sexta-feira, 22 de julho de 2011

Histórias de um religioso fanático, capítulo 1: Amor aos inimigos


Aos catorze anos de idade, participei de um acampamento realizado por uma comunidade religiosa. Nos quatro anos que nela fiquei por ocasião do acampamento, nunca fiz quinze. A Comunidade era religiosa, católica, não-convencional, extremista, obscura, fechada, sinistra.

Eu não conheço os detalhes a respeito do que aconteceu antes de eu cair de paraquedas no meio das barracas. Minha irmã, sim, pois participou da Comunidade Laetare desde a sua emocionante formação. A princípio, a comunidade, constituída principalmente por jovens, ou talvez seja melhor dizer crianças, de 14 ou 15 anos de idade, participava do grupo de oração realizado às quartas-feiras na paróquia perto da minha casa.

Desconheço os detalhes de como era este grupo: o principal é que houve uma briga. Silvanei, o cabeça laetariano, tomou, em alguma ocasião, uma decisão: parar de frequentar a igreja às quartas. Ele explicou esta decisão aos jovens: não é isso o que a gente vive, eu não vou mais, se vocês quiserem continuar indo ou não, a decisão é de vocês. A decisão era deles, mas os jovens, que o admiravam, brincavam de siga o mestre.

O grupo-de-quarta-feira não gostou de ter perdido membros. A guerra estava comprada e o líder deste grupo tinha as chaves do salão paroquial da igreja Santa Terezinha.
Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.
Mateus 5, 43-48

Mas às quartas-feiras não tem igreja e costuma-se amar os inimigos na igreja, onde os inimigos, espertos, não vão.

Dias depois, a Laetare direcionou-se ao dito salão para algum encontro corriqueiro (provavelmente o chamado “abastecimento”, realizado aos sábados) e encontraram as portas fechadas.

O que fazer agora? Vamos embora? Mas somos irmãos, não podemos nos abandonar! Faremos o quê então?

Rezaremos na rua.

Sentaremos aqui, na calçada, atravessando a rua. Enfrentaremos calor e frio, sol e chuva. Não nos abandonaremos, nem na chuva, pois somos irmãos! O poste será o marco da nossa casa, as estrelas serão nosso teto, e a imunda calçada que pessoas pisam e desdenham rotineiramente será a nossa confortável poltrona.

Mas é claro que tudo se resolveu quando o padre da paróquia... não, desculpe-me, não resolveu-se nada, o padre Arlindo fomentou ainda mais a briga. Nem o bispo conseguiu resolver. Anos mais tarde eu ouviria do padre após uma confissão: “Não existe graça na Comunidade Laetare, eles não têm ligação com a igreja...” Mas quem cortou a ligação deles com a igreja? Os padres todos recusavam ligações com a Laetare, nos acampamentos realizados por ela costumavam serem celebradas missas... mas não dá para realizar uma missa sem um padre.

Durante a missa, Arlindo levantava a hóstia consagrada, virava noventa graus à sua direita e uns oitenta graus à esquerda. É que aos noventa à esquerda ficavam os laetarianos. Eu tinha dito que na igreja ama-se o inimigo? Esqueça. E é assim que os ensinamentos de Jesus acabam se tornando mero instrumento de propaganda. Amar os inimigos, quem é Jesus pra dizer isso?

Anos depois, a Laetare sentar-se-ia em outro local da igreja, não sei se isto era uma resposta ao padre ou o quê. Na missa, cantávamos a música com todos lá dentro e púnhamos ênfase no nosso título:
– Regina caeli, laetare, alleluia.
Não era para irritar o padre, mas é óbvio que a gente sabia que ele se irritava e tínhamos satisfação nisso. Caso contrário, não o faríamos, por respeito.

Pouco depois que eu entrei para a Comunidade, o bispo da diocese da minha terra, Limeira, foi-se, deixando uma carta ao bispo que chegaria pedindo que este tentasse resolver a situação. Compareci à reunião marcada numa salinha no local onde começou a guerra: o Salão.

Aprendi nesta ocasião que, estando certo ou errado, numa guerra, amar os inimigos não é regra de ninguém. A briga foi feia, raiva voando pra todo lado.

O grupo-de-quarta-feira queria que os membros da comunidade voltassem a frequentar as Quartas. Não, não todos, apenas os que costumavam participar antigamente, exceto, é claro, o coordenador da Laetare, por quem sentiam desprezo. Sugeriu-se que os membros do grupo, em troca, participassem também dos semanais laetarianos. Sem sucesso.


Ouçam o padre – dizia um membro das Quartas – ele é o representante de Jesus na Terra!
Arlindo empinava o nariz.
Não, ouçam o bispo! – replicava um membro da comunidade.
Mas como assim, o padre é só um ser-humano! Ele não usava a batina e ele só é o Cristo com a batina, durante a missa! Agora ele é infalível só porque ele é padre? É que eu, naturalmente, não sabia que os padres ganhavam poderes sobrenaturais quando eram ordenados.

O Silvanei mandou todo mundo parar de ir no grupo-de-quarta-feira e todo mundo obedeceu.
Mandou não!
Mandou sim!
Tecnicamente, ele não mandou, mas, e isso já estava claro para mim naquele instante, quando ele dava uma sugestão que seja, todo mundo o seguia, os laetarianos obedeciam-no sem questionar.

Saí da reunião desapontado. Eu que era tão manso, achei que era por causa da minha religiosidade e que os laetares, sendo religiosos, seriam mansos também. Achei que eles entendiam e gostavam da filosofia de amar os inimigos. Bem, talvez eles tivessem certos e só se exaltaram porque não viram saída. Mas eu já não os admirava mais com a admiração que eu tivera. Aquela briga era de crianças.

É evidente a inveja: havia uns 40 na Laetare e uns 15 nas Quartas. Não era nem um pouco importante a liberdade de escolha dos laetarianos, não, queriam acorrentá-los e arrastá-los ao grupo-de-quarta-feira, e ainda por cima com as bençãos do Silvanei! Eles eram meras crianças, hum, nem tanto, já atingiam a maioridade. Briga de macho-alfa, leões, ou melhor, esquilos disputando território num vale-tudo. Arlindo estava com o olhar fixo nas asinhas que nasciam nas costas da Comunidade, mas não tinha a tesoura. O único que a tinha era o coordenador da Laetare. Onde já se viu, um indivíduo qualquer ser mais respeitado que um padre? Fazer com que as pessoas me ouçam sem questionar é direito meu, não seu, pois Eu sou Padre!


2 comentários:

  1. Caraca... que texto difícil de ler.

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  2. http://mostre.me/cultura/entidades/89461-comunidade-laetare

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