segunda-feira, 25 de julho de 2011

Histórias de um religioso fanático, capítulo 3: Misericórdia, não sacrifício


Entre os laetares havia amizade, alegria, companheirismo, éramos muito próximos uns dos outros. Ao final do seminário e da escola de servos, seguíamos alegremente cantando as nossas músicas pelas ruas, dançando e pulando, desconhecíamos a vergonha. O Silvanei, ele era aquele que ditava as regras. É preciso ter disciplina, exigia ele, disciplina. Claro que ele não tinha aversão à alegria, mas também não demonstrava muito interesse. Mesmo que laetare venha do latim e signifique alegrar-se, essa não era a prioridade do idealizador.

Naquele tempo passou Jesus pelas searas, em um sábado; e os seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas, e a comer. E os fariseus, vendo isto, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado. Ele, porém, lhes disse: Não tendes lido o que fez Davi, quando teve fome, ele e os que com ele estavam? Como entrou na casa de Deus, e comeu os pães da proposição, que não lhe era lícito comer, nem aos que com ele estavam, mas só aos sacerdotes? [...] Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero, e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes.
Mateus 12, 1-5, 7

Para tornar-se um laetare eram necessários meses de preparação, sete semanas de seminário e dez de escola de servos. Talvez seria melhor dizer anos: depois das aulas haveria um período de experimentação para os recém-chegados de teoricamente, no mínimo, um ano. Chamavam-nos de noviços? Não me lembro. Depois os noviços tornavam-se membros, que eram chamados de servos. Eu só vi isso acontecer com dois membros, eu não era um deles. Isso era uma ideia nova do Silvanei, não tinha isso antes de eu chegar.

Aos noviços, assim como aos servos, era permitido participar do abastecimento, a reunião principal de oração e de avisos que acontecia aos sábados, e também da confraternização e do último dia dos acampamentos. O abastecimento não tem hora para acabar, dizia Silvanei, vocês devem ficar aqui até a hora que acabar. Ou seja, até a hora que ele escolhesse.

Quem não fez a leitura no domingo como eu pedi semana passada?
Escola de servos, nossa, leitura, que leitura, ah, é mesmo, na semana anterior Silvanei falara sobre o diário espiritual e pedira que fizéssemos um diário, só uma vez, no domingo, sem falha, para ir acostumando. Devido à minha confusão, não deu tempo de erguer a mão, ele já começou a falar sobre outra coisa. Passara a semana e eu não havia lembrado. Deu-nos um livrinho do padre Jonas Abib.
Diário Espiritual é di-á-rio, não é por mês, não é por ano. Vocês começarão lendo a Primeira Epístola de São João uma vez por dia durante uma semana. Se achar muito, leia um capítulo por dia. Vocês devem escrever num caderno assim, assim e assim.

Eu esperava encontrar a resposta para o que significava “ser quem você realmente é” na bíblia. Aliás, do tanto que se falava sobre isso por lá, eu imaginei que os ensinamentos de Jesus estariam repletos disso. Basicamente, para entender bastava querer (sim, esta era uma palavra carregada), mas você tinha que querer de verdade, e não querer querer, e nem podia ceder às tribulações do mundo. Em outras palavras, você pediria e Deus lhe daria respostas através de uma energia cósmica, ou coisa assim.

Isso de “ser você mesmo” está muito abstrato, não pode dar um exemplo? Claro que não falaria em voz alta, a atmosfera era de respeito, eufemismo para temor, assim como seria frente a um professor rigoroso numa sala de aula.

Aos sábados, no abastecimento, primeiramente, rezávamos o terço. Sentados na calçada. E vez ou outra alguém dizia que precisávamos de mais ânimo.

Por favor, erga a mão quem já conseguiu a proeza de rezar um terço com ânimo.


Depois do terço, hora de escutar uma bronca do Silvanei. Cada dia um motivo. Às vezes era por não haver inscrições o suficiente no acampamento para lotá-lo, e era nossa obrigação convidar pessoas. Talvez devêssemos levar pessoas amarradas, sei lá, o que mais ele esperava? Ninguém mostrava muito interesse para fanatismo religioso e não gostavam muito de insistência da nossa parte toda santa vez que tinha um acampamento. Outras vezes era porque as fraternidades, que eram grupos que nós deveríamos promover nas escolas, não estavam se desenvolvendo direito. A fraternidade só funcionava “direito” em uma ou duas escolas. Nas festas da fraternidade não compareciam muitos além dos nossos, isto é, quando compareciam, e isso também irritava o coordenador. Tem que vender as rifas, tem que vender os jantares...

O jeito dele falar é estranho, eu pensava, o que exatamente todo mundo aqui vê nele? Depois da bronca, tinha as ordens e, depois destas, um discurso comovente, mas não muito comovente, não para mim, pelo menos, tinha que fazer esforço para me comover. Então às orações: cada um rezava, um de cada vez, de acordo com a vontade. Começava devagar, leve, seguido de música. Então, choro. Culpa. Mas de quê? Não sei, tinha a ver com aquela ideia abstrata. Não, eu suspeito que a origem eram as broncas infundadas, mas em que os membros se permitiam acreditar, ou então sentir culpa durante as orações tornara-se hábito. O remorso camuflava-se, é claro, em conceitos abstratos, “Ah, Senhor, como sou pecador, desmerecedor da sua graça! Perdoa-me, Senhor!”

Nas igrejas dos crentes, é “Amém, Jesus!” Lá, era “Sim, Senhor!”, “Senhor” isso, “Senhor” aquilo. Repetia-se este mantra em assincronia, como num eco. Dirigia-se a Deus na segunda pessoa do plural. Uma vez tentei usar 'você' em vez de 'vós' e de trocar 'Senhor' por 'Deus'... Soou estranho, e não responderam “Sim, Senhor!” É óbvio, as pessoas estavam treinadas para ouvir 'Senhor' e 'vós', não 'você' e 'Deus'. Conceitos mais concretos da vida também não eram seguidos do mantra, apenas os confusos, abstratos e sem muito conteúdo.

Naquela época, eu frequentava o curso técnico em Química e nós devíamos, ao final do semestre, entregar um portfólio por disciplina. Era para ter sido feito ao longo do semestre, mas eu tenho mania de deixar as coisas para a última hora. Uma semana antes da data de entrega do primeiro, recebi uma bela bronca dos meus pais, claro, está certo, eu precisava da bronca, fazer o quê? Por conta disso, fui impedido de comparecer à decoração da festa da fraternidade, eu fazia parte da equipe, além de não ter recortado qualquer coisa que eu devia ter lá levado recortada.

Mais tarde no mesmo dia, estava eu lá, ao poste, marco da nossa casa, estranhando a demora em receber uma bronca, eu sabia que receberia. Então o Silvanei aproximou-se de mim. Na confraternização, os alunos de violão iriam tocar para os outros. Eu era um deles e, adivinhe, eu não toquei, fiquei de castigo sentado no canto da sala de aula de braços cruzados, cara amarrada e com um cone comprido sobre a cabeça.

O juiz havia me dito que isso seria apenas uma “consequência” do que eu havia feito, mas qual exatamente é a relação entre falhar com seus deveres na escola e não poder tocar o violão? Ou talvez, em que iria isso ajudar? Ele sempre dizia que a gente deveria andar na linha, deveríamos ser os melhores na sala de aula, os que menos se metem em encrenca, enfim, deveríamos ser modelos de pessoa. Talvez na verdade era o orgulho dele que estava ferido, pois isso de certa forma mostrava que eu não havia colocado Ele, quer dizer, a Comunidade como a coisa mais importante da minha vida.

Uma vez, apareci de bermuda no abastecimento. Por algum motivo, mesmo após anos frequentando-o, nunca havia me dado conta que era regra ir de calças. Em geral, ia-se para a missa das 15h e de lá no abastecimento, e na missa a regra usar calças, então pensei ser este o motivo que, em geral, eu via todo mundo usando calças. Perguntaram-me o que eu fazia com as pernas peladas, respondi que estava com calor.
E você acha que é só você que está com calor.
Ah, não, droga, é regra, ai, o coordenador vai vir de chicote para me coordenar! Não, ele não veio de chicote, mas, ao começar a falar, mencionou que todos deviam vir de calças. Olhei ao redor, não, só eu usava bermudas. Eu não tinha um espelho para ver o quanto meu rosto ficou corado naquela hora.

É por isso que na escola, na hora do futebol, eu era o último a ser escolhido: eu só dava bola fora, o campeão dos gols contra.

Só não tínhamos microcâmeras vigiando nossos passos porque são caras. Não era permitido convidar outros laetares para ir a festas ou qualquer outro evento que não da Comunidade sem permissão. Nem festa de aniversário. Acontece que por vezes ia um grupo de membros a uma festa e os pais dos envolvidos iam reclamar com o Silvanei. Ou seja, ele podia dar bronca, mas não receber, é claro, esta era a nossa tarefa, não a dele. Certa vez, ao voltar da escola de servos, eu e alguns outros indivíduos desviamo-nos do caminho para um estádio onde havia um show... católico. De acordo com o Silvanei, não podíamos ter feito isso.

Também deveríamos avisar antecipadamente se, por algum motivo, tivéssemos que faltar do abastecimento. Esta regra eu também quebrei: no final do ano havia algumas semanas de férias para o natal e o ano novo. Achei que tinha mais uma semana a mais de férias, então fui dormir na chácara de um primo meu para jogar jogos de tabuleiro e nadar.
Vocês não podem faltar sem avisar os seus irmãos. Como é que você deixa todos nós aqui na mão?
Todos nós? Como assim “nós”? Quando alguém faltava, o coordenador era avisado e mais ninguém, e ele não se preocupava nem um pouco de avisar o resto. Quem se preocupavam eram os faltantes, eles é que sempre pediam para alguém avisá-lo, só o que interessava era que ele ficasse sabendo. E, pelo que eu me lembre, só ele ficava incomodado. O resto apenas comentava “Ah, faltou, não pôde vir, fazer o quê, é a vida, né?” Ele, e só ele, tinha a obsessão de controlar cada detalhe que acontecia no mundo laetariano.

Tempos depois ouvi ele dizer que quem não quisesse vir no abastecimento poderia faltar. Ué, por que agora ele mudou de ideia? É que, segundo ele, todo mundo tinha que rezar pelo menos uma vez, ele só queria lá quem estivesse a fim de rezar. Siga a lógica: você não pode faltar sem um motivo, e tem que avisar antes: e, como você pode faltar, se você vier, tem que rezar. Lindo! Kurt Gödel, grande lógico, por que está tão agitado, por que se remexe tanto assim dentro da sua tumba?

Meu diário espiritual não era diário, detestava ler a bíblia e recebi broncas por conta disso. No abastecimento ou em qualquer outra reunião, não podia chegar atrasado, tinha que estar lá com no mínimo dez minutos de antecedência. Nunca fui bom com horário e levei bronca.

Não imagino por que não ganhei um troféu, eu devia ser o único indivíduo que conseguiu quebrar cada uma das regras que o Silvanei inventava. Ah, ele me adorava por isso.

Certa vez resolvi frequentar novamente a escola de servos. Por algum motivo, havia perdido da primeira vez o detalhe principal de toda a teoria: o autoconhecimento. Foi a primeira vez que aquela noção de “ser você mesmo” fez algum sentido para mim. Não me ocorreria tão rapidamente que toda a base sobre a qual a Laetare se fundamentava não encontrava-se na bíblia. Nem mesmo, aliás, no cristianismo, não originalmente pelo menos, mas no budismo. É claro que isso não significa que a ideia era ruim, pelo contrário, autoconhecimento é muito útil, até porque ele o tempo todo me apontava para fora de lá. Entretanto, eu não iria encontrar nada a respeito disso na bíblia, porque, demorei para entender o óbvio, não está lá! Apesar de todas as afirmações em contrário, que faz você brincar de caçar o pato sem o pato.

O que Jesus dizia também gritava para mim: “vá embora”, “te manda, moleque”! Mas eu pensava: se eu aprendi sobre o autoconhecimento lá, o melhor entendimento dessa teoria deveria encontrar-se lá dentro, não é mesmo?

Não é?

Como se diz por aí, as melhores mentiras são em boa parte verdade. Ou talvez seja mais preciso dizer: são ao menos consistentes na base, mas falácias são construídas a partir dela. Se alguém questionar a construção toda, recorre-se à raiz como defesa, pois é mais difícil convencer que a raiz é falsa do que toda a concepção ao redor dela. E as falácias ao redor, juntamente com a mania de controle, sufocam e impedem qualquer tentativa de entender, de fato, a base.

Mas tem que fazer isso na medida certa, é claro. Sufoco demais causa perda de controle.

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