site contando a história é católico. Trinta anos após a sua morte, o corpo foi exumado para ser examinado para processo de canonização. Um cirurgião e um doutor examinaram o corpo sob juramento. O estado de preservação do corpo era "perfeito" (sic).

O hábito estava umedecido, o rosto estava pálido. Ao remover o hábito, perceberam que os membros estavam rígidos e tensionados - e, de fato, o corpo todo estava rígido, de tal maneira que eles puderam virar e desvirar o corpo. As costelas estavam protuberantes e o estômago estava afundado. As partes mais baixas do corpo estavam enegrecidas, o que "parecia ter sido resultado do carbono que foi encontrado em grandes quantidades no caixão". As freiras que acompanhavam o procedimento lavaram o corpo e colocaram-no em um novo caixão. Nas poucas horas que o corpo ficou exposto ao ar, ele começou a escurecer. O caixão foi selado e guardado.

Escurecer? Hum...

O próprio texto diz que a preservação do corpo não é necessariamente milagre, mas pode estar ligado com as condições em que o corpo foi sepultado.

Dez anos depois, o corpo foi novamente exumado e analisado por dois doutores. O corpo estava praticamente mumificado. A pele estava ausente em alguns lugares, embora ainda estivesse presente na maior parte do corpo. Algumas das veias estavam ainda visíveis. Os músculos estavam atrofiados, mas bem conservados, a pele estava enrugada devido aos efeitos da umidade do caixão.

A última exumação se deu em 1925. Nesta ocasião, o corpo foi envolto em faixas, exceto no rosto e nas mãos. O rosto foi impresso para que a firma de Pierre Imans de Paris pudesse criar uma leve máscara de cera baseada nesta impressão e nas fotos disponíveis. Isto era uma prática comum, pois o enegrecimento da face e afundamento dos olhos poderiam dar uma impressão desagradável ao público.

Convido-o, caro leiro, a examinar as máscaras de cera nas fotos de vários santos. Veja também quantas vezes a palavra wax (cera, em inglês) aparece nesta página que defende que a incorruptibilidade dos santos é um milagre.

É assim, caro leitor, que se esconde a verdade, para que o povo não "perca a fé" - ou seja, não questione e continue pagando o dízimo. Com uma máscara de cera.

São Pio de Pietrelcina
Nos últimos 15 anos, entretanto, uma nova visão dos Incorruptos começou a emergir. A pedido do Vaticano, patologistas, químicos e radiologistas italianos estiveram estudando os corpos de homens e mulheres antigos enterrados nos relicários das igrejas. [...]

Em Cortona, Fulcheri juntou-se aos outros examinadores, fazendo o juramento requisitado a todos os participantes de tais procedimentos: ele jurou respeitar os restos dos santos, de não pegar nada e de dizer a verdade a respeito das suas descobertas. Então ele e seus colegas romperam os lacres do relicário e carregaram o corpo da santa [Margarita] a uma área privada da catedral. Conforme Fulcheri levantou gentilmente a borda de seu vestido sobre suas pernas, todos os reunidos começaram a murmurar. Várias longas incisões haviam sido feitas ao longo de suas coxas; havia outros cortes mais fundos ao longo do abdome e peito. Claramente feitos após a morte, eles haviam sido costurados com uma linha grossa e preta. Santa Margarita fora artificialmente mumificada.

Investigando documentos históricos e eclesiásticos, Fulcheri fez uma descoberta surpreendente: "As pessoas [de Cortona] pediram à Igreja que a embalsamasse," diz ele. De acordo com os relatos, eles fizeram este pedido publicamente. Mas ao longo dos séculos, este fato havia se perdido. As pessoas assumiram, dado o estado do seu corpo, que ela havia sido preservada por um ano divino. Os reconhecimentos canônicos realizados no corpo pouco fizeram para corrigir o relato. Os examinadores detectaram a fragrância dos unguentos e especiarias sobre ela, mas eles estavam muito embaraçados para fazer nela um exame físico completo. "Eles haviam puxado seu vestido para trás, mas só um pouco para ser sincero," observa Fulcheri.
(Cópia disponível neste link)

O texto acima fala sobre a mumificação artificial que foram feitas em outros santos: Santo Emiliano, São Gregório Barbarigo, Santa Clara de Montefalco, Beata Margarita de Metola, Santa Catarina de Siena, São Bernadino de Siena e Santa Rita de Cássia (os últimos cinco receberam cortes de forma similar à Margarita de Cortona). O Padre Pio também não escapa à lista dos embalsamados - e, apesar disso, seu rosto estava degradado na sua exumação, 40 anos após sua morte, e, por isso, foi colocada sobre seu corpo uma máscara de cera. Há outros santos cujas tumbas favoreceram a preservação dos corpos por suas condições químicas e de temperatura, causando uma mumificação natural.

Santa Clara de Montefalco
A preservação de corpos varia muito com as condições ambientais a que o corpo é submetido. Isso, de fato, não é completamente compreendido pela ciência. Frequentemente, porém, há confusão entre as pessoas quando se diz que a ciência não compreende algo - isso não é nem de longe prova de que não há uma explicação e nem mesmo que a ciência não é capaz de chegar a uma conclusão. Se a ciência não compreende, é porque falta evidências ou tempo de pesquisa para encontrar a resposta à pergunta.

Afirmar a ausência de explicações por parte da ciência é prova de que há um milagre é uma falácia conhecida como argumentum ad ignorantiam (argumento da ignorância).

Os santos católicos não são em nada especiais - há santos da Igreja Cristã Ortodoxa, monges budistas e até pessoas comuns cujos corpos se preservaram acima do comum. Cerca de 20 budistas sofreram mumificação após uma rigorosa dieta para emagrecer e tornar o corpo tóxico a parasitas, permanecendo isolados numa caverna, que era selada por um tempo após o falecimento para depois ser aberta para verificar se ocorreu a mumificação.

O vídeo abaixo atesta que os cientistas estão "perturbados" com a preservação do monge Lambo Lama Liigelov. Entretanto, sabe-se que seu corpo foi preservado com sais de brometo.


Há interesse tanto religioso quanto financeiro nas relíquias de santos e é por este motivo que eles são frequentemente embalsamados e desenterrados. A enorme quantidade de relíquias de santos com preservação acima da média é demonstração, não de algum milagre, mas de como as pessoas têm um fascínio por eles. Quer eles mereçam tal fascínio, quer não.

Quero chamar-lhe a atenção, caro leitor, a todo este rebuliço acerca dos corpos dos santos. Se alguém desenterra um indivíduo qualquer - que, sabe-se, não foi nenhum santo - e percebe que seu corpo está razoavelmente preservado, pode até se espantar, mas não sairá gritando "milagre" pelos telhados. Muitas vezes testemunhei o fascínio de leigos pelas múmias egípcias, afirmando que muitas delas estavam inexplicavelmente preservadas, mas nenhum deles testemunhava que a única explicação para isso seria uma intervenção sobrenatural.

Por outro lado, se o corpo é de um santo... as pessoas tornam-se extremamente crédulas. Qualquer sinal de preservação - por menor que seja - torna-se, do ponto de vista dos fiéis, inexplicável, até mesmo para a ciência, senão por milagre. Os fatos são cada vez mais exagerados conforme são transmitidos de boca em boca e poucos se preocupam em certificar-se de que os relatos são verdadeiros. Em pouco tempo, aparecem páginas de Internet com aparência de científicas atestando para a incontestabilidade da existência de milagres, apesar dos autores não terem sequer estudado putrefação de corpos.

E assim fica a lição: relatos populares são exagerados. As pessoas acabam por inventar algumas mentiras e exagerar outras para defender seu próprio ponto de vista. De forma não intencional, diga-se de passagem, e é exatamente por isso que elas soam tão convincentes: pois não são mentiras maliciosas, mas sinceras.

O mais revoltante nisso tudo não é a confusão ou a credulidade do povo, mas a (falta de) posição do Vaticano. Não é interessante o quanto a Igreja se pronuncia com tanto vigor acerca de coisas que ela não sabe? Por exemplo, as vontades divinas, entre tantas outras coisas que são impossíveis de se saber e, principalmente, de se contestar. Entretanto, quando se trata de algo que ela realmente sabe, mas que seria inconveniente para ela que as pessoas soubessem, ela se cala feito uma porta! Afinal de contas, que problema há em transgredir o sétimo mandamento em nome da fé, não é? Que mal há em enganar as pessoas - ou deixar de esclarecê-las - para que elas continuem a acreditar? Para a Igreja, ironicamente, é inconcebível que as pessoas se "enganem" a respeito da camisinha, "achando" que ela é permissível, mas que elas não saibam que santos foram embalsamados e receberam máscaras de cera, ah, aí não tem problema! Que as pessoas continuem caminhando de joelhos para pagar promessas aos santos, isso lhe é extremamente conveniente e não lhe pesa nem um pouco na consciência que o façam por uma ilusão.

Desde que continuem católicas, não há problema algum!

Alguém no passado cometeu um enorme erro ao dizer que fé é uma dádiva divina, um presente do Espírito Santo. Quando percebe-se que os mais esclarecidos, em nome da fé, permanecem de braços cruzados enquanto os fiéis iludem-se uns aos outros, isso é sinal de que a história foi longe demais. É uma ilusão acreditar que agir de tal maneira é justo e bom "aos olhos de Deus", quando, de fato, estão mascarando a verdade com uma máscara de cera. Ao venerar os santos como seres extraordinários, a santidade torna-se inalcançável e os santos, inimitáveis. Como santidade é erroneamente confundida com bondade, o resultado é que as pessoas acabam por concluir que bondade é difícil, um fardo, que é alcançada através da fé, da religiosidade e que a mais verdadeira e pura bondade está reservada a estes semideuses os quais chamamos santos. Mentiras e mais mentiras vão se tornando verdade sem que ninguém perca o sono por isso.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Em busca do Jesus histórico 4: E (não é assim que) nasce o messias

Todos conhecem a história tradicional: a gruta, a manjedoura, os animais, os três reis magos, os anjos, os pastores. Atrelado ao nascimento do Cristo está também o nascimento de João Batista, seu precursor, fruto de uma a gravidez miraculosa. Seria essa realmente a história que a bíblia conta? E quanto desta narrativa é confiável?
Estou utilizando, nos meus estudos, A Bíblia de Jerusalém, uma bíblia (católica) de estudos da editora Paulus. Uma referência utilizada é esta aula sobre o evangelho de Lucas ministrada na Universidade de Yale.


Evangelho de Mateus


Maria achou-se “grávida pelo Espírito Santo”. José decidiu repudiá-la, mas recebeu a visita do anjo do Senhor em sonho e aceitou ser o pai da criança.

Depois que Jesus nasceu em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém e perguntaram: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”.
Mateus 2:1-2

O primeiro detalhe a se notar é que não há nenhuma explicação do motivo pelo qual José e Maria encontram-se em Belém. Presume-se que eles moravam lá. E os magos não são ditos reis. Na verdade, a palavra grega utilizada, magos, designa membros da casta de sacerdotes do zoroastrismo, que tinham a reputação de serem astrólogos.
Os magos conversam com Herodes e dizem que o messias deve nascer em Belém, e o rei pede a eles que, quando voltassem, informassem a ele onde o menino se encontrava para poder homenageá-lo. Os magos continuaram o seu caminho e a estrela parou sobre onde o menino estava. Como seria possível? Uma boa teoria é que descrição da estrela de Belém assemelha-se às características do aparecimento do cometa Haley em 66 d.C.: do ponto de vista de alguém de Belém, ele apareceu no leste e foi indo em direção a oeste até ficar aparentemente parada sobre Belém ou alguma cidade próxima. Nenhum outro cometa teria exibido essas características próximo ao nascimento de Jesus. Aparentemente o evangelista presenciou esta estrela e decidiu usá-la na sua história.

Toda a ideia de um nascimento anunciado por uma estrela e que recebe visita de pessoas importantes não é original de Mateus, esta é uma receita antiga que teria ocorrido, de acordo com relatos, em nascimentos de semideuses ou deuses da antiguidade. Por exemplo, a história elaborada por Mateus é bem parecida com a história a respeito do nascimento do imperador Augusto (63 d.C.) e pode ter tomado esta como base.

Ao entrarem na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram. Então abriram os seus tesouros e lhe deram presentes: ouro, incenso e mirra.
Mateus 2:11

Casa? Não era uma caverna e Jesus não estava numa manjedoura? Não, a natividade na caverna vem do Evangelho da Infância de Tiago. E não há nenhuma menção à manjedoura em Mateus. E onde está escrito que os reis magos eram três? E onde está o nome tradicional deles, Melchior, Baltasar e Gaspar? Estes nomes não se encontram na bíblia, mas apenas num manuscrito escrito em Alexandria por volta do ano 500 d.C. denominado Excerpta Latina Barbari.

Os magos voltaram por outro caminho para não dizer a Herodes onde estava o menino e José, avisado em sonho pelo anjo, partiu para o Egito.

Quando Herodes percebeu que havia sido enganado pelos magos, ficou furioso e ordenou que matassem todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e nas proximidades, de acordo com a informação que havia obtido dos magos.
Mateus 2:16

Meninos de dois anos para baixo? Então já fazia uns dois anos que o menino havia nascido até a visita dos magos que se deu em Belém. E o anjo novamente apareceu em sonho a José para que ele voltasse para a Judeia.

Mas, ao ouvir que Arquelau estava reinando na Judeia em lugar de seu pai Herodes, [José] teve medo de ir para lá. Tendo sido avisado em sonho, retirou-se para a região da Galileia e foi viver numa cidade chamada Nazaré. Assim cumpriu-se o que fora dito pelos profetas: “Ele será chamado Nazareno”.
Mateus 2, 22-23

Está claro pelos versículos acima que os pais do nazareno não moravam em Nazaré, mas em Belém, e só depois deles terem voltado do refúgio no Egito é que eles foram morar em Nazaré. E aqui percebemos mais um desvio na famosa história.

Perceba que o massacre dos inocentes e a fuga para o Egito soa muito como a história de Moisés, onde o faraó mandou matar os recém-nascidos e Moisés foi acolhido pela filha do faraó, uma egípcia (Êxodo 1:15-22; 2:1-10).

Alguém poderia perguntar: em que parte do antigo testamento está escrito “Ele será chamado Nazareno”? Em lugar nenhum. O que mais se aproxima deste texto é Juízes 13,5, que diz “o menino será nazireu”, o que quer dizer consagrado. Neste caso, o menino é Sansão.

Mas onde estão os anjos? E os pastores? E o recenseamento do Império Romano? A visita de Maria a Isabel? As orações, o Magnificat e o Benedictus? Mateus não conta nada disso. Quem nos conta isso é Lucas.


Evangelho de Lucas


Tudo começa no nascimento de João Batista.

Abraão e Sara já eram velhos, de idade bem avançada, e Sara já tinha passado da idade de ter filhos.
Gênesis 18:11

Opa! Desculpem-me, abri a bíblia na página errada.

Certo homem de Zorá, chamado Manoá, do clã da tribo de Dã, tinha mulher estéril. Certo dia o anjo do Senhor apareceu a ela e lhe disse: “Você é estéril, não tem filhos, mas engravidará e dará à luz um filho. Todavia, tenha cuidado, não beba vinho nem outra bebida fermentada, e não coma nada impuro; e não se passará navalha na cabeça do filho que você vai ter, porque o menino será nazireu, consagrado a Deus desde o nascimento; ele iniciará a libertação de Israel das mãos dos filisteus”.
Juízes 13:2-5

De novo, abri a bíblia na página errada. Ah, agora sim:

No tempo de Herodes, rei da Judeia, havia um sacerdote chamado Zacarias, que pertencia ao grupo sacerdotal de Abias; Isabel, sua mulher, também era descendente de Arão. Mas eles não tinham filhos, porque Isabel era estéril e ambos eram de idade avançada.
Então um anjo do Senhor apareceu a Zacarias, à direita do altar do incenso. O anjo lhe disse: “Não tenha medo, Zacarias; sua oração foi ouvida. Isabel, sua mulher, lhe dará um filho, e você lhe dará o nome de João. Ele nunca tomará vinho nem bebida fermentada, e será cheio do Espírito Santo desde antes do seu nascimento.”
Lucas 1:5,7,11,13,15b

Compare também com este trecho:

Diga o seguinte aos israelitas: Se um homem ou uma mulher fizer um voto especial, um voto de separação para o Senhor como nazireu, terá que se abster de vinho e de outras bebidas fermentadas.
Números 6:2-3a

A mesma temática encontra-se também em 1 Samuel 1. Está claro que a história de Lucas a respeito de João Batista foi adaptada das escrituras. E veja também que, para Lucas, este é o nazireu. Também são encontrados paralelos no antigo testamento para os versículos 16 a 25.
Muitos conhecem o que o anjo Gabriel veio anunciar a Maria:

O anjo, aproximando-se dela, disse: “Alegre-se, agraciada! O Senhor está com você!”
Lucas 1:28

Detalhe: a tradução correta é “alegre-se” e não “ave”, a palavra em grego que encontra-se nos manuscritos é chairó, “alegre-se, rejubile-se”. Então, nada de reverência do anjo ao estilo romano.

Portanto o Senhor mesmo vos dará um sinal; eis que uma donzela conceberá e dará à luz um filho, e por-lhe-á o nome de Emanuel.
Isaías 7:14

Emanuel? Opa!

Você ficará grávida e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Jesus.
Lucas 1:31

Lucas copiou o trecho trocando o nome!

Há um problema de tradução comum de Isaías 7:14 (este é o motivo pelo qual eu citei uma tradução diferente deste). Os manuscritos em hebraico deste livro trazem a palavra ha'almah que quer dizer mulher jovem, ou donzela. Ao traduzirem o livro de Isaías para o grego, que era a versão utilizada pelo autor do evangelho, esta palavra foi traduzida como parthenos, que quer dizer virgem. E assim, por um erro de tradução, surgiu a ideia de que Maria deveria ser virgem.

Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi e ele reinará para sempre sobre o povo de Jacó; seu Reino jamais terá fim.
Lucas 1:32-33

Novamente temos um trecho adaptado do livro de Isaías:

Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz. Ele estenderá o seu domínio, e haverá paz sem fim sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, estabelecido e mantido com justiça e retidão, desde agora e para sempre.
Isaías 9:6-7a

Maria, então, vai visitar Isabel “numa cidade de Judá” (não está claro qual cidade). Esta exclama algo parecido com o que se encontra no livro de Judite:

Ozias, príncipe do povo de Israel, acrescentou: “Minha filha, tu és bendita do Senhor Deus altíssimo, mais que todas as mulheres da terra. Bendito seja o Senhor, criador do céu e da terra, que te guiou para cortar a cabeça de nosso maior inimigo!”
Judite 13:23-24

Exceto, é claro, pela parte de cortar a cabeça. (Observação: na minha bíblia, este trecho está no versículo 18). E Maria responde:

“Meu coração exulta no Senhor;
no Senhor minha força é exaltada.
Minha boca se exalta sobre os meus inimigos,
pois me alegro em tua libertação.
Não há ninguém santo como o Senhor;
não há outro além de ti;
não há rocha alguma como o nosso Deus.
Não falem tão orgulhosamente,
nem saia de suas bocas tal arrogância,
pois o Senhor é Deus sábio;
é ele quem julga os atos dos homens.
O arco dos fortes é quebrado,
mas os fracos são revestidos de força.
Os que tinham muito, agora trabalham por comida,
mas os que estavam famintos, agora não passam fome.
O Senhor é quem dá pobreza e riqueza;
ele humilha e exalta.
Levanta do pó o necessitado
e, do monte de cinzas ergue o pobre;
ele os faz sentarem-se com príncipes
e lhes dá lugar de honra.
Pois os alicerces da terra são do Senhor;
sobre eles estabeleceu o mundo.”
1 Samuel 2:1b-5a,7-8

Ou, melhor dizendo:

“Minha alma engrandece ao Senhor
e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador,
pois atentou para a humildade da sua serva.
De agora em diante, todas as gerações
me chamarão bem-aventurada,
pois o Poderoso fez grandes coisas em meu favor;
santo é o seu nome.
A sua misericórdia estende-se aos que o temem,
de geração em geração.
Ele realizou poderosos feitos com seu braço;
dispersou os que são soberbos no mais íntimo do coração.
Derrubou governantes dos seus tronos,
mas exaltou os humildes.
Encheu de coisas boas os famintos,
mas despediu de mãos vazias os ricos.
Ajudou a seu servo Israel,
lembrando-se da sua misericórdia
para com Abraão e seus descendentes para sempre,
como dissera aos nossos antepassados".
Lucas 1:46b-55

Maria voltou para casa, em Nazaré. Não está muito claro se ela ficou para o nascimento do filho de sua prima Isabel. Após o nascimento de João, Zacarias também fez uma oração que provavelmente também foi criada pelo evangelista a partir de alguns salmos e passagens de outros livros.

Houve então um recenseamento “de todo o mundo habitado” (que, em termos da época, quer dizer no Império Romano). E foram então José e Maria para Belém. O menino nasceu, foi envolto em faixas e colocado numa manjedoura, pois não havia um lugar para eles na hospedaria.

Agora vem a visita dos magos, você deve imaginar! Não, Lucas não menciona magos, apenas a visita de anjos e de pastores ao recém-nascido. Os anjos fizeram até um coro louvando a Deus.

Oito dias depois, o menino foi circuncidado. De acordo com a lei judaica (ver Levítico 12:2-4), a mãe deve esperar trinta dias, este é o período de purificação. Lucas narra que, depois deste período, José e Maria foram a Jerusalém para apresentá-lo no templo, oferecendo rolas ou pombos em sacrifício. Lá temos um profeta que faz um pequeno cântico, o Nunc Dimittis, baseada em várias partes do livro Isaías (52,10; 46,13; 42,6; 49,6). Também aparece uma profetisa, de nome Ana, cujas características são bem semelhantes à de Judite (8,4-6).

De Jerusalém, Maria e José vão diretamente para Nazaré, que, conforme a narração, é a cidade onde eles moravam. Enquanto que em Mateus eles receberam a visita dos magos por volta de dois anos após o nascimento do menino, segundo Lucas, eles já voltaram muito antes a Nazaré. E nada de massacre dos inocentes ou de ida ao Egito.

As duas narrativas são muito diferentes e contém contradições entre si. Sendo assim, fica muito difícil confiar nas narrativas do nascimento de Jesus e de João Batista como relatos históricos. Muitos historiadores duvidam que João Batista tenha sequer tido algum parentesco com Jesus.

Mas afinal, no que poderemos confiar então? Como decidiremos quais eventos fazem parte da história e quais foram adicionados a ela? De que maneira separaremos quem foi Jesus Cristo do que as pessoas diziam que ele era?

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Em busca do Jesus histórico 3: Lucas, o mentiroso descarado


Eu mesmo investiguei tudo cuidadosamente, desde o começo, e decidi escrever-te um relato ordenado, ó excelentíssimo Teófilo, para que tenhas a certeza das coisas que te foram ensinadas.
Lucas 1:3-4

O que será que Lucas quer dizer com “investigar tudo cuidadosamente” e “relato ordenado”? Será que Lucas é um historiador e está tentando relatar os eventos de forma precisa, em ordem cronológica? Não, de forma alguma! Lucas decididamente altera não só a ordem dos eventos, como também os próprios eventos, com o intuito de defender sua ideologia.

Analisemos os relatos do nascimento de Jesus que Lucas e Mateus narram em seus evangelhos para tentar descobrir a data aproximada de seu nascimento. Tanto Lucas 1, 5 quanto Mateus 2:1 dizem que Jesus nasceu no tempo do rei Herodes. De acordo com os relatos do historiador Flávio Josefo, Herodes, o grande, partiu deste mundo em 4 a.C. Neste caso, Jesus deve ter nascido antes do ano 4 a.C. Lucas 2:1-2 também diz que Jesus nasceu durante o censo de Quirino. Novamente de acordo com Josefo, o censo de Quirino se deu em 6 d.C. Além do mais, o primeiro diz que o censo foi “no mundo todo”, enquanto Josefo dá a entender que este se deu na Síria e na Judeia. Algo não está correto.

No capítulo 3, Lucas dá uma data aproximada para o início do ministério de João Batista: o décimo quinto ano do império de Tibério César, o que seria em 28 ou 29 d.C. João 2:20 dá outra dica de data para o início do ministério de Jesus: já haviam se passado 46 anos do início da construção do templo de Jerusalém, o que situa este evento entre 27 e 29 d.C. Estas datas estão mais ou menos coerentes. Além disso, Lucas relata que Jesus tinha aproximadamente 30 anos no seu batismo. Se Jesus tivesse nascido em 6 d.C., ele teria por volta de 22 anos no início de seu ministério. Então, nada de nascimento durante o censo de Quirino.

Está claro o motivo pelo qual Lucas tentou colocar o nascimento de Jesus durante o censo de Quirino: ele quer dar uma justificativa para Jesus ter nascido em Belém devido às profecias messiânicas. Afinal de contas, ele era nazareno e não de Belém. Esta parece ser uma total fabricação: nenhum censo do Império Romano teria forçado as pessoas irem à cidade natal para se alistar. Lucas quer nos fazer engolir um sapo. Não, caro leitor, Jesus não nasceu em Belém.

Tem outro sapo que Lucas quer nos fazer engolir: a descendência de Davi. Comparando a genealogia dada por Mateus 1 com a dada por Lucas 3, vemos que elas são extremamente diferentes, exceto a descendência de Abraão até Davi. Há, entretanto, um pequeno erro nesta: Lucas troca Aram por Arni (que são possíveis variantes do mesmo nome) e adiciona um indivíduo, Admin (3:33), que é omitido em alguns manuscritos. Então, aparentemente, mesmo tento o antigo testamento como referência para a genealogia de Davi, Lucas erra. A não ser que Admin tenha sido adicionado posteriormente, coisa que eu, pessoalmente, duvido: é mais provável que este tenha sido retirado dos outros manuscritos para apagar o erro.

De Davi até Jesus (descontando Davi), de acordo com Mateus, temos 27 gerações e, de acordo com Lucas, 42 gerações. E vemos então outro sapo. É possível ver mais um destes em Mateus, onde ele copia as gerações de Davi até Zorobabel dada pelo Antigo Testamento, omitindo algumas para poder separar as gerações em grupos de catorze. E ele não saber contar: o último grupo tem um indivíduo a menos.

O engraçado é que, para argumentar que Jesus era descendente de Davi, Lucas e Mateus não precisavam se dar ao trabalho de inventar uma genealogia, bastava-lhe um pouco de matemática e também considerar mulheres como descendentes. É muito provável que praticamente todo o povo da Galileia, da Judeia e da Samaria da época de Jesus era descendente de Davi. Esta é, portanto, uma profecia verdadeira e inútil.

A teoria mais aceita entre os historiadores é que tanto Lucas quanto Mateus, ambos escritos aproximadamente entre 80 e 90 d.C., teriam utilizado duas fontes em comum: o evangelho de Marcos e uma fonte, denominada Q, que não sobreviveu ao tempo, mas que deveria conter uma lista de ensinamentos de Jesus mais ou menos no modelo do evangelho de Tomé.

Lucas (4:14-15) começa o ministério de Jesus mencionando brevemente que Jesus ensinou nas sinagogas por toda a Galileia e voltou para Nazaré. Lá, vemos o primeiro discurso a ser narrado pelo evangelista (4:16-30).

Jesus lhes disse: “É claro que vocês me citarão este provérbio: ‘Médico, cura-te a ti mesmo!’ Faze aqui em tua terra o que ouvimos que fizeste em Cafarnaum.”
Lucas 4:23

O discurso é rejeitado e os seus conterrâneos tentam jogar o nazareno de um precipício, mas ele escapa. A seguir (4, 31-37), Jesus vai a Cafarnaum para expulsar um demônio. Entretanto, Marcos narra esta expulsão no início do ministério de Jesus e só tempos depois é que ele volta a Nazaré para pregar. Em Mateus, Jesus também demora um tempo até voltar a Nazaré, onde ele sofre rejeição, embora não de forma tão exagerada quanto Lucas. Então não só Lucas altera a ordem dos eventos, deixando uma pista desta alteração no versículo 23, como também exagera a animosidade dos nazarenos contra o Cristo.

O que está acontecendo? Por que agora Lucas está alterando a ordem dos eventos? Por que, para Lucas, parece tão importante que Jesus tenha começado tudo em Nazaré? E por que ele está tentando exagerar a rejeição que o profeta sofrera em sua terra natal? Por que tanta confusão?

Vejamos mais uma alteração de ordem na narrativa. Há um consenso entre os historiadores que o autor do evangelho de Lucas é também o autor de Atos dos Apóstolos.

E Saulo estava ali, consentindo na morte de Estêvão. Naquela ocasião desencadeou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém. Todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e de Samaria.
Atos 8:1

E pulando três capítulos:

Os que tinham sido dispersos por causa da perseguição desencadeada com a morte de Estêvão chegaram até à Fenícia, Chipre e Antioquia, anunciando a mensagem apenas aos judeus. Alguns deles, todavia, cipriotas e cireneus, foram a Antioquia e começaram a falar também aos gregos, contando-lhes as boas novas a respeito do Senhor Jesus.
Atos 11, 19-20

De novo, seu Lucas? O autor aqui parece ter uma fonte escrita com os relatos a respeito da morte de Estêvão, mas decide cortar a narração em duas partes para inserir três capítulos do seu livro entre elas para só depois colocar a conclusão da história. Mas o que haveria de tão importante para ser colocado antes da história de um grupo de cristãos anônimos indo pregar em terras não judaicas?

Eis a explicação: ao longo dos Atos dos Apóstolos, Paulo vai de cidade em cidade, pregando primeiro aos judeus, é rejeitado e depois vai pregar aos gentios. A evangelização em Atos começa em Jerusalém, onde há grande rejeição do cristianismo, e depois parte para a Judeia, para a Samaria, depois para os gentios e finalmente chega em Roma, que simboliza o mundo. Ou seja, cada vez mais longe de Jerusalém. A teologia de Lucas é que todo verdadeiro profeta começa em casa, é fortemente rejeitado e depois parte para fora de casa, onde é aceito, embora sempre seja perseguido.

Oras, se Jesus é verdadeiro profeta, ele deve ter começado a pregação em sua própria casa. É por isso que Lucas coloca o primeiro discurso importante de Jesus em Nazaré e narra uma forte rejeição. Esse também é o motivo por que o autor atrasa a narração das pregações dos cristãos anônimos: entre Atos 8 e 11, acontece a pregação de Filipe na Samaria e depois a de Pedro aos gentios. Para o autor, é preciso que alguém pregue na Samaria antes que os gentios também recebam a boa nova. A primeira pregação aos gentios (incluindo gregos) deve ser feita por alguém importante, como Pedro, não por indivíduos anônimos que fugiram por causa da perseguição a Estêvão. Isso estragaria a ideia que Lucas quis passar aos leitores.

Deixe-me esclarecer uma coisa. É provável que o evangelista, seja ele Lucas, o conhecido companheiro de Paulo, ou quem quer que seja, não esteja mentindo por mal. Ele talvez tenha pensado que ele estava corrigindo a história, fazendo ela se aproximar mais da história original. De fato, muitos cristãos tentaram fazer isso de diversas formas, antigamente não existia preocupação com a objetividade dos relatos históricos. De qualquer forma, tanto o relato deste quanto dos outros evangelistas devem ser analisados com ceticismo. Para podermos obter um retrato preciso da história por trás do evangelho, é preciso filtrar as adulterações.

E as mentiras de Lucas não param por aqui...


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