quinta-feira, 28 de julho de 2011

Histórias de um religioso fanático, capítulo 6: Às avessas


Acreditava que ainda restava-me uma forma de evitar a condenação eterna: a vocação. As filosofias do antigo coordenador ainda dominavam-me a mente: ouvira dele que responder ao chamado divino, a vocação, poderia levar-me ao paraíso, se feito com dedicação. Isso foi o que afastou-me da minha fobia irracional, não tinha como errar, gostava de estudar, aprender, descobrir. Não iria me preocupar em tornar-me um santo ou uma pessoa profundamente religiosa: bastava-me a Física ou, mudaria de opção mais tarde, a Matemática.

Ao entrar na universidade, para minha surpresa, encontraria colegas ateus, agnósticos, vários deles. Não me assustei, afinal de contas, já sabia que havia poucos religiosos doutores, mas estes colegas eram um incômodo. Tive em várias discussões a respeito de religião com meus dois amigos Jonas e Luiz Fernando. É bem difícil discutir com um religioso, quanto mais com um fanático, porque qualquer argumento é levado para o lado pessoal. Se alguém me dizia que eu acreditava em algo absurdo, ofender-me-ia. Qualquer argumento que atacava a minha fé faria com que o sangue subisse à minha cabeça, eu não tinha a humildade de admitir que não sabia a resposta, quanto mais que eu concordava com o ponto apresentado pela contraparte ou, pior ainda, que eu acreditava estar errado. Ah, não, isso eu não podia dizer, não poderia demonstrar fraqueza, falta de fé, mas eu percebia que eu não me saía bem nas discussões, não tinha argumentos, não conseguia encontrar a falha no que me apresentavam.

Certa vez, precisava de um marcador de página, peguei a minha bíblia, guardava vários deles no verso da capa. Eles tinham temática religiosa, hesitei, mas decidi que não poderia ter vergonha da minha religiosidade. Além do mais, ninguém veria, veria?
Deixe-me ver? – disse a voz feminina suave ao meu lado.
Deixei, sem jeito, e comecei a tentar explicar que eu peguei aquele marcador porque eu não tinha outro e... Mas o nervosismo não deixava as palavras saírem da minha boca.
Não se preocupe, eu não falei nada.
Vergonha. Até então eu pensava que tinha orgulho de ser um “católico fervoroso”, como eu costumava me intitular. Percebi que estava errado e...

Não, não, caro leitor, você está imaginando coisas... Certo, certo, você não está imaginando coisas. Assim como muitas histórias que se prezem, e espero que esta seja uma delas, nesta também existe um romance em potencial.

Hora da bola fora. Estávamos na fila para a refeição, eu, ela e mais uma amiga, e elas começaram a cochichar demais para o meu gosto. De vez em quando, ela olharia para mim para certificar-se que eu não estava ouvindo. Isso só me deixava ainda mais nervoso. Uma puxou a outra para o banheiro feminino, ao que ela olhou para mim como quem dizendo “Já voltamos...”

Eu esperei, elas voltaram.
Não precisava ter esperado.
Bem, mas eu esperei.
Obrigada.
O agradecimento mais suave que eu já tinha ouvido na vida.

Fiquei calado, eu estava trêmulo, esforçava-me para ela não perceber. Servimo-nos no balcão e sentamos. A amiga era magra – e comia pouco, eu não me conformava muito com isso – enquanto ela, aquela que me deixava nervoso pela simples presença dela, era... gordinha. Ela então virou-se à amiga e comentou:
Você só vai comer isso?
Sim.
É por isso que ela é magra.


A amiga fez um olhar de “Não, ele não disse isso.” Só notei que o que eu falara tinha sido mal interpretado quando vi que ela havia ficado zangada. Não tentei consertar, ah, já era. Abaixei a cabeça e continuei a comer.

Mais tarde no mesmo dia, eu a encontraria, não estava irritada, pelo contrário, estava alegre. Convidou-me para estudar, vamos, vamos estudar. Ensaiava como pediria desculpas a ela – sim, eu planejava abrir o jogo – e diria, é que eu estava nervoso porque...
Olhe quem está aqui, vamos sentar junto com elas...

Droga!

Hora da bola na trave. O professor ainda não tinha chegado, ela comia uma maçã, ofereceu-me um pedaço, aceitei, sem pensar, estava concentrado, pensativo. Disse que queria contá-la uma coisa, demorei um bocado para abrir a boca, olhava para baixo, tomava coragem, nossa, dizia ela, deve ser uma coisa...
Eu gosto de você.
Choque. Alguns segundos.
Eu não imaginava.
Como? Não imaginava? Não me conformava com isso.

Hora da bola dentro.


Não teve bola dentro, este tinha sido meu último chute a gol. Aprendi não sei onde que a gente não precisava se preocupar, Deus preparava uma pessoa na vida da gente... O que eu posso fazer, me contaram aquilo e eu realmente acreditei, ao contrário de tantos que juram acreditar nisso, mas não agem de acordo. Desculpe-me a imaturidade, caro leitor, como eu disse, saí da Laetare ainda com 14 anos. E não me diga que o meu problema é que eu levei ao pé da letra, quanta gente acredita em Adão e Eva e na arca de Noé e ainda não sofre este tipo de problema, o ponto da questão é que eu levei a termo o que disseram-me. Não podia me precipitar, não podia demonstrar falta de fé, eu acreditava que já tinha feito a minha parte e que, agora, estava nas mãos de Deus.

Era prova, seria a última aula que eu teria junto com ela. Terminei cedo. Do lado de fora, pensei em ficar, esperar ela sair e conversar com ela, esperei dois segundos, não, é tarde demais para isso. Fui embora. Se eu tivesse uma máquina do tempo, essa seria a hora em que eu a aterrissaria, dar-me-ia um tapa e apontaria o dedo para o banco, calado, como quem diz: volte lá e sente-se. Entraria novamente na máquina e voltaria para meu tempo, assim mesmo, sem soltar uma palavra, sem dar satisfação alguma.

Meus amigos ateus eram gente fina, pessoas boas, mas eles não tinham o conhecimento que eu tinha de religião, nunca tinham sido tão religiosos quanto eu antes fora. Mas se eu abandonasse o catolicismo como eles o fizeram, tinha certeza, o demônio pouco a pouco tomaria conta do meu coração, eu me afastaria cada vez mais de Deus e, consequentemente, tornar-me-ia alguém sem a menor consideração com o próximo, orgulhoso, talvez até mergulharia no mundo das drogas, e talvez, num instante de fraqueza e raiva, poderia chegar a matar. Eu já era orgulhoso, sabia disso, sempre soube, mas não conseguia deixar de sê-lo, também sabia que discriminava pessoas que não eram tão religiosas quanto eu, mas meus esforços para mudar isso pareciam ser em vão, não conseguia deixar de julgar e não entendia de fato como se fazia para amar os inimigos. Achava que, para lidar com estes problemas, eu deveria tornar-me mais fervoroso.

Uma vez, Jonas me perguntou o que eu achava a respeito da eutanásia, ele contou uma história de um conhecido dele que sentia tanta dor que gritava “Me matem! Me matem!”, eu disse, sem muita vontade, desconfortável que a Igreja Católica dizia que eutanásia era errado. Então ele perguntou “Mas isso é uma opinião sua ou da Igreja?” Fiquei sem jeito, percebi que ele tinha razão, tinha sido uma resposta automática, sem propósito. Eu já não tinha mais tanta certeza de que a Igreja era dona da verdade universal.

Com o tempo, minha frustração foi fazendo com que eu deixasse o catolicismo cada vez mais de lado na minha vida. Cada vez menos fervoroso, é claro, também deixei de ser tão cabeça dura nas discussões com meus rivais, aprendi a dizer “é, você tem razão” e “não, eu não sei” com muito mais facilidade. Meu orgulho foi murchando, cada vez menos eu julgava previamente as pessoas, ou seja, fui perdendo o preconceito. Já não andava de nariz empinado, já não me exibia por aí dizendo que eu era um católico fervoroso, não sentia mais raiva nas discussões...

E assim, sem mais nem menos, deixei de ter preconceito com pessoas não religiosas e aprendi como se ama os inimigos.

Estava cansado de frequentar a missa toda semana, não via propósito algum nisso mais. Perguntei-me então por que eu ainda ia a missa. Não consegui obter resposta alguma, ia apenas pelo mero costume. Indaguei-me o que eu ganhava indo à missa e novamente a resposta era um vazio. Já não conseguia acreditar que ir à missa era realmente a vontade de Deus sem que eu visse propósito algum nela. Deixei de cumprir os três primeiros mandamentos e declarei-me agnóstico. Não acreditava mais no cristianismo e, já havia décadas, não acreditava mais na bíblia como fonte da verdade, seja com ou sem inspiração. Não tinha mais nenhuma... fé.

Tornei-me um revoltado, sentia-me como se alguém tivesse me passado a perna. O tempo fez com que a raiva passasse, e, anos depois que eu havia me declarado agnóstico, resolvi que tentaria entender a fundo os motivos que me levaram a esta decisão. Sabia que estava relacionado à raiva, mas o que me deixara irritado, afinal? Às vezes é bem complicado entender seus próprios sentimentos.

Num belo dia, assim, de repente, tive uma epifania, comecei a entender tudo de forma clara. Eu ficara confuso porque juraram-me de pé junto que ia tornar-me ruim conforme eu fosse deixando a religião de lado, mas isso não aconteceu, o que aconteceu foi o oposto. Antes de eu me tornar agnóstico e começar a perceber que eu estava me tornando uma pessoa melhor ao deixar a religião, pensava: Não pode ser tão fácil assim, não pode ser tão óbvio. Não conseguia conceber como que eu me tornava uma pessoa melhor me tornando... menos religioso! Não fazia nenhum sentido, haveriam me ensinado tudo errado, tudo ao contrário? Não, deve ter algum truque, eu vou me tornar um monstro daqui a pouco!

É por isso que dava passos lentos, tinha certeza que o demônio ia me dominar de surpresa. Mas não aconteceu nada disso, nem de longe. Fui ficando cada vez mais confuso e desta confusão originou-se a minha raiva.

Quando tive a epifania, os pensamentos choviam na minha cabeça, não conseguia parar de pensar e minha cabeça já doía. A chuva de ideias durou horas. Percebi que, de tudo o que me ensinaram dentro da igreja, nada, absolutamente nada havia se concretizado conforme as previsões que eram feitas. Não é à toa que eu ficara confuso.

Eu costumava ouvir:
Quanto mais católico você for, mais aprenderá amar os inimigos, a não julgar, a não ser preconceituoso.
Quanto mais religioso você for, mais bondoso você será.
Cuidado com a ausência de religião, você vai se tornar uma pessoa cada vez pior sem Deus!
Confie em Deus, tenha fé, ele lhe ajudará no caminho e lhe dará tudo o que você precisa.
No cristianismo você aprenderá a dar mais valor à misericórdia que ao sacrifício.
Tendo fé, você não sentirá medo do inferno.
Você precisa ter fé para entender a verdade.
Deus lhe ajudará a não fazer besteiras na vida! – Ai, essa até doeu!

Tudo às avessas!

Eu ouvia tantas afirmações mas me esquecia de verificar se elas eram realmente verdadeiras. Era como se o catolicismo tivera sido inventado com um único propósito: o de não funcionar, o de ser uma mentira completa, de me fazer ficar rodando em círculos sem chegar em lugar algum. Diziam: cace o pato, cace o pato, procure que ele está por aí... e não tinha pato! Eu perdia tanto tempo concentrando-me no sacrifício, que, é óbvio, esquecia-me da misericórdia! Eu me esforçava tanto para ter fé que isso me deixou cego com respeito ao que realmente importava. Como poderia deixar o orgulho de lado se eu julgava ter recebido a... “verdade” que poucos conheciam? Que o próprio Deus me escolhera para recebê-la ao invés dos outros?

O Deus do catolicismo, único e verdadeiro, fora rebaixado ao posto de “o deus do catolicismo”, apenas mais um dentre muitos. Até mesmo este deus denota muitos, tem muitas versões diferentes espalhadas pelo mundo afora, não é único e muito menos pode ser o verdadeiro. Se Deus está por aí em algum lugar, eu pensava, não teve nada a ver com a História.

Dei-me conta que o catolicismo é uma religião extremamente ritualista. Jesus fora prático, direto, desprezava os rituais, não reconhecia a autoridade dos líderes religiosos, não dava atenção aos fanáticos religiosos, não ficava demonstrando extrema religiosidade rezando em público... E a maldita Igreja Católica, fazendo tudo, tudo ao contrário: tudo às avessas! (Assim como eu fazia às avessas o que o Silvanei ordenava antigamente ;) E assim ela deixa todo mundo feito morcego, de cabeça para baixo. E falaram que era o certo... e eu caí feito um patinho!
Olhei no espelho, havia uma bola redonda e vermelha bem no meio da minha cara. Devia ser algum tipo de brincadeira de mal gosto, fiquei pasmo, não sabia como eu havia caído nessa. O inferno era a materialização do fracasso, do medo de tornar-me mau e sem consideração pelo próximo, era o abismo que me impedia de amar os inimigos e que me mantinha perto do sacrifício e longe da misericórdia. O inferno era confusão, falta de controle sobre minhas próprias decisões, sobre a minha vida, aquilo que me impedia de ser eu mesmo e de agir de acordo com minha própria natureza. O inferno era a religião!


Suspirei. Balançava a cabeça de um lado a outro enquanto tirava o nariz vermelho e a peruca festiva. Joguei-os no lixo, abanei-lhes a mão, sorri. Conhecereis a verdade, dizia Jesus, e a verdade vos libertará. A minha dignidade é minha, pensei, o meu corpo é meu, a minha mente é minha: igreja, não és mais a minha dona e não sou mais teu objeto.

< Capítulo 5  Índice 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...