terça-feira, 26 de julho de 2011

Histórias de um religioso fanático, capítulo 4: Os espinhos

A pressão dentro da panela laetariana, pouco a pouco, foi fazendo com que as pipocas estourassem para fora. Dos 40 ou 50 de quando eu entrei sobraram cerca de 15 quase quatro anos depois, que foi quando eu disse para Silvanei que estava saindo. Hoje sobraram uns cinco. Muitos começavam o seminário, mas poucos concluíam a escola de servos. Ficava triste com isso, os amigos que eu mais presava iam embora. Os membros iam saindo um a um, a panela foi ficando magra, vazia.

Eis que o semeador saiu a semear. E, quando semeava, uma parte da semente caiu ao pé do caminho, e vieram as aves, e comeram-na; e outra parte caiu em pedregais, onde não havia terra bastante, e logo nasceu, porque não tinha terra funda; mas, vindo o sol, queimou-se, e secou-se, porque não tinha raiz. E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na. E outra caiu em boa terra, e deu fruto: um a cem, outro a sessenta e outro a trinta.
Mateus 13, 3b-8

Expliquemos o processo da minha partida.

Cada um de nós, noviços, tinha um monitor cuja função era acompanhar e ajudar no desenvolvimento espiritual. O meu primeiro monitor era gente fina, não se preocupava muito e também não dava muita atenção. O que era ótimo para eu que detestava fazer o diário. Depois ele foi embora, pipocou para fora da Laetare, e Silvanei escolheu outro monitor para mim. Conseguia dar um jeito dele não saber que o meu diário espiritual não era diário: não mostrava tudo, dizia que o resto estava em outro caderno, enfim.

Mas minha irmã descobriu. Resultado: o Silvanei instaurou novas regras: os monitores iriam verificar os diários semanalmente, aos domingos. Levei uma bronca, não do Silvanei, mas do meu monitor, ao ver o meu diário. Eu não me defendi, exceto por dizer que não fazia tanto tempo assim (apenas alguns meses) que o meu diário estava completamente longe de ser diário. E que eu havia jogado o antigo diário fora.

É, não me sinto bem por ter mentido, mas entenda, caro leitor, eu não gostava desse ritual. As cartas no novo testamento eram entediantes, repetitivas, e não me ajudavam a entender as ideias da comunidade. Aliás, não pareciam ensinar-me absolutamente nada. Onde estava o Espírito Santo nessas horas que eu precisava dele? Por que ele não me ajudava a enxergar? As leituras iam para o lado que eu queria levá-las, não eram elas que me conduziam, era eu quem as conduzia. Os outros também pareciam fazer o mesmo, pelas coisas que eu ouvia lá dentro, mas não me sentia confortável com isso, para mim alguma coisa estava errada. Ou melhor, tudo estava errado.

Passar-se-iam anos, eu leria o novo testamento mais de uma vez, uma boa parte do antigo e não encontraria nada que tivesse uma clara relação com as ideias da Comunidade ou que me ajudasse a entender o significado delas. E tanto tempo eu permanecia procurando o que não estava escrito que não dava atenção ao que estava.

No novo testamento, só me agradavam os evangelhos, menos o de João. Estranhava-me o quanto os outros gostavam deste, talvez por causa da narração fantástica, espetaculosa, cheia de milagres, Jesus falando o tempo todo que era filho, ou melhor, que era o próprio Deus. Isso não me atraía. O que matou a minha profunda admiração pela vida de Cristo, para mim, foi que ele armou um chicote com um pedaço de corda e expulsou violentamente os mercadores do templo. Como assim, um Jesus violento? Como podia ser?

Já o antigo testamento eu desprezava completamente. Se o chicote já me era demasiadamente violento... Sem falar no tédio, todos aqueles nomes, números, fatos, acontecimentos desinteressantes... Eu acreditava que eu precisaria receber uma inspiração do Espírito Santo para entender a verdadeira interpretação do texto, pois este havia sido escrito propositadamente para que quem não tivesse fé o bastante não pudesse extrair a verdade de lá. Mas nunca obtive tal inspiração. Pedia, orava, suplicava por ela.

Não, não, nada de inspiração. Lá sempre se dizia que, a princípio, o diário espiritual pareceria sem sentido, mas que depois a situação mudava.

Nunca me ocorreu: a bíblia é isso mesmo, se você concorda, concorda, se você discorda, então discorda, nada mais que isso.

Quando eu lia os ensinamentos de Jesus, era-me um espanto: oferecer a outra face? Como assim? Admirava as ideias um tanto excêntricas, alheias até mesmo ao que se conhece por cristianismo hoje em dia. Nunca senti isso em qualquer outra parte da bíblia. Aliás, pelo contrário: minha impressão é que era impossível que o antigo testamento fosse realmente a palavra de Deus.

Enfim, mas depois da bronca que eu levei do meu monitor, passei a fazer o diário direitinho e... Não, desculpe-me outra vez, e o meu ex-monitor que me desculpe novamente, mas acho que, desde que eu entrei, não houve um espaço maior que duas semanas, ou talvez apenas uma, em que eu havia feito o diário todos os dias, sem falha.

Eis o que acontecia: a princípio, fazia o diário da segunda, talvez o da terça, depois fazia vários na sexta, no sábado, às vezes também no domingo, quando apresentava o diário ao meu monitor, sentindo remorso, mas com o firme propósito de fazer tudo direitinho na semana seguinte. Com o passar do tempo, fui fazendo cada vez menos, até que chegou a um ponto onde eu fazia todos os diários, da semana toda, no sábado e no domingo, ou só no domingo, espremido num horário depois do almoço até antes das quatro, pois, de manhã, havia o grupo de oração.

Eu sei, não dá para entender o que raios eu estava tentando conseguir lá dentro. Mas eu estava com o firme propósito de provar para mim mesmo que eu não era um fracasso completo. Não podia levar essa para o meu currículo, tinha que dar certo, de um jeito ou de outro, eu tinha que aprender, eu tinha que conseguir eventualmente. Apesar das minhas bolas fora e do quanto eu era visto lá dentro como “O irresponsável” (pelo menos esta era a minha impressão), sonhava com o dia em que aquele velho tabu se quebraria.

O coordenador da Laetare decidiu dar aulas de percussão. Não, não farei aulas de percussão. Já mal tenho tempo de fazer os diários, hum, o semanário no domingo, ainda vou me ocupar com mais uma tarefa? Não, não, não vou fazer isso, não vou fazer isso, não vou...
Silvanei, quero me inscrever para as aulas de percussão.

Não!!!

Droga!

Sim, eu fiz isso. O semanário passou a ser feito no domingo de manhã, antes do grupo de oração, e mais alguns diários depois do almoço. Se me lembro bem, certa vez, fiz apenas dois diários de manhã, faltavam mais uns quatro ou cinco, mas fiz a proeza de conseguir terminar tudo depois do almoço e ainda chegar bem a tempo para a aula de percussão.

Por que eu me inscrevi na percussão? Acredito que eu sabia, de certa forma, que o que eu precisava fazer para me tornar um servo era impressionar o Silvanei. Não tinha a ver com o quão próximo de Deus eu estava ou não, como ele afirmava, a única coisa que contava era como o Mestre me veria.

Não, não conseguia impressioná-lo de maneira alguma.

Certa vez, estava eu fazendo o semanário no sábado, antes do abastecimento. Pensei que dava tempo de fazer o diário de mais um dia e chegar a tempo para o encontro semanal. Não dava. Vi que estava atrasado, peguei a minha bicicleta e voei. Já fazia tempos que havia um novo lar Laetare, um prédio onde funcionara uma fábrica de pneus. As portas do prédio estavam fechadas. Bem, agora eu não vou gritar para abrirem a porta para mim, seria terrível. O que farei? Como poderei me desculpar por ter faltado? Conclui que não queria levar mais um fora, ser taxado mais uma vez como aquele que não tem disciplina. Iria eu desistir de tudo e abandonar a Comunidade? Não, vou pensar em alguma alternativa.


Não encontrei alternativa. Poderia inventar uma mentira, mas conclui que não seria certo. Desisti. É, eu sei, caro leitor, o que não me faltavam eram motivos para sair, mas ainda assim saí de lá sentindo-me um fracasso. Falava-se muito por lá: caem almas no inferno assim como gotas de chuva na terra, apenas alguns serão salvos. Durante toda a minha estadia na Laetare, acreditava ser bem provável que, se eu então morresse, iria para o inferno. Naquele dia, acreditei mais ainda nesta probabilidade. Eu pensava: como é que eu, sendo o que só dá bola fora, poderia fazer parte do grupo de elite que Deus permite adentrar a sua casa eterna? Sentia medo, mas não apenas de ir para o inferno ser torturado eternamente, afinal de contas, eu desconhecia a tortura que haveria lá. Todo mundo ia parar lá por via de regra, eu seria apenas mais um. Apenas mais um... Essa ideia me dava repulsa, pois isso significava, para mim, ser violento como meus colegas de jardim de infância que me agrediam e eu não revidava, ou como meus colegas de escola também violentos que costumavam me humilhar sem motivo. Inferno era, para mim, a materialização do medo do fracasso em ser uma pessoa boa, a confirmação última de que eu era mau e o seria para sempre, pois no inferno não há arrependimento. O maior medo que eu sentia era o medo da humilhação: eu, lá embaixo, e os outros laetares lá em cima, rostos virados para baixo e vendo-me lá, o menino que só fazia gol contra, que não tinha autocontrole o bastante, o indisciplinado, o mole, aquele que sempre ficou de fora, que nunca se deu por inteiro, o isolado, o quieto, o fracassado. Humilhação era um conceito bem conhecido por mim, detestava a humilhação.

Imaginava no meio deles, lá em cima, a minha mãe, decepcionada: “O que foi que você fez, querido, por que você está aí embaixo? Eu tinha tanto orgulho de você!” Eu jamais teria coragem de olhar para cima.

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