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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Os santos "incorruptos": como mentiras se tornam verdade

É a mão divina estendendo-se sobre os corpos desses indivíduos exemplares como testemunho de sua santidade. Incorruptos na vida, incorruptos também na morte. Mesmo após séculos desde a morte deles, seus corpos estão tão bem preservados que eles até parecem estar dormindo. E não só isso: ao contrário do que comumente acontece com cadáveres, estes não fedem a podridão da morte, mas exalam o perfume da santidade. Santa Bernadete - talvez o caso mais famoso - parece estar à espera do beijo de um príncipe encantado. Um verdadeiro milagre, é impossível que haja outra explicação.

Bem, pelo menos, isso é o que dizem por aí. Há inúmeras na Internet afirmando que a incorruptibilidades dos santos é verdadeira e que a ciência não consegue encontrar uma explicação plausível, natural para este fato... Então só pode ser verdade!

Santa Bernadete de Lourdes
Será?

Vamos analisar a história do corpo de Santa Bernadete após a sua morte, em 1879. Note-se que o site contando a história é católico. Trinta anos após a sua morte, o corpo foi exumado para ser examinado para processo de canonização. Um cirurgião e um doutor examinaram o corpo sob juramento. O estado de preservação do corpo era "perfeito" (sic).

O hábito estava umedecido, o rosto estava pálido. Ao remover o hábito, perceberam que os membros estavam rígidos e tensionados - e, de fato, o corpo todo estava rígido, de tal maneira que eles puderam virar e desvirar o corpo. As costelas estavam protuberantes e o estômago estava afundado. As partes mais baixas do corpo estavam enegrecidas, o que "parecia ter sido resultado do carbono que foi encontrado em grandes quantidades no caixão". As freiras que acompanhavam o procedimento lavaram o corpo e colocaram-no em um novo caixão. Nas poucas horas que o corpo ficou exposto ao ar, ele começou a escurecer. O caixão foi selado e guardado.

Escurecer? Hum...

O próprio texto diz que a preservação do corpo não é necessariamente milagre, mas pode estar ligado com as condições em que o corpo foi sepultado.

Dez anos depois, o corpo foi novamente exumado e analisado por dois doutores. O corpo estava praticamente mumificado. A pele estava ausente em alguns lugares, embora ainda estivesse presente na maior parte do corpo. Algumas das veias estavam ainda visíveis. Os músculos estavam atrofiados, mas bem conservados, a pele estava enrugada devido aos efeitos da umidade do caixão.

A última exumação se deu em 1925. Nesta ocasião, o corpo foi envolto em faixas, exceto no rosto e nas mãos. O rosto foi impresso para que a firma de Pierre Imans de Paris pudesse criar uma leve máscara de cera baseada nesta impressão e nas fotos disponíveis. Isto era uma prática comum, pois o enegrecimento da face e afundamento dos olhos poderiam dar uma impressão desagradável ao público.

Convido-o, caro leiro, a examinar as máscaras de cera nas fotos de vários santos. Veja também quantas vezes a palavra wax (cera, em inglês) aparece nesta página que defende que a incorruptibilidade dos santos é um milagre.

É assim, caro leitor, que se esconde a verdade, para que o povo não "perca a fé" - ou seja, não questione e continue pagando o dízimo. Com uma máscara de cera.

São Pio de Pietrelcina
Nos últimos 15 anos, entretanto, uma nova visão dos Incorruptos começou a emergir. A pedido do Vaticano, patologistas, químicos e radiologistas italianos estiveram estudando os corpos de homens e mulheres antigos enterrados nos relicários das igrejas. [...]

Em Cortona, Fulcheri juntou-se aos outros examinadores, fazendo o juramento requisitado a todos os participantes de tais procedimentos: ele jurou respeitar os restos dos santos, de não pegar nada e de dizer a verdade a respeito das suas descobertas. Então ele e seus colegas romperam os lacres do relicário e carregaram o corpo da santa [Margarita] a uma área privada da catedral. Conforme Fulcheri levantou gentilmente a borda de seu vestido sobre suas pernas, todos os reunidos começaram a murmurar. Várias longas incisões haviam sido feitas ao longo de suas coxas; havia outros cortes mais fundos ao longo do abdome e peito. Claramente feitos após a morte, eles haviam sido costurados com uma linha grossa e preta. Santa Margarita fora artificialmente mumificada.

Investigando documentos históricos e eclesiásticos, Fulcheri fez uma descoberta surpreendente: "As pessoas [de Cortona] pediram à Igreja que a embalsamasse," diz ele. De acordo com os relatos, eles fizeram este pedido publicamente. Mas ao longo dos séculos, este fato havia se perdido. As pessoas assumiram, dado o estado do seu corpo, que ela havia sido preservada por um ano divino. Os reconhecimentos canônicos realizados no corpo pouco fizeram para corrigir o relato. Os examinadores detectaram a fragrância dos unguentos e especiarias sobre ela, mas eles estavam muito embaraçados para fazer nela um exame físico completo. "Eles haviam puxado seu vestido para trás, mas só um pouco para ser sincero," observa Fulcheri.
(Cópia disponível neste link)

O texto acima fala sobre a mumificação artificial que foram feitas em outros santos: Santo Emiliano, São Gregório Barbarigo, Santa Clara de Montefalco, Beata Margarita de Metola, Santa Catarina de Siena, São Bernadino de Siena e Santa Rita de Cássia (os últimos cinco receberam cortes de forma similar à Margarita de Cortona). O Padre Pio também não escapa à lista dos embalsamados - e, apesar disso, seu rosto estava degradado na sua exumação, 40 anos após sua morte, e, por isso, foi colocada sobre seu corpo uma máscara de cera. Há outros santos cujas tumbas favoreceram a preservação dos corpos por suas condições químicas e de temperatura, causando uma mumificação natural.

Santa Clara de Montefalco
A preservação de corpos varia muito com as condições ambientais a que o corpo é submetido. Isso, de fato, não é completamente compreendido pela ciência. Frequentemente, porém, há confusão entre as pessoas quando se diz que a ciência não compreende algo - isso não é nem de longe prova de que não há uma explicação e nem mesmo que a ciência não é capaz de chegar a uma conclusão. Se a ciência não compreende, é porque falta evidências ou tempo de pesquisa para encontrar a resposta à pergunta.

Afirmar a ausência de explicações por parte da ciência é prova de que há um milagre é uma falácia conhecida como argumentum ad ignorantiam (argumento da ignorância).

Os santos católicos não são em nada especiais - há santos da Igreja Cristã Ortodoxa, monges budistas e até pessoas comuns cujos corpos se preservaram acima do comum. Cerca de 20 budistas sofreram mumificação após uma rigorosa dieta para emagrecer e tornar o corpo tóxico a parasitas, permanecendo isolados numa caverna, que era selada por um tempo após o falecimento para depois ser aberta para verificar se ocorreu a mumificação.

O vídeo abaixo atesta que os cientistas estão "perturbados" com a preservação do monge Lambo Lama Liigelov. Entretanto, sabe-se que seu corpo foi preservado com sais de brometo.


Há interesse tanto religioso quanto financeiro nas relíquias de santos e é por este motivo que eles são frequentemente embalsamados e desenterrados. A enorme quantidade de relíquias de santos com preservação acima da média é demonstração, não de algum milagre, mas de como as pessoas têm um fascínio por eles. Quer eles mereçam tal fascínio, quer não.

Quero chamar-lhe a atenção, caro leitor, a todo este rebuliço acerca dos corpos dos santos. Se alguém desenterra um indivíduo qualquer - que, sabe-se, não foi nenhum santo - e percebe que seu corpo está razoavelmente preservado, pode até se espantar, mas não sairá gritando "milagre" pelos telhados. Muitas vezes testemunhei o fascínio de leigos pelas múmias egípcias, afirmando que muitas delas estavam inexplicavelmente preservadas, mas nenhum deles testemunhava que a única explicação para isso seria uma intervenção sobrenatural.

Por outro lado, se o corpo é de um santo... as pessoas tornam-se extremamente crédulas. Qualquer sinal de preservação - por menor que seja - torna-se, do ponto de vista dos fiéis, inexplicável, até mesmo para a ciência, senão por milagre. Os fatos são cada vez mais exagerados conforme são transmitidos de boca em boca e poucos se preocupam em certificar-se de que os relatos são verdadeiros. Em pouco tempo, aparecem páginas de Internet com aparência de científicas atestando para a incontestabilidade da existência de milagres, apesar dos autores não terem sequer estudado putrefação de corpos.

E assim fica a lição: relatos populares são exagerados. As pessoas acabam por inventar algumas mentiras e exagerar outras para defender seu próprio ponto de vista. De forma não intencional, diga-se de passagem, e é exatamente por isso que elas soam tão convincentes: pois não são mentiras maliciosas, mas sinceras.

O mais revoltante nisso tudo não é a confusão ou a credulidade do povo, mas a (falta de) posição do Vaticano. Não é interessante o quanto a Igreja se pronuncia com tanto vigor acerca de coisas que ela não sabe? Por exemplo, as vontades divinas, entre tantas outras coisas que são impossíveis de se saber e, principalmente, de se contestar. Entretanto, quando se trata de algo que ela realmente sabe, mas que seria inconveniente para ela que as pessoas soubessem, ela se cala feito uma porta! Afinal de contas, que problema há em transgredir o sétimo mandamento em nome da fé, não é? Que mal há em enganar as pessoas - ou deixar de esclarecê-las - para que elas continuem a acreditar? Para a Igreja, ironicamente, é inconcebível que as pessoas se "enganem" a respeito da camisinha, "achando" que ela é permissível, mas que elas não saibam que santos foram embalsamados e receberam máscaras de cera, ah, aí não tem problema! Que as pessoas continuem caminhando de joelhos para pagar promessas aos santos, isso lhe é extremamente conveniente e não lhe pesa nem um pouco na consciência que o façam por uma ilusão.

Desde que continuem católicas, não há problema algum!

Alguém no passado cometeu um enorme erro ao dizer que fé é uma dádiva divina, um presente do Espírito Santo. Quando percebe-se que os mais esclarecidos, em nome da fé, permanecem de braços cruzados enquanto os fiéis iludem-se uns aos outros, isso é sinal de que a história foi longe demais. É uma ilusão acreditar que agir de tal maneira é justo e bom "aos olhos de Deus", quando, de fato, estão mascarando a verdade com uma máscara de cera. Ao venerar os santos como seres extraordinários, a santidade torna-se inalcançável e os santos, inimitáveis. Como santidade é erroneamente confundida com bondade, o resultado é que as pessoas acabam por concluir que bondade é difícil, um fardo, que é alcançada através da fé, da religiosidade e que a mais verdadeira e pura bondade está reservada a estes semideuses os quais chamamos santos. Mentiras e mais mentiras vão se tornando verdade sem que ninguém perca o sono por isso.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Credulidade

Se, por um lado, religiosos não costumam aceitar pontos de vista diferentes do que a sua religião prega, por outro, o ponto de vista da própria religião não é questionado. Quando um líder religioso abre a boca, não há discussão, discordância, argumentação, ainda que fatos controversos e até absurdos sejam apresentados. Se alguém pensa diferente, esse pensamento é engolido. Às vezes este é colocado em forma de dúvida, mas nem sempre a dúvida é esclarecida, pois evita-se confronto e questionamento. Se alguém levanta a voz, o clima é de desprezo e repreensão, não pelo conteúdo do que é dito, mas pela atitude. Não que isso seja incomum na sociedade, mesmo em outros meios, como, por exemplo, nas escolas ou em família: é uma forma de agir enraizada na cultura. Entretanto, não há repreensão à atitude de se criticar o que é ensinado na escola em outros ambientes, mas, estranhamente, as religiões foram colocadas socialmente num patamar acima de críticas.

Outra peculiaridade da religião é que as afirmações são feitas de forma desonesta e covarde. Por exemplo, alguém poderia afirmar que uma árvore é mágica e, por causa disso, ela é capaz de andar, falar e ouvir e que, se você for até ela e pedir que ela compre uma bicicleta para você, ela o faz; uma árvore ambulante que faz favores. Mas esse tipo de afirmação não é feito pelos religiosos, pois, se fosse, quem acreditaria? E, se acreditassem, na hora de fazer um pedido, veriam que é mentira. Entretanto, se alguém afirma que esta árvora, durante a lua cheia, realiza pedidos; ela não sairia do lugar, continuaria sendo uma árvore imóvel, mas o seu pedido seria magicamente realizado. Isso sim é acreditável. Como você poderia verificar que essa afirmação é falsa? É possível, mas é bem difícil: se o seu desejo não foi realizado, inventa-se uma desculpa do tipo “você não teve fé o bastante” ou “o seu desejo ainda será realizado”. Entretanto, se um desejo acontece, então a mágica da árvore fica demonstrada aos olhos dos que são nela crentes, embora a árvore pode simplesmente não ter tido nada a ver com isso.

Considere, por exemplo, a crença de se jogar uma moeda numa fonte e fazer um pedido. As pessoas não se importam se isso fará o desejo realizar-se ou não, tudo o que importa para elas é o direito de acreditar que sim. Ou seja, elas preferem ficarem enganadas a serem esclarecidas, porque isso ainda lhes dá uma falsa esperança, uma ilusão. Essa é a origem da credulidade: o desejo de acreditar. E esse também é o motivo pelo qual se critica a crítica, não o seu conteúdo, mas a mera atitude de criticar. Por exemplo, se um grupo de pessoas está jogando moedas numa fonte e aparece um cético entre eles comentando que fazer pedidos para uma fonte não funciona, este é taxado de chato. Por qual motivo? Porque ele acabou com a crença, não porque ele está errado.

O desejo de acreditar, entretanto, não se transforma em uma crença real. A maior prova disso é que evidências não são capazes de destruí-lo. Não importa quantas evidências aparecerem de que uma fonte não realiza desejos, moedas continuarão a serem jogadas na fonte.

Bem, a esta altura, a objeção do leitor, obviamente, é que acreditar numa fonte e perder umas moedas não faz mal, faz? De fato, não faz. Porém, quando a crença em questão faz com que grupos de pessoas virem-se uns contra os outros, façam pressão sobre políticos e cidadãos comuns para que eles participem da mesma crença e realizem os desejos por ela motivados, tornem-se um obstáculo à ciência e à mudança e quando esta credulidade faz com que as pessoas tenham a ilusão de que estão ajudando quando não estão, ou pior, quando isso faz com que elas atrapalhem aqueles que realmente estão tentando ajudar... Bem, neste caso, não se pode mais caracterizar essa credulidade como sem consequências.

O maior instrumento na manutenção da credulidade é a ilusão que a religião dá aos fiéis de que crer sem questionar é uma virtude denominada fé que está acima de qualidades realmente benéficas como bondade. Infelizmente, isto acaba com a curiosidade e o ceticismo, que são fundamentais no aprendizado, na exploração e no desenvolvimento de qualquer área do conhecimento humano. A afirmação que a fé não é somente acreditar mas que acreditar sem questionar faz parte da fé não melhora em nada o problema, apenas torna ainda mais convincente a falsa noção que credulidade é uma virtude.

A crença em oração ou outro tipo miraculoso de cura é capaz de evitar que o doente procure ajuda real e de criar uma expectativa que se transforma em frustração. Um exemplo é dado no documentário Miracles for Sale do ilusionista Derren Brown.

Outro exemplo: muitos monastérios e conventos estão cheios de pessoas que se dedicam o dia todo, a vida toda em rezar. Agora, qual o benefício real que é trazido por isso? Por que, ao invés de rezar o tempo inteiro, essas pessoas não dedicam a vida a ajudar quem precisa? Alguém poderia dizer que o benefício é mágico, invisível, e que a humanidade só não se destruiu ainda porque tais pessoas existem: aí está um exemplo clássico de afirmação infalsificável que é feita com o único propósito de obter o direito de continuar acreditando, satisfazendo o desejo de acreditar, mas sem que haja uma crença real na afirmação. Afinal de contas, que tipo de divindade é essa que requer que as pessoas fiquem falando para ele: salve o mundo, salve o mundo, para que ele se incomode e salve o mundo? Este deus por acaso não sabe que o mundo precisa ser salvo, ou será que ele está de birra com o homem de forma que é preciso insistir? E que tipo de oração é essa que alguém faz negando-se a agir de forma concreta? Não seria o próprio trabalho uma forma muito melhor de demonstrar a Deus ou a quem quer que seja o quão dedicado você está a resolver um problema?

Minha intenção não é ofender ninguém, criticar não é o mesmo que ofender. O que me incomoda é a boa vontade que é direcionada para o lado errado simplesmente para satisfazer a neurose de alguns em acreditar que o mundo precisa de algo que, na verdade, não precisa. Sem falar em como estas pessoas estão sendo iludidas de que estão fazendo algo de bom para o mundo. Não tenho intenção ser uma barreira à liberdade de escolha de cada um, pelo contrário, quero que todos tenham conhecimento a respeito das escolhas que fazem para que a escolha seja realmente livre. Todos têm o direito de fazer críticas, sejam críticas certas ou erradas, desde que respeitosas e desde que saibam colocar limites, pois criticas são não apenas úteis mas também necessárias. Quem não recebe críticas faz o que quer, não o que precisa. E se nós não batermos o pé e formos contra os conceitos mais básicos e fundamentais da sociedade a fim de que eles sejam repensados, então quem fará isto por nós?


Tem um pequeno detalhe a respeito da realidade que os crentes não dão suficiente importância: o desejo de que algo seja real não o torna real, não há nenhum benefício neste desejo. Não é acreditar que a fonte realize desejos que vai fazer com que a fonte, de fato, realize desejos. Por mais que você queira que uma pedra se mova, ela não se moverá até que você decida pegá-la e tirá-la do seu lugar. Da mesma forma, deixar de acreditar em um fato não o torna irreal, então não há mal algum no ceticismo, ao contrário do que diz a propaganda. Se Deus existe, desacreditar na sua existência não o fará desaparecer. Por que ele se ofenderia com a descrença? Ele não deveria estar acima dessas vaidades humanas? Jesus que me perdoe, mas esta fé, mero eufemismo para credulidade, não é capaz de mover montanha alguma.
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